O Brasil vive um paradoxo no setor elétrico: a capacidade de geração de energia cresce rapidamente, mas, em determinados momentos, sobra eletricidade no sistema. O resultado é a necessidade de reduzir a produção de usinas, principalmente eólicas e solares, para evitar desequilíbrios na rede.
O fenômeno conhecido como curtailment já provoca preocupação entre investidores, entidades do setor e especialistas. A discussão, porém, está longe de ser consensual. Enquanto representantes da indústria apontam falta de infraestrutura, armazenamento e planejamento, há pesquisadores que responsabilizam principalmente o modelo de incentivos criado para estimular as fontes renováveis.
“Energia de telhado” entra no centro da discussão
A expansão da geração solar distribuída, instalada principalmente em telhados e pequenos empreendimentos, tornou-se um dos pontos de debate.
Para Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), houve nos últimos anos um excesso de investimentos nessa modalidade, que não é controlada diretamente pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), porém, rejeita a ideia de que a geração distribuída seja a principal responsável pelo problema.
Segundo a entidade, os cortes que atingem usinas solares e eólicas representam uma das maiores crises enfrentadas pelas fontes renováveis no país, mas atribuir o cenário à geração solar distribuída seria uma simplificação.
Na avaliação da Absolar, o Brasil aumentou sua capacidade de geração renovável sem realizar, na mesma velocidade, investimentos em armazenamento, flexibilidade operacional, modernização das redes e gestão da demanda.
Feriados e jogos também reduzem consumo
O problema é agravado em períodos nos quais a demanda despenca.
Feriados prolongados e eventos que reduzem a atividade econômica podem provocar uma combinação difícil para o sistema: consumo baixo justamente quando a geração solar e eólica está elevada.
Em 2026, por exemplo, jogos da Seleção Brasileira durante a Copa do Mundo ocorreram em dias úteis, além de uma série de feriados que favoreceram os chamados “feriadões”.
Com menos pessoas trabalhando e menor circulação de consumidores, a demanda por eletricidade diminui, ampliando a diferença entre oferta e consumo.
Conta de luz sobe mesmo com excesso de energia
O paradoxo chama ainda mais atenção porque o excesso de oferta não significa necessariamente energia barata para o consumidor.
Segundo dados do IBGE citados no levantamento, a energia elétrica residencial acumulou alta de 8,79% em 12 meses, enquanto a inflação geral avançou 4,64% no mesmo período até junho.
Ou seja: enquanto o sistema precisa, em determinados momentos, cortar geração por excesso de eletricidade, o consumidor continua enfrentando aumento na conta de luz.
Subsídios entram na mira
Para Nivalde Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, o problema está relacionado principalmente à forma como o Brasil estimulou a expansão das fontes renováveis.
O pesquisador afirma que incentivos públicos, descontos tarifários e benefícios tributários ajudaram a criar uma forte expansão dos investimentos em energia solar e eólica.
Na avaliação dele, o resultado foi uma oferta que cresceu mais rapidamente que a demanda.
Castro também critica o que chama de “jabutis” — medidas inseridas durante a tramitação de projetos legislativos — que, segundo ele, beneficiaram diferentes segmentos do setor elétrico.
Para o pesquisador, o curtailment acaba sendo uma solução de curto prazo diante de um sistema com capacidade instalada muito superior à demanda média.
Armazenamento pode ser a saída
Uma das alternativas para evitar o desperdício de energia renovável é ampliar a capacidade de armazenamento.
Entre as soluções estão as baterias e as chamadas hidrelétricas reversíveis, capazes de utilizar o excedente de eletricidade para bombear água para reservatórios superiores e posteriormente gerar energia quando a demanda aumentar.
A Absolar também defende a expansão do armazenamento por baterias. A tecnologia permitiria guardar parte da energia produzida nos períodos de maior geração para utilizá-la nos horários de maior consumo.
Além de reduzir o desperdício, a medida poderia aliviar congestionamentos nas redes e diminuir a necessidade de acionamento de usinas termelétricas.
O consumidor pode acabar pagando a conta
Para a economista e ex-presidente do BNDES Elena Landau, o cenário revela um problema de governança e planejamento acumulado ao longo dos anos.
A avaliação dela é direta: os custos provocados pelo curtailment acabam sendo repassados ao consumidor.
Landau também critica decisões tomadas pelo Congresso em diferentes momentos, incluindo mudanças associadas à privatização da Eletrobras e à contratação obrigatória de determinadas usinas termelétricas.
Na visão da economista, o problema não está apenas na expansão das energias renováveis, mas na manutenção de incentivos e obrigações que teriam criado distorções no planejamento do setor.
O desafio é aproveitar a energia que já existe
O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, mas o crescimento acelerado da geração solar e eólica trouxe um novo desafio: não basta produzir energia; é preciso conseguir transportá-la, armazená-la e utilizá-la no momento adequado.
O debate agora envolve o futuro dos subsídios, a expansão das linhas de transmissão, o armazenamento de energia e a revisão das regras do setor.
Enquanto essas soluções não avançam no mesmo ritmo da geração, o país poderá continuar enfrentando a situação paradoxal de ter energia disponível em excesso em determinados horários e contas de luz cada vez mais caras para o consumidor.
