A Polícia Federal identificou mensagens que, segundo os investigadores, indicam que servidores que ocupavam posições de destaque na área de supervisão do Banco Central prestavam uma espécie de assessoria informal a Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
De acordo com a investigação, Paulo Sérgio Neves de Souza, então chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (DESUP), e Belline Santana, que comandava o departamento, orientavam o banqueiro sobre quais argumentos apresentar em reuniões com a cúpula do Banco Central.
A perícia realizada no celular de Vorcaro também revelou a existência de um grupo de WhatsApp chamado “Master”, criado posteriormente pelos dois servidores e pelo banqueiro para facilitar o compartilhamento de documentos, minutas e informações.
Orientações antes de encontro com Campos Neto
Um dos episódios identificados pela PF ocorreu em 21 de dezembro de 2023. Naquele dia, Paulo Sérgio enviou mensagens a Vorcaro com orientações sobre os pontos que deveriam ser apresentados em uma reunião com o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.
Entre as recomendações estava a defesa da utilização de créditos tributários relacionados ao antigo Banif, instituição portuguesa cuja operação brasileira havia sido adquirida pelo Master.
O servidor teria orientado Vorcaro a argumentar que os precatórios comprados em 2019 tinham recebido anuência prévia da área de supervisão e que a demora na aprovação da operação de venda do banco teria agravado a situação da instituição.
Também foram sugeridos argumentos envolvendo o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), críticas feitas por grandes bancos e instituições representativas do setor financeiro e as medidas que o Master estaria adotando para reforçar seu capital.
Will Bank e venda do Voiter
Paulo Sérgio também teria preparado Vorcaro para explicar a operação envolvendo o banco digital Will Bank.
Segundo as mensagens, o banqueiro deveria destacar que a aquisição permitiria ao Master ampliar a oferta de serviços bancários e de pagamentos para uma base estimada em 4 milhões de clientes ligados ao Credcesta.
Outro ponto indicado pelo servidor dizia respeito à venda dos ativos do então Banco Voiter ao ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima. A orientação era apresentar a operação como capaz de gerar um patrimônio líquido de aproximadamente R$ 800 milhões.
O antigo Voiter passou posteriormente ao controle de Lima e foi rebatizado como Banco Pleno. A instituição acabou sendo submetida à liquidação extrajudicial pelo Banco Central em fevereiro de 2026.
Assessoria teria continuado em outras reuniões
Segundo a PF, a atuação dos servidores não teria ocorrido apenas antes do encontro com Campos Neto.
Em 5 de fevereiro de 2024, Paulo Sérgio voltou a enviar orientações a Vorcaro antes de uma reunião com Ailton Aquino dos Santos, então diretor de Fiscalização do Banco Central, e integrantes de sua equipe.
Os argumentos envolvendo Banif, Will Bank e Voiter foram novamente incluídos nas instruções. O servidor também teria antecipado perguntas que poderiam ser feitas sobre a relação de Vorcaro com a Reag e com João Carlos Mansur, controlador da gestora.
Servidores revisavam documentos do Master
A investigação também encontrou indícios de que Paulo Sérgio e Belline Santana teriam participado da elaboração e revisão de documentos produzidos pelo Banco Master antes de serem enviados ao próprio Banco Central ou ao FGC.
Em abril de 2025, Paulo Sérgio teria feito alterações em uma resposta preparada pelo Master para o Departamento de Supervisão Bancária, setor no qual ele próprio trabalhava.
Belline, por sua vez, teria participado da redação de documentos encaminhados ao FGC e discutido questões relacionadas a processos de reorganização societária envolvendo o Banco de Brasília (BRB).
Grupo “Master” reunia banqueiro e servidores
Em 2 de outubro de 2025, Belline criou um grupo de WhatsApp denominado “Master”, com a participação dele, Paulo Sérgio e Daniel Vorcaro.
Segundo a PF, o grupo era utilizado para acelerar a troca de documentos, ajustar solicitações e organizar contatos com integrantes da direção do Banco Central.
A perícia encontrou no grupo arquivos em PDF, minutas de contratos, mensagens de áudio e registros relacionados ao agendamento de reuniões virtuais.
PF aponta possíveis vantagens indevidas
Além das mensagens, os investigadores identificaram indícios de que os servidores teriam recebido vantagens custeadas por Vorcaro.
No caso de Paulo Sérgio, a PF aponta o pagamento de uma viagem internacional à Disney para ele e familiares, além de suposta intermediação em negócios imobiliários.
Em relação a Belline Santana, os investigadores apontam pagamentos mensais de R$ 500 mil que teriam sido operacionalizados por meio de contratos considerados fictícios pela investigação. Um dos documentos citados é intitulado “Carta – Projeto Inserção Jovens”.
A PF também aponta repasses realizados por operadores ligados a Vorcaro e o custeio de uma viagem a Paris.
Na avaliação dos investigadores, a atuação dos servidores teria ultrapassado os limites de suas funções no Banco Central e caracterizaria favorecimento de interesses privados dentro da administração pública.
Defesas contestam suspeitas
O Banco Central ainda não havia apresentado posicionamento sobre as conclusões da investigação. Os dois servidores foram afastados da autarquia após uma apuração interna identificar irregularidades e indícios de vantagens indevidas.
Em nota, o advogado Leonardo Palazzi, que representa Belline Santana, afirmou que seu cliente é inocente e sempre exerceu suas funções dentro dos limites de suas atribuições como servidor de carreira do Banco Central.
A defesa também pediu que os elementos sejam analisados de forma integral, sem conclusões baseadas em trechos isolados ou interpretações fora de contexto.
A defesa de Paulo Sérgio Neves de Souza não havia se manifestado até a publicação das informações.