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Início Brasil

ELEIÇÕES: PF entra no centro da disputa após investigações envolvendo políticos e autoridades

Por Junior Melo
14/ago/2026
Em Brasil, Eleições, Política
TENSÃO - Sede da PF: inquéritos em curso têm potencial para influenciar o resultado do pleito presidencial (Montagem com fotos de Evaristo Sá/AFP; Maira Erlich/Bloomberg/Getty Images; Rafa Neddermeyer.

TENSÃO - Sede da PF: inquéritos em curso têm potencial para influenciar o resultado do pleito presidencial (Montagem com fotos de Evaristo Sá/AFP; Maira Erlich/Bloomberg/Getty Images; Rafa Neddermeyer.

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A Federação formada por Progressistas e União Brasil foi criada em abril do ano passado com o objetivo de consolidar uma das maiores forças políticas do Congresso Nacional. Na época, o grupo reunia 109 deputados e 14 senadores, além de uma estrutura eleitoral com seis governadores, cerca de 1.350 prefeitos e mais de 12 mil vereadores.

A união das duas legendas tinha, entre seus principais objetivos, ampliar o poder de negociação nas votações da Câmara e do Senado e aumentar o peso da federação na eleição presidencial de 2026. O fundo eleitoral e o tempo de propaganda na televisão também tornavam o grupo um importante aliado para qualquer candidatura à Presidência.

A expectativa inicial era de que a federação apoiasse um nome de direita capaz de enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No entanto, o cenário mudou.

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Apesar de o senador Flávio Bolsonaro (PL) ter oferecido a vaga de vice-presidente em sua chapa ao grupo, Progressistas e União Brasil decidiram não aderir à candidatura e optaram pela neutralidade na disputa nacional.

Os dirigentes das duas siglas argumentaram que a prioridade é ampliar a bancada no Congresso. Para isso, segundo eles, seria necessário manter liberdade para formar alianças nos estados independentemente da posição dos candidatos à Presidência.

Investigação também pesou nas negociações

A situação envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do Progressistas, também passou a fazer parte das negociações.

Nogueira chegou a ser cotado para ocupar a vice na chapa de Flávio Bolsonaro, mas acabou deixando de ser considerado para a função depois de passar a ser investigado pela Polícia Federal no caso envolvendo o Banco Master.

Flávio então convidou a senadora Tereza Cristina (PP-MS) para o posto. Depois de inicialmente demonstrar resistência, ela aceitou a possibilidade e passou a buscar apoio dos diretórios estaduais da federação.

Segundo a reportagem, representantes do governo federal teriam sinalizado a Ciro Nogueira que a não participação na articulação poderia evitar possíveis constrangimentos relacionados às investigações até outubro, período em que ele pretende disputar a reeleição ao Senado.

Depois de conversas com integrantes do partido, a federação decidiu não formar uma aliança com Flávio Bolsonaro.

Um aliado de Nogueira afirmou que a decisão levou em consideração uma alternativa que garantisse a “sobrevivência política” do senador. Procurado pela reportagem, Ciro Nogueira não comentou o episódio.

PF já teve impacto em outras eleições

A influência de investigações da Polícia Federal sobre campanhas eleitorais não é inédita no Brasil.

Em 2002, a então governadora do Maranhão, Roseana Sarney, deixou a disputa presidencial após uma operação da PF na empresa de seu marido encontrar mais de R$ 1 milhão em dinheiro vivo. Naquele momento, Roseana aparecia entre os nomes competitivos da corrida presidencial.

Quatro anos depois, em 2006, a Polícia Federal prendeu integrantes do PT que carregavam R$ 1,7 milhão que seria utilizado na compra de um dossiê contra adversários. Lula, que concorria à reeleição, classificou os envolvidos como “aloprados”.

Em 2026, novas investigações também já produziram efeitos sobre candidaturas. As apurações relacionadas ao Banco Master contribuíram para que os ex-governadores Cláudio Castro (PL-RJ) e Ibaneis Rocha (MDB-DF) desistissem de disputar o Senado, segundo a reportagem.

O caso também passou a afetar a campanha de Flávio Bolsonaro. O senador teria solicitado R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro para supostamente financiar uma cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Na oposição, existe o receio de que novas informações sobre a relação entre Flávio e o ex-banqueiro sejam divulgadas durante a campanha. Aliados do senador também demonstram preocupação com a possibilidade de vazamentos seletivos envolvendo investigações da Polícia Federal.

Investigações também atingem o entorno de Lula

Enquanto Flávio Bolsonaro enfrenta os efeitos políticos do caso Master, integrantes do governo Lula também passaram a ser afetados por investigações.

Entre os episódios citados está uma operação da Polícia Federal envolvendo o então líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), que é investigado por supostamente defender interesses relacionados ao Banco Master no Congresso.

A situação política do presidente também foi afetada pelas investigações sobre fraudes contra aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A pedido da Polícia Federal, o Supremo Tribunal Federal abriu três inquéritos para apurar suspeitas envolvendo Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho mais velho de Lula. As investigações buscam esclarecer uma possível atuação dele junto a órgãos do governo federal.

Uma testemunha afirmou à CPI do INSS e à PF que Lulinha teria recebido R$ 25 milhões para auxiliar nos negócios de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS” e apontado como operador do esquema de fraudes contra beneficiários da Previdência.

A suposta relação entre os dois teria sido intermediada pela empresária e lobista Roberta Luchsinger.

Ela também aparece em outro episódio citado na reportagem: teria pago despesas pessoais de Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, quando ele ocupava o cargo de chefe de gabinete do presidente.

Marcola confirmou ter recebido a ajuda financeira e afirmou que posteriormente quitou uma dívida de R$ 249 mil. Ele negou que o episódio tivesse relação com qualquer atividade irregular e classificou a situação como uma transação privada.

Investigações podem influenciar disputa acirrada

O avanço das investigações preocupa os dois principais grupos da disputa presidencial.

De um lado, Lula enfrenta o receio de que as apurações envolvendo seu filho tenham consequências jurídicas e políticas. Do outro, Flávio Bolsonaro teme que o caso envolvendo Daniel Vorcaro produza novos elementos capazes de prejudicar sua candidatura.

A possibilidade de vazamentos de informações sigilosas também se tornou motivo de desconfiança entre grupos ligados às duas campanhas.

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, indicado por Lula, e o ministro do STF André Mendonça, relator dos casos relacionados ao Banco Master e ao INSS, também passaram a protagonizar divergências relacionadas à condução das investigações.

Segundo a reportagem, integrantes da oposição suspeitam que Rodrigues possa repassar ao presidente informações sigilosas das investigações. Aliados do governo, por sua vez, levantam suspeitas sobre possíveis contatos entre investigadores ligados ao ministro Mendonça e adversários políticos.

Um dos episódios mencionados ocorreu quando Jaques Wagner esteve no gabinete de Mendonça uma semana antes de ser alvo de uma operação da Polícia Federal.

Troca de investigadores gera reação de Mendonça

Outro capítulo da disputa envolveu a substituição de investigadores durante as apurações relacionadas a Lulinha.

Mendonça determinou que a Polícia Federal comunique previamente qualquer alteração nas equipes responsáveis pelos casos sob sua relatoria.

Em 6 de agosto, superintendentes da PF divulgaram uma nota em defesa de Andrei Rodrigues. Na mesma data, Mendonça se reuniu com o ministro da Justiça, Wellington Silva, responsável pela pasta à qual a Polícia Federal está vinculada.

A reunião ocorreu em meio às tentativas de reduzir a tensão entre as instituições.

A atuação política da Polícia Federal também já despertou questionamentos de outros ministros do STF. Alexandre de Moraes determinou uma investigação para apurar como se tornou público um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa dele, Viviane Barci.

Vazamentos podem ter impacto eleitoral

Suspeitas de interferência política em investigações da Polícia Federal são antigas e já foram levantadas por diferentes políticos.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), por exemplo, já afirmaram que investigações envolvendo possíveis irregularidades em emendas parlamentares avançaram por razões políticas.

A argumentação, contudo, enfrenta uma limitação jurídica: operações de busca e apreensão e prisões preventivas contra políticos dependem de autorização judicial.

Ao mesmo tempo, a reportagem ressalta que, embora investigações tenham fundamentos e sejam necessárias diante de suspeitas de crimes, a condução de uma apuração pode sofrer alterações de ritmo conforme decisões dos investigadores.

Um ministro do STF ouvido pela reportagem resumiu a possibilidade da seguinte forma:

“Se a autoridade tiver um animus específico, pode se empenhar mais em uma apuração, buscar mais elementos, direcionar mais agentes”, diz um ministro do STF.

Nesse cenário, vazamentos, operações policiais, depoimentos e eventuais delações podem produzir efeitos relevantes sobre a corrida presidencial.

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro também permanece sensível entre os chamados eleitores independentes. Em abril, 33% desse grupo declarava preferência por Flávio, enquanto 26% apoiava Lula. Em julho, os números haviam mudado para 27% e 40%, respectivamente.

Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em 5 de agosto, porém, Lula apareceu com 33% entre os independentes, enquanto Flávio chegou a 30%.

O movimento mostra como alterações no cenário político e investigações envolvendo os candidatos podem influenciar a percepção do eleitorado em uma eleição que tende a ser marcada por uma disputa acirrada.

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