Um ataque de drones contra embarcações comerciais no Mar Negro deixou 11 marinheiros desaparecidos e provocou uma reação diplomática do governo da Bulgária. O primeiro-ministro Rumen Radev convocou a embaixadora russa em Sófia, Eleanora Mitrofanova, para prestar esclarecimentos sobre os incidentes, embora tenha afirmado que ainda não existem provas suficientes para atribuir formalmente a responsabilidade a Moscou.
Os ataques ocorreram na terça-feira (13), apenas uma semana depois de outros incidentes semelhantes na região, que deixaram dez tripulantes desaparecidos e posteriormente considerados mortos. Diante da sequência de ocorrências, o governo búlgaro convocou uma reunião de emergência com autoridades de segurança.
O primeiro-ministro classificou a situação como inaceitável e afirmou que os ataques acabam beneficiando a Rússia. A declaração, no entanto, não equivale a uma acusação formal de que Moscou tenha executado as operações.
“Isso é absolutamente inaceitável. Mais um ataque nas imediações das águas territoriais búlgaras”, declarou Radev em pronunciamento televisionado.
Cargueiro afunda e tripulantes são resgatados
A presidente búlgara, Iliana Iotova, identificou a embarcação que afundou como o cargueiro HS Dignity, de bandeira da Guiné-Bissau. O navio estava a aproximadamente 31 quilômetros do vilarejo de Krapets.
Segundo as autoridades, cinco tripulantes foram resgatados, enquanto outros 11 permaneciam desaparecidos, dando início a uma operação de busca.
Uma segunda embarcação, o Chelsea 3, de bandeira maltesa e propriedade ucraniana, foi atingida por três drones a cerca de 33 quilômetros da cidade de Byala. Registrado em Odessa, na Ucrânia, o navio transportava 15 marinheiros: sete ucranianos e oito azerbaijanos.
Todos os tripulantes dessa embarcação foram resgatados. Nenhum sofreu ferimentos graves, embora cinco tenham recebido atendimento médico por lesões leves, segundo Radev.
Embaixadora russa diz não ter informações sobre ataques
Após convocar a representante diplomática russa, o governo búlgaro informou que Mitrofanova declarou não ter recebido informações do Ministério da Defesa da Rússia sobre ataques contra embarcações comerciais no Mar Negro.
A embaixadora também não descartou a possibilidade de que os incidentes tenham sido provocados por terceiros. Até o momento relatado, as Forças Armadas russas não haviam se pronunciado publicamente sobre os novos ataques.
Membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a Bulgária também procurou apoio internacional para reforçar a segurança da região. Radev conversou por telefone com o secretário-geral da aliança, Mark Rutte, e com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, solicitando assistência para ampliar a vigilância marítima e aérea.
Rutte afirmou que a Otan continuará ajustando sua presença militar no flanco oriental da aliança conforme necessário. O governo búlgaro já havia solicitado apoio técnico e de segurança à Otan e à União Europeia para investigar os ataques registrados em 6 de outubro.
Ucrânia acusa Moscou de colocar civis em risco
Os novos incidentes provocaram manifestações da Ucrânia e da União Europeia. Von der Leyen classificou os ataques como inaceitáveis e afirmou que a expansão das ações contra embarcações comerciais representa uma nova dimensão da guerra iniciada pela Rússia em fevereiro de 2022.
O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, responsabilizou diretamente Moscou pelos ataques.
“O mais recente ataque da Rússia contra embarcações comerciais próximas às águas territoriais da Bulgária demonstra mais uma vez o desprezo deliberado de Moscou pelas vidas de civis e pela segurança marítima no Mar Negro”, escreveu Sybiha na rede social X.
O chanceler ucraniano também destacou a importância da região para o abastecimento mundial de alimentos. Segundo ele, os ataques ameaçam uma rota essencial para o transporte internacional de grãos.
As declarações de autoridades ucranianas e europeias contrastam com a posição russa, que afirma direcionar suas operações contra embarcações que transportam armamentos e cargas de uso duplo, civil e militar, para portos ucranianos.
Ataques se intensificam no Mar Negro
Os episódios desta terça-feira ocorreram uma semana depois de dois navios comerciais serem atingidos por drones aéreos e marítimos na zona econômica exclusiva da Bulgária, em 6 de outubro.
Uma das embarcações, identificada como Alfa Watan, afundou após o ataque. Dez marinheiros — nove sírios e um egípcio — desapareceram e são considerados mortos. A outra embarcação também foi atingida, mas seus tripulantes conseguiram ser resgatados.
Na mesma data, a Ucrânia atacou um petroleiro no porto russo de Sochi, no Mar Negro. A intensificação das operações contra navios comerciais ocorre em meio à guerra entre os dois países, que já dura mais de quatro anos.
Moscou afirma que embarcações ligadas ao transporte de armamentos e cargas com possível utilização militar são alvos legítimos. O governo russo também mencionou ataques ucranianos contra navios mercantes russos e operações nos portos de Mykolaiv e Chornomorsk.
Kiev e seus aliados europeus, por outro lado, acusam a Rússia de atingir embarcações comerciais que transportam grãos e outros produtos civis.
Região é estratégica para o comércio mundial de alimentos
O Mar Negro é uma rota fundamental para o comércio internacional, especialmente para o transporte de grãos. Rússia e Ucrânia estão entre os grandes exportadores mundiais desses produtos, e a guerra tem comprometido a navegação e as operações portuárias.
Os ataques russos contra instalações portuárias ucranianas levaram Kiev a ampliar o uso de estruturas fluviais no rio Danúbio e de rotas marítimas próximas às costas da Bulgária e da Romênia, países integrantes da Otan.
A Ucrânia, por sua vez, intensificou operações contra embarcações russas utilizadas na exportação de grãos em diferentes áreas do Mar Negro e do Mar de Azov, próximo à foz do rio Don.
A Turquia, que também possui interesses estratégicos na região, pediu aos dois países que interrompam os ataques contra navios.
Moscou tem rejeitado repetidos apelos dos Estados Unidos e de países europeus por um cessar-fogo naval no Mar Negro e responsabiliza Kiev por ações contra embarcações russas.
Desde a invasão em larga escala ordenada pelo presidente Vladimir Putin, em 2022, o conflito passou a atingir diferentes setores da infraestrutura econômica e comercial dos dois países. Atualmente, a Rússia controla cerca de 20% do território ucraniano.
A sequência de ataques nas proximidades de países integrantes da Otan aumenta a preocupação com a segurança marítima e com os efeitos da guerra sobre o comércio internacional, enquanto as circunstâncias dos novos incidentes e a responsabilidade pelos ataques ainda precisam ser esclarecidas.
