A Polícia Federal encontrou, em um HD corporativo do Banco Master, uma apresentação que detalha um sistema estruturado para produzir e modificar documentos utilizados na tentativa de dar sustentação a operações de crédito posteriormente negociadas com o Banco de Brasília (BRB).
Segundo a investigação, funcionários do Master utilizavam dados reais de clientes do programa CredCesta para produzir contratos e outros documentos relacionados a uma carteira de aproximadamente R$ 7,15 bilhões atribuída à Tirreno Consultoria.
A empresa, apontada pelos investigadores como uma estrutura sem funcionários e sem capacidade operacional compatível com os valores movimentados, teria sido utilizada para ocultar a falta de lastro das operações.
Produção em escala de documentos
O material encontrado pela PF descreve um fluxo que começava com a extração de informações dos sistemas internos do banco e terminava na geração de documentos financeiros em grande quantidade.
Entre os arquivos produzidos estavam Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), Termos de Consentimento e Procurações.
A apresentação também registra procedimentos para modificar documentos já existentes. Entre as práticas descritas estão a retirada de datas, a extração de páginas específicas e a separação de páginas contendo assinaturas.
Outro procedimento identificado envolvia a solicitação de comprovantes de transferências financeiras sem elementos que permitissem rastrear adequadamente as operações.
De acordo com o relatório policial, diferentes setores do banco participavam da atividade, formando uma espécie de operação coordenada para produção e adequação dos documentos.
Carteira da Tirreno movimentou bilhões apenas no papel
Entre dezembro de 2024 e maio de 2025, Master e Tirreno firmaram 28 instrumentos de cessão de créditos consignados.
A perícia da PF, porém, concluiu que não houve liquidação financeira efetiva das operações nem transferência dos valores para contas de livre movimentação da Tirreno.
A empresa chegou a abrir uma conta corrente posteriormente, mas ela permaneceu sem movimentação. Os valores envolvidos nas operações ficaram registrados apenas contabilmente em uma conta gerencial interna do Banco Master.
Posteriormente, os créditos foram apresentados ao BRB, que adquiriu a carteira mesmo diante das irregularidades apontadas pela investigação.
Documentos davam aparência de regularidade
A produção dos documentos era considerada relevante porque eles serviam para comprovar a existência das operações e dos direitos de recebimento envolvidos nas cessões de crédito.
As CCBs, por exemplo, formalizam obrigações de pagamento. Já termos de consentimento e procurações podem registrar autorizações e permitir a representação de pessoas ou empresas.
No caso investigado, segundo a PF, esse conjunto documental teria sido utilizado para conferir aparência de validade às carteiras que o Master transferiu ao BRB.
A apresentação localizada no HD descreve justamente o caminho utilizado: informações de clientes e contratos eram extraídas dos sistemas, processadas por ferramentas específicas e posteriormente transformadas em documentos relacionados às operações.
Arquivo foi localizado em HD entregue à PF
O material foi encontrado durante a análise de um HD corporativo pertencente ao Banco Master.
Na primeira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025, os investigadores não conseguiram copiar integralmente todos os dados armazenados nos equipamentos apreendidos. Posteriormente, a PF solicitou o acervo ao liquidante do banco.
O HD foi entregue à corporação em 27 de novembro de 2025 e submetido a perícia. Os investigadores fizeram uma cópia dos dados para análise, preservando o equipamento original.
Durante o processamento, foi localizado o arquivo “Revisão – processos e documentos.pptx”, armazenado no SharePoint do Banco Master.
Apresentação tinha 30 slides
O arquivo tinha 26,7 MB e 30 slides, sendo um deles oculto. A apresentação recebeu o título “Investigações internas – Banco Master”.
Registros técnicos indicam que o documento foi criado em 23 de outubro de 2025, às 12h09, e sofreu sua última alteração no dia seguinte, às 17h45.
As informações foram incorporadas à investigação por meio da Informação de Polícia Judiciária de Análise (IPJ-A nº 1390980/2026), concluída em 23 de março de 2026.
Para os investigadores, o conteúdo ajuda a reconstruir como dados de clientes e contratos eram retirados dos sistemas do banco, processados internamente e utilizados na produção de documentos que davam suporte às operações de crédito posteriormente negociadas com o BRB.