Os preços dos carros no Brasil começaram a cair após anos de aumentos acima da inflação. O movimento é resultado de uma combinação de fatores, como a redução dos custos de novas tecnologias, mas especialistas apontam que o principal motivo é o avanço das montadoras chinesas no mercado brasileiro, impulsionado por preços mais competitivos.
Segundo Theo Paul Santana, especialista em comércio Brasil-China e fundador da consultoria Destino China, a estratégia das fabricantes chinesas é reduzir preços para ampliar o volume de vendas, fortalecer a marca e conquistar espaço antes da alta dos impostos de importação.
“A estratégia é reduzir preço, aumentar volume, fortalecer a marca e se estabelecer antes da alta dos impostos de importação. A China consegue sustentar isso por escala e verticalização, mas não significa necessariamente lucro alto no Brasil, é uma fase de captura de mercado”, afirma.
Além dos preços mais baixos, as montadoras chinesas têm atraído consumidores pela oferta de veículos híbridos e elétricos, aliados a uma percepção crescente de qualidade. Modelos como o GWM Haval H6, vendido a partir de R$ 199,9 mil, passaram a disputar segmentos antes dominados por marcas tradicionais, que reagiram reduzindo seus próprios preços.
Levantamento da Bright Consulting mostra que o preço médio de tabela dos veículos leves caiu de R$ 172,5 mil, em junho de 2025, para R$ 170 mil no mesmo período de 2026, uma redução de 1,5%. Já o valor efetivamente pago pelos consumidores recuou de R$ 157,7 mil para R$ 152,1 mil, queda de 3,5%.
Diante da concorrência, diversas fabricantes passaram a oferecer descontos. A Mitsubishi reposicionou os preços de toda a sua linha, enquanto a Volkswagen reduziu em até R$ 10 mil o valor do T-Cross, SUV mais vendido do país, e lançou promoções para o hatch Polo. A Renault também passou a conceder descontos em modelos como Boreal e Koleos, apresentados durante a expansão das marcas chinesas no mercado nacional.
Promoções semelhantes podem ser encontradas em praticamente todas as grandes montadoras. Um levantamento realizado na última semana de julho identificou descontos superiores a R$ 20 mil em alguns modelos, incluindo veículos de origem chinesa.
Um dos exemplos é o sedã BYD King GL, anunciado por R$ 147.990, valor R$ 25 mil inferior ao preço de tabela. Para Santana, a estratégia lembra a utilizada por plataformas chinesas de comércio eletrônico, como Shopee, Shein e AliExpress.
“Não é coincidência, é o mesmo manual aplicado a um produto mais caro”, diz Santana. “Quem olha só o preço acha que a semelhança é vender barato, mas não é. A semelhança está no que permite vender barato: encurtar a cadeia até o fim, tratar o produto como software e usar o mercado externo como válvula de escape para uma capacidade doméstica que não cabe mais na China.”
O especialista destaca que a política de preços faz parte de um plano mais amplo para consolidar espaço no mercado brasileiro.
“No varejo digital, plataformas chinesas usam preços muito agressivos para ganhar escala e participação. No setor automotivo, vemos uma lógica semelhante. As montadoras chegam a faixas de preço que muitas marcas tradicionais têm dificuldade de acompanhar sem comprometer suas próprias linhas. O preço faz parte de uma estratégia mais ampla de ocupação de mercado”, conclui.