Erguendo-se como uma fortaleza natural no extremo norte da América do Sul, o Monte Roraima impressiona com seus cerca de 2.810 metros de altitude e seu topo plano que se estende pela tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. Considerado um dos trekkings mais desafiadores e desejados do mundo, o monte atrai aventureiros em busca de paisagens únicas e uma experiência que parece fora da realidade.
Um mundo perdido que inspirou livros e animações
Com bilhões de anos de formação geológica, o Monte Roraima é uma das estruturas mais antigas do planeta. Com paredões verticais e um topo completamente plano, ele forma os chamados tepuis, termo indígena usado para descrever essas montanhas isoladas que se elevam sobre a Gran Sabana, criando um cenário natural de aparência quase extraterrestre.
Com essa paisagem singular, o Monte Roraima atravessou o imaginário da cultura mundial e inspirou obras como “O Mundo Perdido”, de Arthur Conan Doyle, além de servir como referência visual para o filme “Up – Altas Aventuras”, da Pixar. Com piscinas naturais, cristais de quartzo e uma vegetação endêmica preservada há milhares de anos, o topo revela um ecossistema único no planeta.
Como visitar o paraíso?
No lado brasileiro, o Monte Roraima está inserido no Parque Nacional do Monte Roraima, uma unidade de conservação com cerca de 116.747 hectares, criada pelo Decreto 97.887 de 28 de junho de 1989 e administrada pelo ICMBio, no município de Uiramutã, em Roraima. O acesso à região é restrito e exige planejamento prévio, já que se trata de uma área remota e de difícil logística.
Toda a área do parque também se sobrepõe à Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em regime de dupla afetação instituído em 2005, com gestão compartilhada entre o ICMBio, a FUNAI e o povo indígena Ingarikó, que considera o monte a “Casa de Macunaíma”. Por esse motivo, o acesso pelo lado brasileiro só é permitido mediante autorização oficial e geralmente ocorre por expedições guiadas que incluem longas trilhas e escaladas pelos paredões rochosos.
Como é feito o trekking tradicional ao topo?
A rota turística clássica não parte do Brasil, mas da Venezuela. O ponto de saída é a vila indígena de Paraitepuy, acessada a partir de Santa Elena de Uairén, na fronteira com o estado de Roraima.
O percurso tradicional leva entre 6 e 8 dias, com cerca de 90 km de ida e volta. A dificuldade é considerada alta e exige bom preparo físico, experiência em trilhas longas e guia credenciado. O roteiro normalmente inclui pernoites em acampamentos de lona, travessia de rios e a subida pela trilha conhecida como “a rampa” até o platô.
O que se vê no topo da montanha?
O platô tem paisagem lunar, com formações rochosas esculpidas pelo vento e pela chuva constante. Os guias costumam circular por um roteiro com pontos fixos que concentram os cenários mais procurados.
- Marco da Tríplice Fronteira (BV-0): ponto onde se encontram os limites de Brasil, Venezuela e Guiana, e para onde todos os visitantes vão para a foto clássica.
- Vale dos Cristais: área com concentração de cristais de quartzo a céu aberto, sagrada para os povos indígenas.
- Jacuzzis naturais: piscinas escavadas na rocha pelas chuvas e cheias de água cristalina, usadas para banho rápido.
- La Proa: “proa” do monte, o paredão mais icônico da face norte, dentro da porção brasileira.
- El Foso: fenda circular profunda, uma das formações geológicas mais impressionantes do platô.
O que esperar da flora e fauna endêmicas?
O isolamento geográfico do topo criou um laboratório natural onde espécies evoluíram sem contato com o entorno. A Heliamphora, planta carnívora que captura insetos em cálices de água, é o símbolo da biodiversidade do tepui.
A umidade constante e a temperatura mais baixa do platô favorecem musgos, orquídeas e bromélias. Pequenos sapos negros habitam as fendas, e várias espécies ainda não foram totalmente catalogadas pela ciência. A fauna de maior porte praticamente inexiste no topo devido à escassez de alimento.
Qual a melhor época para encarar o trekking?
A região tem clima equatorial com chuvas distribuídas o ano inteiro, mas existem meses mais secos. A frase repetida pelos guias locais é direta: “se não há chuva, não é Roraima”.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo para Pacaraima, cidade-base. Condições no topo costumam ser mais frias. Valores podem variar.
Como chegar ao Monte Roraima?
A porta de entrada brasileira é Boa Vista, capital de Roraima, com aeroporto que recebe voos regulares de Brasília, Manaus e outras capitais. De Boa Vista, segue-se pela BR-174 até Pacaraima, na fronteira, e depois até Santa Elena de Uairén, já na Venezuela. A vila de Paraitepuy, ponto de partida da trilha, fica a cerca de 260 km de Santa Elena, em estrada que exige veículo 4×4.
Suba ao platô onde três países se encontram
Poucos lugares no planeta oferecem uma paisagem tão singular quanto o topo do Monte Roraima, com suas piscinas naturais, cristais a céu aberto e o marco onde três países dividem o mesmo chão. É uma expedição exigente, longa e inesquecível para quem gosta de natureza extrema.
Você precisa escalar o tepui pelo menos uma vez na vida e entender por que ele é considerado uma das paisagens mais impressionantes da América do Sul.