Empresários cubano-americanos milionários estão organizando planos para investir na reconstrução de Cuba caso o regime comunista da ilha chegue ao fim. Reunidos em Miami, na Flórida, integrantes de famílias tradicionais do exílio cubano apostam em uma possível mudança política e econômica, impulsionada pela pressão do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre Havana.
Segundo informações divulgadas pela Folha de S. Paulo nesta segunda-feira (12), a articulação ocorre por meio da recém-criada Câmara Nacional de Comércio Cubano-Americana (Cancc), que promove encontros entre empresários e desenvolve propostas para uma eventual fase pós-comunista. Entre as iniciativas estão projetos para a criação de uma Bolsa de Valores cubana e comitês voltados a áreas como infraestrutura energética e segurança alimentar.
O presidente da organização, Juan Omar Sixto, afirma que o objetivo é preparar os empresários para atuar na ilha assim que houver uma mudança de governo. Exilado desde a adolescência, ele defende que a comunidade empresarial esteja pronta para iniciar investimentos e projetos de reconstrução.
“O objetivo é estar em Cuba assim que cair o regime”, declarou Sixto, segundo a reportagem que relatou o encontro.
Pressão dos Estados Unidos alimenta expectativas
A comunidade cubano-americana de Miami reúne famílias que perderam propriedades e empresas após a Revolução Cubana de 1959, liderada por Fidel Castro. Desde então, parte desses exilados utiliza sua influência econômica e política na Flórida para defender mudanças na relação de Washington com Cuba.
Para Sixto, o cenário atual é diferente de outras tentativas de planejar o futuro da ilha porque, segundo ele, o governo Trump demonstra disposição para pressionar por uma transformação política. O empresário também afirma manter contatos influentes, incluindo pessoas próximas ao secretário de Estado americano, Marco Rubio.
Além de defender investimentos privados, Sixto afirma que os empresários pretendem contribuir com ajuda humanitária e fornecimento de insumos médicos. Ele, entretanto, diz que não pretende retornar a Cuba enquanto o atual governo permanecer no poder.
A expectativa de uma mudança iminente não é compartilhada por todos os analistas. Especialistas alertam que ainda não é possível prever se haverá uma ruptura política, um acordo econômico ou outra forma de transformação na ilha.
Reformas econômicas de Havana são consideradas insuficientes
Sob pressão econômica dos Estados Unidos, o governo cubano anunciou recentemente um pacote de 176 medidas de liberalização econômica. As mudanças incluem a retirada do limite de trabalhadores nas empresas privadas, a possibilidade de contratação direta de funcionários e a autorização para que uma mesma pessoa detenha diferentes negócios, inclusive cidadãos cubano-americanos.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, afirmou que as medidas têm como objetivo “promover a defesa do socialismo, apoiar e ampliar a justiça social”.
Os empresários reunidos pela Cancc, porém, consideram as reformas insuficientes para garantir segurança aos investidores. Para eles, as mudanças não oferecem condições adequadas para a entrada de capital privado em larga escala.
O professor de história Mike Bustamante, da Universidade de Miami, avalia que as expectativas de uma transformação próxima foram adiadas. Ele destaca que as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, previstas para novembro, e o envolvimento do governo Trump na guerra contra o Irã podem reduzir o interesse por novas iniciativas internacionais.
“Realmente, é difícil pensar que eles irão intensificar a situação além do que já estão fazendo, que é este gotejamento constante de sanções”, afirmou Bustamante.
O especialista também aponta que a interrupção praticamente completa do abastecimento de petróleo desde janeiro agravou a situação na ilha. Apesar dos efeitos sobre a população, ele considera que a crise ainda não criou condições suficientes para provocar uma mudança política.
Disputa por terras pode dificultar reconstrução
A restituição ou a indenização por propriedades nacionalizadas após a revolução é uma das principais questões para os exilados que planejam investir em Cuba.
Sixto afirma que sua família perdeu cinco propriedades e uma fazenda na província de Pinar del Río, no oeste da ilha. Ele diz não ter intenção de retirar famílias que atualmente vivem nessas áreas, mas reivindica compensação pelas terras.
“Quero a restituição ou uma indenização”, declarou.
O governo cubano rejeita historicamente reivindicações desse tipo e caracteriza os pedidos como tentativas de recuperar patrimônios de uma antiga elite fundiária. As autoridades também defendem que as reformas agrárias realizadas após a revolução transferiram terras para trabalhadores e para o Estado.
A questão pode se tornar um dos principais obstáculos a uma eventual transição econômica, já que os antigos proprietários e seus descendentes defendem o reconhecimento de seus direitos sobre empresas e terrenos nacionalizados.
Nicolás Gutiérrez, presidente da Associação Nacional de Proprietários de Engenhos Açucareiros de Cuba, organização formada no exílio, afirma que pretende recuperar áreas que pertenciam a antigos engenhos e colocá-las novamente em produção.
Segundo ele, os terrenos poderiam ser destinados não apenas à produção de açúcar, mas também a projetos de etanol, cogeração de energia, painéis solares e sistemas de purificação de água.
Gutiérrez defende que a retomada da atividade econômica gere empregos e salários para os trabalhadores cubanos, contribuindo para a recuperação da economia nacional.
Crise energética e humanitária impõe desafios
Enquanto empresários em Miami discutem projetos de investimento, Cuba enfrenta uma grave crise de infraestrutura e abastecimento. No dia do encontro da Cancc, a ilha sofreu seu sexto apagão nacional do ano, evidenciando a fragilidade do sistema elétrico.
Estimativas citadas na reportagem indicam que a recuperação da rede de energia poderá custar entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões, o equivalente a aproximadamente R$ 40 bilhões a R$ 50 bilhões.
A reconstrução, entretanto, não se limita à infraestrutura elétrica. A população continua enfrentando escassez de alimentos, água, combustível e medicamentos, problemas que afetam diretamente as condições de vida e a capacidade produtiva do país.
Para especialistas, mesmo que uma mudança política aconteça, a transição poderá provocar grandes dificuldades sociais e humanitárias em uma nação que já enfrenta severas limitações econômicas.
Assim, embora os empresários cubano-americanos estejam preparando projetos para uma possível abertura econômica, ainda há incerteza sobre quando ou como essa transformação ocorrerá. Enquanto isso, a prioridade imediata de muitos cubanos permanece a mesma: conseguir melhores condições de vida em meio à crise que atinge a ilha.
