Um relatório divulgado nesta quinta-feira pelo Escritório de Política Comercial e Industrial da Casa Branca colocou o Brasil entre os países apontados como parte de uma “rede clandestina de triangulação” de produtos chineses, prática conhecida nos Estados Unidos como transshipment.
O documento classifica os países de acordo com fatores como o volume de comércio relacionado à China, o nível de integração econômica com o país e as características que poderiam facilitar operações de redirecionamento de mercadorias.
Ao todo, mais de 40 países foram associados a um risco elevado de triangulação ilegal. O Brasil aparece no Nível 2, grupo que reúne países com volumes relevantes de transbordo e maior integração com cadeias de fornecimento, estruturas industriais, sistemas logísticos ou rotas relacionadas à China.
Também fazem parte dessa categoria Indonésia, Malásia, Tailândia, Turquia e Vietnã.
Segundo o relatório, Brasil e Turquia funcionam como plataformas regionais de produção e logística e podem atender a operações de redirecionamento ou transformação de determinados tipos de produtos.
No caso de Vietnã, Tailândia, Malásia e Indonésia, o documento aponta uma forte integração com redes industriais próximas à China. Esses países são descritos como importantes centros de produção de eletrônicos, máquinas, plásticos, calçados, roupas, componentes e outros produtos industriais que utilizam insumos chineses.
Estimativa de US$ 75 bilhões
O relatório considera como triangulação ilegal os casos em que mercadorias passam por países terceiros com o objetivo de evitar tarifas de importação ou outras medidas comerciais impostas pelos Estados Unidos.
Os valores apresentados no documento foram calculados a partir de análises realizadas por duas fontes governamentais e três fontes do setor privado.
Entre elas está a Exiger, empresa especializada em inteligência artificial e cadeias de suprimentos. A companhia apresentou uma estimativa intermediária de US$ 75 bilhões em mercadorias que teriam sido submetidas ilegalmente à triangulação entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026.
Segundo essa estimativa, a prática poderia representar uma perda de aproximadamente US$ 19 bilhões a US$ 34 bilhões em receitas tarifárias para os Estados Unidos.
O documento aponta ainda que os principais facilitadores das operações envolvendo produtos chineses incluem países como México e Canadá, que fazem fronteira terrestre com os Estados Unidos, além de integrantes da União Europeia, Índia, Japão e Coreia do Sul.
“Isso é basicamente um aviso ao mundo: não tentem enganar os Estados Unidos”, disse Peter Navarro, diretor do Escritório de Política Comercial e Industrial da Casa Branca, à Bloomberg Television nesta quinta-feira.
Países também obtêm ganhos
De acordo com o relatório, a triangulação não apenas permite que produtos chineses continuem chegando ao mercado americano, mas também pode gerar receitas para os países utilizados como intermediários.
“Empresas locais recebem taxas de montagem, receitas de armazenamento, margens de logística, tarifas portuárias, receitas de despachantes aduaneiros, aluguéis de terrenos e investimentos em zonas de processamento de exportações. Os governos se beneficiam de empregos, arrecadação de impostos, investimento estrangeiro e crescimento do comércio.”
Além dos países classificados no Nível 2, o documento identifica outras nações que possuem características que poderiam ser exploradas para esse tipo de operação. Entre os fatores citados estão custos reduzidos de mão de obra, acesso estratégico a portos, fiscalização aduaneira considerada pouco rigorosa e existência de zonas de livre comércio.
Estratégia ganhou força após tarifas contra a China
O relatório afirma que a diversificação das cadeias produtivas internacionais não é um fenômeno recente.
Durante o primeiro mandato de Donald Trump, quando os Estados Unidos elevaram as tarifas sobre produtos chineses, empresas passaram a buscar alternativas para suas cadeias de fornecimento e, quando possível, transferiram parte da produção para outros países.
O movimento ficou conhecido como estratégia “China + 1” e contribuiu para o aumento de investimentos em países como Vietnã e Camboja. Em alguns casos, as novas estruturas produtivas foram instaladas por empresas chinesas.
Após retornar à Casa Branca, Trump adotou uma nova rodada de tarifas específicas por país. As medidas atingiram inclusive aliados dos Estados Unidos e importantes parceiros comerciais, gerando impacto para importadores que seguem as regras estabelecidas.
Casa Branca pretende ampliar fiscalização nas fronteiras
O documento reconhece que as diferenças entre tarifas aplicadas a diferentes países podem aumentar o incentivo à triangulação ilegal. Ao mesmo tempo, afirma que o governo americano está desenvolvendo mecanismos para “detectar, dissuadir e impedir” tentativas de evasão tarifária.
Uma das iniciativas mencionadas é um sistema de “detecção de fronteira”, que deverá utilizar inteligência artificial para analisar informações sobre remessas e compará-las com históricos de rotas comerciais.
A ferramenta também deverá avaliar a capacidade produtiva das empresas, relações de propriedade, padrões de embalagem e imagens de raios X obtidas nos portos. O objetivo é identificar possíveis diferenças entre as informações declaradas nos documentos e o conteúdo efetivamente transportado nos contêineres.
Identificar a origem dos produtos é um desafio
As autoridades americanas responsáveis pela fiscalização comercial trabalham há décadas com recursos limitados e concentram esforços em casos considerados de maior potencial financeiro.
Segundo o relatório, investigações desse tipo podem ser complexas e levar anos até serem concluídas. Nesse período, mercadorias consideradas ilícitas podem continuar chegando ao mercado americano e sendo comercializadas por preços inferiores aos praticados internamente, afetando empresas dos Estados Unidos.
O próprio documento reconhece que identificar uma triangulação ilegal pode ser difícil, especialmente porque determinar a origem de um produto se torna mais complexo quando sua fabricação envolve componentes produzidos em diferentes países.
O relatório também ressalta que nem toda alteração nas cadeias globais de fornecimento necessariamente representa uma atividade ilegal. Parte dessas mudanças pode decorrer de decisões legítimas relacionadas à produção e ao comércio internacional.
“Uma fiscalização eficaz, portanto, exige distinguir a fabricação legítima e a transformação substancial do comércio de mera passagem de mercadorias e da alteração fraudulenta de sua origem”, afirma o relatório.