Um relatório da Polícia Federal, elaborado a partir de mensagens e documentos encontrados no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, apresenta suspeitas sobre a relação do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), com o empresário e com negócios ligados ao Banco Master.
O documento, ao qual a revista piauí afirma ter tido acesso, está nas mãos do ministro André Mendonça há sete meses. Em um dos trechos, a PF levanta a hipótese de que Toffoli tenha sido “beneficiário final” ou “proprietário de fato” do fundo de investimento Arleen.
Segundo o relatório, Vorcaro teria aportado ao menos R$ 35 milhões no fundo. O Arleen era sócio do resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), empreendimento pertencente a Toffoli e sua família.
A PF afirma ter identificado elementos que, analisados em conjunto, apontariam para a possibilidade de Toffoli ter figurado como beneficiário final ou proprietário de fato do Arleen e de seus ativos. O relatório também menciona o uso de estruturas no exterior, incluindo a Egide I Holding, registrada nas Ilhas Virgens Britânicas.
Fundo foi transferido para empresário ligado a Toffoli
Segundo a PF, em fevereiro de 2025, o empresário Alberto Leite, amigo de Toffoli e dono da empresa FS Security, comprou o fundo Arleen. No mês seguinte, teria registrado a holding Egide I nas Ilhas Virgens Britânicas e alterado o regulamento do fundo para permitir investimentos no exterior.
Em dezembro daquele ano, o Arleen teria transferido cerca de R$ 34 milhões para a Egide I, segundo o relatório.
A PF afirma que, na liquidação do fundo, todo o ativo do Arleen teria sido transferido para a holding no exterior.
Em nota à piauí, o gabinete de Toffoli negou que o ministro tenha mantido recursos no exterior ou realizado operações, direta ou indiretamente, nas Ilhas Virgens Britânicas.
Alberto Leite, por sua vez, afirmou que nunca foi sócio de Toffoli ou de Daniel Vorcaro. Segundo declaração dada anteriormente à Folha de S.Paulo, a aquisição do Arleen teria sido uma operação imobiliária regular e lucrativa, realizada por seu braço de investimentos.
PF aponta possível influência em julgamento
Outro ponto do relatório envolve o julgamento de uma ação relacionada à destilaria Alcídia, pertencente ao grupo Atvos, que cobrava da União uma reparação por prejuízos causados na década de 1980.
Segundo a PF, uma eventual decisão favorável à empresa poderia beneficiar a carteira de precatórios do setor sucroalcooleiro mantida pelo Banco Master, que somava mais de R$ 10 bilhões.
Antes do julgamento, o diretor jurídico do Master, André Kruschewsky, teria enviado uma mensagem a Vorcaro afirmando: “É importante! Serve de paradigma para nossos casos.”
O relatório também registra mensagens nas quais Vorcaro e integrantes de seu grupo demonstraram preocupação após Toffoli mudar seu posicionamento em um caso semelhante envolvendo a Raízen.
Após a mudança, Fábio Faria, que trabalhava com Vorcaro, teria escrito: “Matou a gente”, além de demonstrar preocupação com a decisão.
O diretor jurídico do Master teria então perguntado a Vorcaro: “Vamos nos movimentar?”. Em outra mensagem, ofereceu ajuda para tentar retirar o processo da pauta.
A PF registrou que o advogado “aparenta ter acesso ao STF inclusive para ‘tirar de pauta’ o processo em questão”.
No dia em que o caso seria julgado, o ministro Kassio Nunes Marques pediu vista e Toffoli registrou ausência justificada. O julgamento foi posteriormente retomado.
Na sessão que analisou o caso da Alcídia, a tese da usina prevaleceu. Segundo o relatório, Toffoli votou a favor da empresa, seguindo seu posicionamento histórico em processos semelhantes.
Para a PF, as mensagens de Vorcaro dizendo “Toffoli virou o voto” e “tô tratando aqui” têm relevância por terem sido enviadas pouco antes do julgamento e em meio a conversas sobre a necessidade de “se movimentar” e “acompanhar” o processo.
A própria Polícia Federal, porém, ressalva que o caso “demanda aprofundamento analítico” e que os elementos reunidos não seriam suficientes, naquele momento, para conclusões definitivas.
O gabinete de Toffoli negou qualquer alteração de voto e afirmou que o ministro manteve o mesmo posicionamento no caso da Raízen.
Relatório cita encontros entre Toffoli e Vorcaro
O documento também aponta registros de contatos entre Toffoli e Vorcaro. Segundo a PF, foram identificados ao menos 12 registros distintos de encontros presenciais entre os dois, embora a própria reportagem ressalte que a relação inclui encontros, convites e agendamentos.
Seis registros são descritos pela PF como encontros efetivamente ocorridos entre novembro de 2023 e abril de 2024.
O relatório menciona, entre outros episódios, encontros em São Paulo e Brasília, além de dois encontros em Londres durante um fórum patrocinado pelo Banco Master.
A PF também identificou 17 registros de chamadas de voz pelo WhatsApp entre os números atribuídos a Vorcaro e Toffoli entre março e dezembro de 2024. Oito ligações foram atendidas, totalizando seis minutos e 52 segundos.
O documento registra ainda uma possível visita de Vorcaro à residência de Toffoli em Brasília, embora a PF classifique essa hipótese como “plausível”, com base no endereço enviado pelo ministro ao banqueiro.
Outro episódio citado ocorreu em março de 2024, quando Fábio Faria informou a Vorcaro que Toffoli o havia convidado para um almoço em uma propriedade no Paraná. A PF afirma que elementos técnicos e geográficos indicariam que a chamada “fazenda do Toffoli” seria o resort Tayayá.
Relação com Roberta Rangel
O relatório também aborda a relação profissional entre Vorcaro e Roberta Rangel, ex-mulher de Toffoli.
Segundo a PF, Rangel teria atuado como advogada do banqueiro entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2025. Em uma conversa de março de 2024, após ser informado de que Rangel atuaria em um processo, Vorcaro respondeu: “Ela é minha advogada.”
O documento afirma que foram identificados vínculos profissionais e logísticos entre Rangel e Vorcaro durante o período.
Em maio de 2021, um sócio do escritório de Walfrido Warde teria enviado ao celular de Vorcaro uma procuração na qual Roberta Rangel aparecia como representante da Companhia Agroindustrial de Goiânia em uma ação rescisória. Um precatório da empresa também aparece, segundo a reportagem, entre os ativos do Banco Master.
Toffoli nega relação de amizade com Vorcaro
Em nota divulgada antes da publicação da reportagem, o gabinete de Dias Toffoli negou que o ministro tivesse relação de amizade ou intimidade com Daniel Vorcaro.
O ministro também negou ter recebido valores do banqueiro ou de seu cunhado e afirmou que “jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima” com Vorcaro.
Sobre sua participação em um evento realizado em Londres, Toffoli afirmou que esteve no local a convite do ministro Alexandre de Moraes.
O relatório da PF foi produzido com base no conteúdo do celular de Vorcaro, apreendido após sua prisão em novembro de 2025. Segundo a corporação, o material apresenta contatos diretos e indiretos entre o banqueiro e Toffoli.
A PF encaminhou o documento ao STF porque Toffoli era relator do caso Master e, segundo o relatório, ministros da Corte não podem ser investigados sem autorização do próprio tribunal.
A investigação, de acordo com o documento, não avançou sobre algumas das suspeitas levantadas. A PF apontou a necessidade de novas diligências para esclarecer tanto a operação envolvendo os R$ 35 milhões quanto a questão relacionada ao julgamento dos precatórios.
O gabinete de Toffoli afirmou que o relatório teria sido arquivado após decisão transitada em julgado. A reportagem, porém, contesta essa interpretação e afirma que, em fevereiro de 2026, os ministros arquivaram uma arguição de suspeição contra Toffoli, e não o relatório da Polícia Federal que havia servido de base para o caso.
Mendonça, questionado pela piauí, afirmou que os autos da arguição não foram remetidos à sua relatoria e, por isso, declarou que “não há providências a serem adotadas por esta relatoria”.
Com informações de Revista Piauí
