Reconhecida pela UNESCO em 2019, Paraty reúne centro histórico do século XVII, Mata Atlântica preservada e o Caminho do Ouro num só território. A cidade da Costa Verde fluminense fica a 240 km do Rio de Janeiro e a 270 km de São Paulo.
O porto que escoou o ouro do Brasil para a Europa
A vila nasceu no século XVII no ciclo da cana-de-açúcar e enriqueceu no ciclo do ouro. O pequeno porto da Baía de Paraty recebia as cargas trazidas por mulas pelo Caminho do Ouro desde Minas Gerais e era o único ponto de escoamento autorizado para Portugal.
A estrada de ferro que ligou o Rio de Janeiro ao Vale do Paraíba em 1870 e a Abolição da Escravatura em 1888 jogaram a cidade no ostracismo. O isolamento que destruiu a economia salvou a arquitetura: por mais de cem anos, Paraty ficou intacta, sem reformas e sem expansão urbana.
Por que a UNESCO escolheu Paraty entre os patrimônios mistos?
Em 5 de julho de 2019, durante a 43ª reunião do Comitê do Patrimônio Mundial em Baku, no Azerbaijão, a UNESCO reconheceu o sítio “Paraty e Ilha Grande: Cultura e Biodiversidade” como Patrimônio Mundial misto. Foi o primeiro do Brasil e o único da América Latina com cultura viva.
Outros sítios mistos do continente, como Machu Picchu, são ruínas arqueológicas. Paraty entrou na lista por combinar centro histórico preservado, comunidades caiçaras e quilombolas ativas e quatro unidades de conservação com 148 mil hectares e 85% da Mata Atlântica preservada.
Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro, é um destino que une perfeitamente história, cultura e natureza exuberante. O vídeo do canal “Vamos Fugir Blog” apresenta um guia detalhado para quem deseja explorar esta cidade, que é Patrimônio Mundial da UNESCO:
O que visitar entre as ruas de pedra do centro histórico?
O conjunto colonial cabe em menos de 20 ruas, todas para pedestres, com calçamento em pé de moleque que enche d’água nas marés mais altas. Dá para conhecer o essencial em uma tarde caminhando.
- Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios: a maior do centro, em estilo neoclássico, palco da tradicional Festa do Divino.
- Igreja de Santa Rita: a mais antiga em pé, construída em 1722 à beira-mar, abriga o Museu de Arte Sacra.
- Igreja de Nossa Senhora do Rosário: erguida em 1725 pela Irmandade dos Homens Pretos, com altar barroco preservado.
- Capelinha de Nossa Senhora das Dores: a mais nova das igrejas, construída em 1800, abre apenas aos sábados.
- Forte Defensor Perpétuo: construído em 1822 no Morro da Vila Velha para defender a Baía de Paraty, hoje abriga museu com vista privilegiada.
- Casa de Cultura: centro com exposições temporárias, sediou o reconhecimento oficial do título da UNESCO em 2022.
- Caminho do Ouro: trecho de calçamento original do século XVIII pelas montanhas, ainda preservado como roteiro de trilha.
Praias e ilhas que cabem num passeio de escuna
A baía abriga 187 ilhas, e os passeios de escuna que partem do centro histórico levam a praias quase desertas em poucas horas. A vila de Trindade, a 25 km do centro, concentra as praias mais selvagens do município.
- Saco do Mamanguá: o único fjorde tropical do Brasil, braço de mar de 8 km cercado de morros cobertos de mata.
- Praia do Sono: faixa de areia branca acessível por trilha de cerca de 1h pela Mata Atlântica, sem carros nem energia elétrica.
- Piscina Natural do Cachadaço: em Trindade, formada entre rochas com águas cristalinas para snorkeling.
- Lagoa Azul: parada clássica das escunas, com tom turquesa intenso cercado por rochas.
- Cachoeira do Tobogã: pedra inclinada com queda d’água que vira escorregador natural, no caminho para Penha.
A capital brasileira da cachaça e da gastronomia criativa
Paraty já chegou a ter mais de 100 alambiques em atividade no auge da produção colonial. Hoje sobram sete ativos, com rótulos premiados internacionalmente que ajudaram a render à cidade o título de Cidade Criativa da Gastronomia pela UNESCO em 2017.
A cozinha local mistura herança caiçara, indígena e portuguesa. Os restaurantes do centro histórico servem peixes fresquíssimos, casquinha de siri, polvo e moqueca caiçara, enquanto o Restaurante do Quilombo do Campinho oferece feijoada autogerida pela comunidade quilombola, no quilômetro 584 da Rio-Santos.
A cidade que recebe a maior festa literária do Brasil
A Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) transforma o centro histórico em palco anual de debates, lançamentos e shows com escritores do Brasil e do mundo. O evento foi criado em 2003 e ajudou a colocar a cidade no circuito cultural internacional.
O calendário também inclui a Festa do Divino, tradição religiosa centenária, e o Festival da Cachaça, que reúne os alambiques remanescentes em provas guiadas. Detalhes da programação ficam no portal oficial de turismo da cidade.
Quando o clima da Costa Verde favorece o passeio?
O verão é quente e chuvoso, com pancadas frequentes que costumam aliviar à tarde. O inverno é a melhor temporada para passeios de escuna, com céu aberto e mar calmo, ainda que com noites mais frias.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à cidade-porto saindo do Rio ou de São Paulo?
De carro, são 240 km do Rio de Janeiro pela Rio-Santos (BR-101), com tempo médio de 4h. De São Paulo, a opção mais rápida desce a serra de Cunha pela SP-171, com cerca de 270 km e 4h30. Os aeroportos mais próximos são o Galeão, no Rio, e Guarulhos, em São Paulo, ambos a aproximadamente 280 km. Ônibus diretos partem das duas capitais com várias frequências diárias.
Caminhe pelas pedras que viram o ouro do Brasil passar
Paraty é dessas cidades onde o passado não foi apagado nem virou cenário de plástico. A combinação de centro colonial preservado, fjorde tropical, mata nativa e comunidades vivas só existe aqui em todo o continente.
Você precisa pisar nas pedras pé de moleque ao entardecer, ouvir o mar bater no calçamento na maré alta e descobrir por que a UNESCO escolheu Paraty para um título único nas Américas.
