A névoa do Rio Negro ainda cobre a orla quando os primeiros visitantes chegam ao Largo de São Sebastião. Em frente, a cúpula dourada do Teatro Amazonas brilha contra o verde da floresta. Manaus, capital do Amazonas, é a maior cidade da maior floresta tropical do planeta e guarda, a poucos quilômetros do centro, um dos fenômenos naturais mais raros do mundo.
O teatro que a borracha construiu no coração da selva
No final do século XIX, Manaus era uma das cidades mais ricas do planeta. O látex das seringueiras amazônicas movia a indústria europeia e americana, e os barões da borracha queriam uma cidade à altura de Paris. Em 1884, começou a construção do Teatro Amazonas. As obras pararam por anos, foram retomadas e, em 31 de dezembro de 1896, o palco abriu com a ópera Aída, de Verdi, interpretada por uma companhia italiana.
Tudo na construção veio da Europa: o mármore de Carrara, na Itália; as paredes de aço de Glasgow, na Escócia; a decoração em estilo Luís XV, da França; e as 36 mil telhas esmaltadas da cúpula, importadas da Alsácia nas cores da bandeira brasileira. O pintor italiano Domenico de Angelis assinou o teto do salão nobre com a obra A Glorificação das Belas Artes na Amazônia. O edifício foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1966, sendo o primeiro monumento tombado em Manaus. O teatro segue em plena atividade, com o Festival Amazonas de Ópera entre os eventos mais importantes do calendário cultural brasileiro. A visitação ocorre de terça a sábado, das 9h às 17h, e aos domingos, das 9h às 13h.
O fenômeno em que dois rios correm juntos sem se misturar
A cerca de 10 km do centro de Manaus, o Rio Negro e o Rio Solimões se encontram e correm lado a lado por mais de 6 km sem misturar suas águas. A linha divisória é nítida: de um lado, o negro profundo do Rio Negro; do outro, o marrom barrento do Solimões. O fenômeno tem explicação científica: os dois rios chegam ao encontro com temperaturas, velocidades e densidades diferentes. O Negro corre a cerca de 2 km/h a uma temperatura de 27°C; o Solimões, nascido nos Andes peruanos, chega mais rápido, entre 4 e 6 km/h, a 22°C. Depois do longo trecho paralelo, as águas se unem e formam o Rio Amazonas.
O passeio de barco ao Encontro das Águas costuma incluir outras paradas: visita a uma aldeia indígena, aproximação com botos cor-de-rosa e navegação pelos igapós, os trechos de mata inundada na época das cheias. A maioria dos passeios parte do Porto de Manaus ou do Porto da Ceasa. A melhor época para a cheia dos rios e visão mais ampla do fenômeno é entre março e agosto.
O que mais fazer em Manaus além do teatro e do encontro das águas
A cidade guarda um centro histórico rico e atrativos naturais que somam dias de roteiro.
- Mercado Adolpho Lisboa: mercado histórico fundado em 1883, com estrutura metálica inspirada no Les Halles de Paris. Tombado pelo IPHAN em 1987. Peixes amazônicos, frutas exóticas, artesanato indígena e o melhor do aroma do Norte do Brasil. Funciona de segunda a sábado, das 6h às 17h, e aos domingos, das 6h às 13h.
- Centro Histórico e Largo de São Sebastião: a praça com calçamento em pedras portuguesas em formato de ondas, a Igreja de São Sebastião e o Palácio Rio Negro compõem o conjunto mais bem preservado da Belle Époque amazônica. O Palacete Provincial, ao redor, abriga cinco museus em um único prédio.
- Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Tupé: a 25 minutos por via fluvial, seis comunidades ribeirinhas recebem turistas com experiências de ecoturismo de base comunitária, trilhas e contato com a floresta preservada.
- Praia da Ponta Negra: a praia fluvial mais famosa da cidade, às margens do Rio Negro, com bares, restaurantes e vista para a Ponte Rio Negro. O nível da água muda conforme a época do ano, e em agosto a praia atinge sua maior extensão.
- Presidente Figueiredo: município a 107 km de Manaus, com cachoeiras de água escura e fria em meio à floresta. Roteiro de dia inteiro, com diferentes quedas-d’água acessíveis por trilhas curtas.
A gastronomia de quem vive rodeado de rios e floresta
A cozinha manauara é de raiz indígena e tem no peixe e nas frutas da Amazônia sua matéria-prima. Comer bem em Manaus é um programa à parte.
- Tacacá: caldo quente feito de tucupi, goma de tapioca, camarão seco e jambu, a folha que causa leve dormência na língua. Servido no final da tarde em quiosques por toda a cidade. O Tacacá da Gisela, no Largo de São Sebastião, em frente ao Teatro Amazonas, é referência histórica do prato.
- Tambaqui de banda: metade do peixe assada na brasa, servida com farinha, vinagrete e acompanhamentos regionais. Um dos peixes mais apreciados na Amazônia, com espinhas grandes e carne suculenta.
- Pirarucu de casaca: o maior peixe de água doce do Brasil, salgado e seco, desfiado entre camadas de farofa, banana-pacovã e batata. Prato festivo com sabor intenso.
- X-caboquinho: sanduíche de rua com pão francês, tucumã, queijo coalho e banana-pacovã frita. Patrimônio cultural imaterial de Manaus e o café da manhã favorito dos manauaras.
- Frutas amazônicas: cupuaçu, taperebá, tucumã, bacuri e camu-camu em sucos, sorvetes e doces que não existem em nenhum outro lugar do país.
Quando ir e como aproveitar cada época em Manaus
Manaus tem clima equatorial com chuvas distribuídas por quase todo o ano e temperatura que raramente sai da faixa dos 26 a 33°C. O que muda entre as estações é o nível dos rios, que transforma completamente a experiência na floresta.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições variam com o regime de chuvas da bacia amazônica.
Como chegar a Manaus
O Aeroporto Internacional Eduardo Gomes (MAO) recebe voos diretos de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belém, Fortaleza e outras capitais. Não há acesso por estrada a partir das principais cidades do país: Manaus é cercada por floresta e rios, e o avião é o único modal viável para a maioria dos turistas. De barco, é possível chegar vindo de Belém em viagens de até cinco dias pelo Rio Amazonas.
Manaus não tem igual no Brasil
Poucas cidades do mundo colocam, a menos de meia hora do centro urbano, um dos fenômenos naturais mais raros do planeta e, no coração da selva, um teatro com mármore italiano e pintura de artistas europeus. A Paris dos Trópicos cresceu com a borracha, quase desapareceu sem ela e ficou de pé porque a floresta, os rios e a cultura do povo manauara são maiores que qualquer ciclo econômico.
Você precisa ir a Manaus colocar a mão na linha divisória entre dois rios e sentir a diferença de temperatura: é o tipo de experiência que nenhuma outra cidade do Brasil oferece.