O crédito consignado privado, apresentado nos últimos meses como uma das grandes apostas do mercado financeiro, começa a dar sinais de desgaste e já preocupa bancos, fintechs e investidores. A combinação entre mudanças nas regras, aumento da portabilidade e crescimento da inadimplência fez a modalidade perder parte do brilho que havia conquistado.
Segundo relatos do setor, algumas carteiras já registram índices de inadimplência superiores a 9%, percentual considerado elevado para um produto que era vendido como uma das linhas de crédito mais seguras do país.
O problema ganhou força porque diversas instituições financeiras concederam empréstimos com taxas de juros mais elevadas, pagaram comissões agressivas a correspondentes bancários e, posteriormente, venderam essas carteiras ao mercado por meio de operações de securitização, obtendo lucro com o ágio.
Agora, porém, a possibilidade de migração dos contratos para instituições que oferecem juros menores ameaça reduzir a rentabilidade esperada dessas operações, afetando o valor dos ativos adquiridos por investidores.
Portabilidade muda cenário
A ampliação da portabilidade do consignado privado alterou a dinâmica do mercado. Trabalhadores podem transferir seus contratos para bancos que ofereçam condições mais vantajosas, reduzindo a receita das instituições que originaram os empréstimos.
Na prática, operações estruturadas com expectativa de retorno elevado podem gerar resultados inferiores aos projetados, aumentando a preocupação entre agentes financeiros.
Mercado reavalia riscos
Além da concorrência por clientes, o avanço da inadimplência também passou a chamar atenção. O aumento dos atrasos nos pagamentos coloca em xeque a percepção de que o consignado privado seria um crédito de baixo risco.
Diante desse novo cenário, instituições financeiras e investidores acompanham com cautela a evolução da modalidade, que até pouco tempo era tratada como uma das principais oportunidades de expansão do crédito no país.
O episódio reforça que, mesmo em produtos considerados mais seguros, mudanças regulatórias e de mercado podem alterar rapidamente as expectativas de rentabilidade e elevar os riscos para o sistema financeiro.