Ibovespa perde mais de 18% em cinco pregões, enquanto empresas listadas na B3 perdem R$ 873 bilhões em valor de mercado; investidores reavaliam riscos fiscais e econômicos.
O mercado financeiro brasileiro enfrentou uma semana de forte turbulência após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O Ibovespa acumulou desvalorização superior a 18% nos cinco pregões encerrados nesta sexta-feira (30), registrando a maior queda semanal desde março de 2020, no início da pandemia de Covid-19. Desde a criação do Plano Real, em 1994, o resultado representa a quinta maior perda semanal do principal índice da Bolsa brasileira.
Somente em outubro, o Ibovespa acumula queda de 9,75%, a maior desvalorização mensal desde junho de 2022. Apesar do desempenho negativo recente, o índice ainda apresenta valorização de 4,22% no acumulado do ano.
A dimensão da queda também atingiu o valor de mercado das companhias brasileiras. Levantamento da Elos Ayta aponta que as perdas nas ações provocaram uma redução de aproximadamente R$ 873 bilhões no valor de mercado conjunto das empresas negociadas na B3.
Após a confirmação do resultado eleitoral, a Bolsa chegou a acionar o mecanismo de circuit breaker, que suspende temporariamente as negociações quando as oscilações atingem determinados limites.
Reação negativa alcança mercados internacionais
A repercussão da eleição ultrapassou as fronteiras brasileiras. Antes mesmo da abertura dos negócios no país, o EWZ, fundo negociado em Nova York que acompanha ações brasileiras, chegou a registrar queda de 27% no pré-mercado.
Em Tóquio, um fundo com exposição semelhante ao mercado brasileiro recuou 15%, sua maior desvalorização diária desde 2008. Os títulos da dívida brasileira emitidos em dólares também sofreram perdas.
O movimento representou uma mudança expressiva em relação às expectativas que predominavam entre investidores nas semanas anteriores. A liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno havia impulsionado os ativos brasileiros, diante da expectativa de maior rigor fiscal e de uma possível redução dos juros no futuro.
Instituições financeiras internacionais, como JPMorgan, Morgan Stanley, UBS e Citigroup, haviam divulgado avaliações favoráveis ao mercado brasileiro naquele cenário.
Investidores revisam expectativas para a economia
Com a vitória de Lula, parte dessas projeções foi revista. O JPMorgan, por exemplo, reduziu sua recomendação para o real e os títulos públicos brasileiros.
Entre as principais preocupações apontadas pelos analistas estão as perspectivas para as contas públicas, o controle do déficit fiscal e a trajetória da dívida pública durante o novo mandato petista.
A desconfiança também se refletiu no mercado de juros futuros. Os contratos registraram altas expressivas em diferentes vencimentos, indicando o aumento do prêmio exigido pelos investidores para assumir riscos relacionados à economia brasileira.
O contrato de juros com vencimento em janeiro de 2031 chegou a 14,46%, uma elevação de aproximadamente 1,9 ponto percentual.
O desempenho dos mercados indica uma revisão das expectativas dos investidores em relação à política econômica e fiscal do país, com reflexos sobre ações, câmbio e títulos públicos.