A resistência do ministro André Mendonça ao possível acordo de delação de Daniel Vorcaro ganhou força nas últimas semanas, mesmo com a defesa do ex-banqueiro mantendo negociações ativas com a PGR em meio ao avanço da operação Compliance Zero.
Como André Mendonça analisa a delação de Daniel Vorcaro?
No entendimento de André Mendonça, a investigação conduzida pela Polícia Federal já reuniu provas suficientes sem depender da colaboração do dono do Banco Master. O ministro avalia que a eventual delação dificilmente acrescentaria fatos inéditos ao caso.
Interlocutores do relator afirmam que a rejeição inicial da proposta pela PF reforçou a percepção de que a apuração “anda com as próprias pernas”. Desde março, inclusive, novas fases da operação foram deflagradas sem apoio de informações fornecidas por Vorcaro. As informações são da Folha de SP.
Exigência de devolver R$ 60 bilhões trava negociação
Um dos maiores entraves envolve o valor do ressarcimento exigido pelas autoridades. Investigadores querem que Daniel Vorcaro devolva aproximadamente R$ 60 bilhões em um prazo curto, condição considerada indispensável para qualquer benefício judicial.
A proposta apresentada pelo ex-banqueiro desagradou PF, PGR e integrantes do Supremo. Vorcaro sugeriu pagar R$ 40 bilhões ao longo de dez anos, cenário visto como insuficiente diante dos prejuízos apontados na investigação.
O que pesa contra o acordo de colaboração?
Além das divergências financeiras, autoridades identificaram fatores que ampliaram a resistência à delação do empresário. Entre os principais pontos mencionados nos bastidores estão:
- Omissões em anexos entregues à Polícia Federal
- Tentativas de preservar aliados políticos citados na investigação
- Falta de reconhecimento claro de culpa nos crimes investigados
- Justificativas para fraudes envolvendo empréstimos consignados
- Contradições em relação a mensagens apreendidas nos celulares do empresário
Outro detalhe chamou atenção de investigadores: Vorcaro não teria admitido episódios já conhecidos pelas autoridades, incluindo a suposta relação financeira com o senador Ciro Nogueira, presidente do PP.
Daniel Vorcaro pode ter prisão domiciliar aceita?
Quando as negociações começaram, Mendonça chegou a considerar benefícios mais amplos caso a colaboração trouxesse revelações relevantes. Entre as possibilidades discutidas estava até mesmo a conversão da prisão preventiva em prisão domiciliar.
Dois meses depois, porém, esse cenário perdeu força dentro do STF. Pessoas próximas ao ministro afirmam que a percepção atual é de que a delação se tornou “dispensável”, principalmente após os avanços recentes da Compliance Zero.
Como a divisão interna no STF influencia negociações?
A disputa em torno da delação também ocorre em meio às divisões internas do Supremo. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, é visto como próximo de Gilmar Mendes, integrante de um grupo considerado adversário de Mendonça na corte.
Ao mesmo tempo, o relator estreitou relações com setores da Polícia Federal, que hoje possuem visão mais dura sobre o acordo. Nos bastidores de Brasília, também repercutiu um encontro entre o advogado de Vorcaro, José Luís Oliveira Lima, e Floriano de Azevedo Marques Neto, aliado de Alexandre de Moraes.
Diferenças pessoais aumentam desgaste entre Mendonça e Vorcaro
Interlocutores do STF relatam que a relação entre Mendonça e a defesa de Vorcaro piorou após discussões envolvendo pedidos de soltura do empresário. Conversas entre o ministro e o advogado conhecido como Juca teriam se tornado raras nas últimas semanas.
Também pesa a diferença de perfil entre os envolvidos. Enquanto Vorcaro é descrito como alguém ligado a ambientes luxuosos e cercado de figuras influentes, Mendonça mantém imagem associada ao meio evangélico e à atuação religiosa ligada à Igreja Presbiteriana.