A tentativa de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, de firmar um novo acordo de delação premiada esbarra em uma exigência considerada fundamental pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pela Polícia Federal (PF): admitir a prática de crimes e abandonar a postura de defesa adotada nas negociações anteriores.
Qual é a principal exigência para a nova delação de Vorcaro?
Nas reuniões realizadas na última semana entre os advogados de Vorcaro, representantes da PGR e delegados da PF, uma condição foi apresentada de forma clara. Para que uma nova proposta tenha chances de avançar, o banqueiro precisará reconhecer sua participação nos fatos investigados.
Segundo integrantes das negociações, a colaboração premiada não pode ser utilizada apenas como instrumento de defesa. A avaliação é que a proposta anterior fracassou justamente porque o empresário evitou assumir responsabilidades e manteve um discurso voltado à própria inocência. As informações são do jornal O Globo.
Por que a primeira proposta foi rejeitada?
A proposta apresentada anteriormente foi considerada insuficiente pelos investigadores. O entendimento era de que os anexos traziam informações limitadas e deixavam de abordar fatos já conhecidos pelas autoridades.
Além disso, a colaboração foi vista como seletiva por omitir episódios considerados relevantes para as investigações. Para integrantes da apuração, a estratégia transmitiu a impressão de que havia tentativa de proteger determinadas pessoas e minimizar fatos importantes.
Quais pontos chamaram atenção dos investigadores?
Entre os aspectos mais criticados estava o capítulo relacionado ao senador Ciro Nogueira. Os investigadores entenderam que o material apresentado foi excessivamente brando e deixou de abordar informações consideradas relevantes. Os principais pontos apontados foram:
- A suposta mesada de R$ 500 mil mencionada nas investigações;
- Gastos com viagens e jantares de luxo na Europa;
- A chamada “emenda Master”, que buscava ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão;
- A ausência de detalhes considerados relevantes sobre determinadas relações empresariais.
Por conta desse conteúdo, investigadores chegaram a apelidar internamente o trecho como “a beatificação de Ciro”, numa referência ao tom considerado excessivamente favorável ao senador.
O que falta para o acordo avançar?
Fontes ligadas às negociações afirmam que a simples inclusão de novos anexos não será suficiente para garantir a aceitação da proposta. O foco principal continua sendo a mudança de postura do banqueiro diante das acusações.
Na avaliação dos investigadores, Vorcaro precisará abandonar a narrativa de vítima e apresentar uma colaboração mais ampla e consistente. Sem isso, existe o entendimento de que qualquer nova tentativa poderá enfrentar o mesmo destino da proposta rejeitada em maio.
Como a relação com André Mendonça influencia o caso?
Além da negociação com a PGR e a PF, a defesa também busca reconstruir a relação com o ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). O desgaste ocorreu durante a tramitação da proposta anterior.
Após a rejeição da colaboração, Vorcaro chegou a ser transferido para uma cela de passagem com condições consideradas piores por seus advogados. Posteriormente, Mendonça autorizou seu retorno à sala de Estado-Maior da PF, gesto interpretado nos bastidores como uma oportunidade para recomeçar as tratativas.
Novo cenário pode definir o futuro das negociações
A decisão de permitir o retorno de Vorcaro ao local anterior de custódia foi vista por interlocutores como um possível recomeço nas conversas. Ainda assim, o sucesso da negociação dependerá principalmente do conteúdo da nova proposta.
Com isso, a defesa enfrenta agora um desafio decisivo: convencer o empresário de que uma delação premiada exige não apenas apresentar informações inéditas, mas também reconhecer responsabilidades pelos fatos investigados. É justamente esse ponto que poderá determinar o avanço ou o fracasso de um novo acordo.