O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou, na noite desta quinta-feira (27), da série de entrevistas promovida pelo Jornal Nacional, da TV Globo.
Durante a conversa com os jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos, Lula abordou temas como crescimento econômico, dívida pública e situação fiscal. Algumas das afirmações feitas pelo presidente, porém, divergem de dados divulgados por órgãos oficiais.
Confira cinco declarações e o que mostram os números:
“Eu herdei esse governo em janeiro de 2023 com déficit fiscal de 2,8%”
Os dados oficiais não confirmam a afirmação de que o governo federal terminou 2022 com déficit primário de 2,8%.
Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), o governo federal encerrou 2022 com superávit primário de R$ 54,9 bilhões, equivalente a 0,6% do PIB. Foi o primeiro resultado positivo depois de oito anos consecutivos de déficits.
A partir de 2023, entretanto, as contas da União voltaram a registrar resultados negativos. No primeiro ano do terceiro mandato de Lula, o déficit primário foi de R$ 230,5 bilhões, equivalente a 2,1% do PIB.
Em 2024, o resultado negativo foi de R$ 43 bilhões, ou 0,36% do PIB. Já em 2025, o déficit chegou a R$ 61,7 bilhões, equivalente a 0,48% do PIB.
“O PIB só voltou a crescer acima de 2% quando eu voltei à Presidência da República”
A afirmação também não corresponde à série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Antes do início do terceiro mandato de Lula, o PIB brasileiro havia crescido 4,6% em 2021 e 3% em 2022.
Embora a economia tenha registrado retração de 3,3% em 2020, em meio aos impactos da pandemia de Covid-19, o resultado acumulado entre 2019 e 2022 foi positivo em 5,6%.
Os números mostram, portanto, que a economia brasileira já apresentava crescimento superior a 2% nos dois anos anteriores ao retorno de Lula à Presidência.
“Nos países do G20, eu fui o único que fez superávit primário durante oito anos”
Lula teve superávits primários durante os oito anos de seus dois primeiros mandatos, entre 2003 e 2010. O Brasil, entretanto, não foi o único país do G20 a apresentar esse resultado durante todo o período.
A Argentina, que também integra o grupo das maiores economias do mundo, registrou resultados primários positivos em todos os anos entre 2003 e 2010.
O desempenho fiscal dos dois países ocorreu em um período marcado pelo chamado superciclo das commodities, quando a valorização de produtos exportados pela América do Sul contribuiu para o aumento da renda, da atividade econômica e da arrecadação.
“À medida que você começa a crescer a economia, a dívida começa a cair com relação ao PIB”
A relação entre crescimento econômico e dívida pública não é automática. A trajetória da dívida depende de diferentes fatores, entre eles o resultado primário, os juros, a inflação, as emissões de títulos e outros ajustes nas contas públicas.
Os dados recentes do Banco Central mostram que a dívida bruta continuou aumentando mesmo com a expansão da economia.
Em junho de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou 81,9% do PIB, equivalente a R$ 10,8 trilhões. O indicador acumulava alta de 3,3 pontos percentuais no ano.
Segundo o Banco Central, entre os fatores que contribuíram para o aumento estavam os juros nominais e as emissões líquidas de dívida.
“80% do PIB em dívida pública não é muito se olharmos para EUA, Japão e Itália”
A comparação feita pelo presidente considera que Estados Unidos, Japão e Itália possuem relações entre dívida e PIB superiores à brasileira. Esse dado, isoladamente, é verdadeiro, mas não permite concluir que o nível da dívida brasileira tenha pouca relevância.
A sustentabilidade da dívida depende também da velocidade de crescimento do endividamento, do custo de financiamento, dos resultados fiscais e da capacidade do governo de administrar seus compromissos.
As condições econômicas e financeiras também são diferentes entre os países. Estrutura monetária, mercado de títulos públicos, custo dos juros e histórico fiscal influenciam a capacidade de cada governo de administrar sua dívida.
No Brasil, os juros têm peso significativo nesse cálculo. Segundo dados do Banco Central, nos 12 meses encerrados em junho de 2026, os juros nominais acumulados pelo setor público chegaram a 8,8% do PIB. No mesmo período, o déficit nominal ficou próximo de 10% do PIB e a dívida bruta alcançou 81,9% do PIB.
Assim, embora países como Estados Unidos, Japão e Itália apresentem níveis de endividamento superiores ao brasileiro, a simples comparação entre os percentuais de dívida em relação ao PIB não é suficiente para avaliar a situação fiscal de cada economia.
Com informações de O Gazeta do Povo.