O aroma de chocolate paira no ar quente de Ilhéus, no sul da Bahia. Fachadas do início do século 20 dividem a paisagem com coqueiros e com o maior litoral do estado, palco dos romances que tornaram o escritor brasileiro mais lido no exterior.
A cidade que virou personagem nas obras de Jorge Amado
Fundada em 1534 como Vila de São Jorge dos Ilhéus, a cidade viveu sua era de ouro entre o fim do século 19 e o início do 20, quando o cacau transformou fazendeiros em coronéis e financiou palacetes, teatros e igrejas neoclássicas. Esse cenário virou matéria-prima para Jorge Amado, que nasceu na vizinha Itabuna e cresceu em Ilhéus.
Suas obras foram traduzidas para 49 idiomas e publicadas em 56 países, fazendo dele o autor brasileiro mais lido fora do Brasil. Romances como Gabriela, Cravo e Canela, Terras do Sem Fim e São Jorge dos Ilhéus se passam nas mesmas ruas, bares e fazendas que continuam de pé. A novela Renascer, da Rede Globo, devolveu a cidade ao mapa do turismo cultural brasileiro.
O cabaré com passagem secreta para a catedral
Inaugurado em 1864, o Bataclan foi o cabaré mais famoso do norte do Brasil no auge do ciclo do cacau. A casa funcionou sob o comando da cafetina Maria Machadão, personagem real que entrou para os romances do escritor. A lenda local diz que uma passagem secreta ligava o prédio à Catedral de São Sebastião, permitindo aos coronéis transitar entre a missa e o pecado.
Fechado nos anos 1950 e reduzido a ruínas nas décadas seguintes, o casarão foi revitalizado com recursos da Petrobras via Lei Rouanet e reaberto em 2004. Hoje funciona como restaurante e centro cultural, com exposições e pratos típicos da culinária baiana.
Quais praias escolher no litoral mais extenso da Bahia?
São cerca de 100 km de costa, divididos entre o litoral sul, mais estruturado, e o norte, preservado e quase deserto. A diversidade atende de famílias com crianças a surfistas experientes.
- Praia dos Milionários: a mais procurada, com barracas, restaurantes e mar calmo. O nome vem das casas de veraneio dos antigos coronéis do cacau.
- Praia de Cururupe: encontro de rio e mar com banhos em água doce e salgada. Tem ondas fortes que atraem surfistas no trecho oposto.
- Praia do Sul (Back Door): um dos principais pontos de surfe da região, com ondas consistentes ao lado do canto sul da cidade.
- Olivença: combina águas termais raras no litoral baiano com presença da cultura indígena tupinambá.
- Praia de São Miguel: no litoral norte, faixa extensa de areia com poucas construções e cenário quase intocado.
O que ver no centro histórico além das igrejas?
O centro pode ser percorrido a pé em poucas horas. A maior parte dos prédios é tombada pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).
- Catedral de São Sebastião: cúpula de 47 metros, levou mais de 30 anos para ser concluída e domina a praça central.
- Casa de Cultura Jorge Amado: palacete neoclássico dos anos 1920 onde o escritor passou a infância, com acervo pessoal e exposições permanentes.
- Bar Vesúvio: bar centenário citado em Gabriela, Cravo e Canela, com estátua de bronze do autor sentada à porta.
- Palácio Paranaguá: sede da prefeitura desde 1907 e tombado pelo IPAC, símbolo do auge cacaueiro.
- Lagoa Encantada: a 34 km do centro, dentro de uma Área de Preservação Ambiental, com cachoeiras acessadas por barco em meio à Mata Atlântica.
A cozinha que mistura cacau, dendê e quibe
A culinária reúne a tradição baiana com referências dos romances de Jorge Amado. Restaurantes e bares do centro histórico mantêm receitas que aparecem nos livros.
- Moqueca de peixe: clássico baiano com dendê, leite de coco e pimenta, servido em panela de barro.
- Quibe do Nacib: homenagem ao personagem sírio de Gabriela, Cravo e Canela, recriado por bares do centro.
- Acarajé: bolinho de feijão-fradinho frito no dendê, recheado com vatapá, caruru e camarão seco.
- Chocolate artesanal: produzido nas fazendas de cabruca da Costa do Cacau, com tablete celebrado no Chocolat Festival, em julho.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O clima tropical úmido mantém calor o ano todo, com chuvas distribuídas e pico entre abril e julho. O verão concentra a alta temporada, e o inverno oferece dias mais cinzas, ideais para o circuito cultural.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à terra do cacau
O Aeroporto Jorge Amado fica a menos de 4 km do centro e recebe voos diretos de São Paulo, Belo Horizonte e Salvador. De carro, a cidade está a 460 km da capital baiana pela BR-101, com travessia de ferry-boat na Baía de Todos os Santos. Itacaré fica a 70 km pela BA-001, o que permite combinar os dois destinos numa mesma viagem.
A cidade onde Gabriela ainda passeia
Ilhéus reúne o maior litoral baiano com um centro histórico em que cada esquina virou romance internacional. Poucos destinos no Brasil conseguem unir mar morno, cacau de cabruca e cultura literária num só endereço.
Você precisa caminhar pela Praça Dom Eduardo, sentar ao lado da estátua de Jorge Amado no Bar Vesúvio e descobrir por que essa cidade nunca saiu da literatura.