Documentos anexados a um processo trabalhista revelam que a Victory Trading, empresa recentemente sancionada pelo governo dos Estados Unidos por suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), realizava pagamentos a policiais militares do Rio de Janeiro para atuação como seguranças privados de clientes considerados “VIPs”.
Entre os nomes citados está o empresário Kaze Fuziyama, que se apresenta como o mais jovem bilionário do Brasil no setor de criptomoedas.
A ação trabalhista foi movida pelo policial militar Deivison Santos da Silva, que afirma ter atuado como segurança armado pessoal de Fuziyama e de sua família. No processo, a Victory Trading figura como uma das rés, já que ao menos um pagamento ao policial foi feito pela empresa, conforme comprovante bancário anexado aos autos.
A empresa também é alvo de investigações relacionadas ao caso envolvendo o patrocínio da VaideBet ao Sport Club Corinthians Paulista e é suspeita de ter sido usada em um esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção criminosa.
Na defesa apresentada à Justiça do Trabalho, a Victory Trading alegou que os serviços de segurança não eram prestados de forma individual, mas por uma equipe composta por diversos policiais militares.
Uma testemunha afirmou que o grupo era coordenado por um subtenente identificado apenas como Napolitano, responsável por gerenciar uma equipe de cerca de 12 policiais e organizar os remanejamentos para atender Fuziyama.
Outra testemunha, ouvida pela acusação, confirmou a existência da equipe e relatou que quatro policiais trabalhavam em regime de 24 horas, enquanto outros atuavam em turnos de 12 horas exclusivamente para a proteção do empresário.
Os advogados de Deivison sustentam no processo que a Victory Trading funcionava, na prática, não apenas como empresa de tecnologia ou cobrança, mas como instrumento de gestão patrimonial e pagamento de despesas pessoais de Fuziyama, apontado na ação como sócio oculto da companhia.
Formalmente, a Victory Trading pertence a Victor Henrique de Oliveira Shimada. Ele foi condenado pela Justiça Federal de São Paulo em 2025 após receber R$ 35 milhões de uma conta do Banco Votorantim por meio de 2.799 transferências realizadas em apenas 11 horas.
Ainda segundo os autos, a empresa registrou um salto em seu capital social, passando de R$ 110 mil para R$ 30 milhões em 2023.
A acusação também aponta que Maria Estela Marinho da Silva, apresentada como representante legal da Victory Trading no processo, teria admitido em juízo que Fuziyama possuía participação societária na empresa.
Apesar das alegações, a Justiça do Trabalho não reconheceu vínculo empregatício entre Deivison e o grupo econômico ligado a Victor Shimada.
Na sentença, a juíza Vanessa Ferreira de Albuquerque, da 35ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, entendeu que não estavam presentes os requisitos necessários para caracterização do vínculo, como subordinação direta e pessoalidade.
Segundo a magistrada, Deivison atuava como prestador eventual de serviço e recebia ordens do subtenente Napolitano, e não diretamente de Fuziyama.
De acordo com autoridades americanas, a estrutura de lavagem de dinheiro atribuída ao PCC operava principalmente entre São Paulo e o estado da Flórida, nos Estados Unidos.
Em janeiro de 2026, o FBI prendeu seis integrantes do grupo na Flórida por suspeita de lavagem de dinheiro. O Departamento do Tesouro americano aponta Victor Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira como líderes dessa operação.
Segundo o órgão, a organização teria movimentado mais de US$ 30 milhões em recursos ilícitos oriundos de diversas cidades americanas, utilizando criptomoedas para transferir valores ao Brasil em benefício do PCC.
