No Norte de Minas Gerais, onde o cerrado encontra a caatinga, Montes Claros recebe quem chega com cheiro de pequi assado e som de tambores. A maior cidade do interior norte mineiro é a única do país a transformar um fruto em festa nacional e mantém viva uma das tradições de congado mais antigas do Brasil, com mais de 184 anos de história ininterrupta.
Do Arraial de Formigas à Princesa do Norte
Tudo começou em 1707, quando o alferes Antônio Gonçalves Figueira recebeu a sesmaria que deu origem à Fazenda Montes Claros, ponto de parada de tropeiros no sertão. O nome veio dos sete morros calcários que refletiam a luz do sol e podiam ser vistos de longe pelas tropas em viagem.
O povoado virou Vila Montes Claros de Formigas em 13 de outubro de 1831 e foi elevado a cidade em 1857. A chegada da ferrovia em 1926 conectou o Norte mineiro ao restante do país, e os incentivos fiscais a partir dos anos 1970 atraíram indústrias, transformando o antigo arraial na principal referência urbana entre o Sudeste e o Nordeste.
O que faz das Festas de Agosto uma tradição única no Brasil?
Há quase dois séculos, grupos de catopês, marujos e caboclinhos percorrem as ruas centrais em devoção a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e ao Divino Espírito Santo. Em 2025, a celebração chegou à 184ª edição.
O detalhe que diferencia os catopês locais dos demais congados brasileiros são os reis e rainhas infantes, prática rara nessa tradição. Os festejos são reconhecidos como Patrimônio Imaterial de Minas Gerais e reúnem cerca de 300 integrantes em pelo menos seis ternos. As três matrizes representam a formação do povo norte mineiro: catopês celebram a herança africana, marujos encenam os navegadores europeus e caboclinhos simbolizam os povos indígenas.
Cavernas e cerrado no Parque Estadual da Lapa Grande
A dez minutos do centro, o cerrado revela um sistema cavernícola pouco conhecido fora da região. O Parque Estadual da Lapa Grande, administrado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), ocupa 15.360 hectares e abriga mais de 50 cavernas catalogadas entre cerrado e caatinga.
A gruta principal tem cerca de 2,2 km de extensão, com estalactites, estalagmites e um rio subterrâneo. Quatro trilhas guiadas percorrem a unidade: a da Lapa Grande chega à caverna principal, a do Boqueirão da Nascente acompanha o rio Pai João, e a da Lapa Pintada revela painéis de pinturas rupestres. A visitação acontece de terça a domingo, das 8h às 16h.
O que visitar no centro da Princesa do Norte?
O roteiro urbano se resolve em poucas horas de caminhada. As atrações concentram fé, mercado e memória num mesmo perímetro.
- Mercado Municipal Christo Raeff: ponto obrigatório para provar cachaças artesanais, requeijão, carne de sol, doces caseiros e tudo que envolve pequi.
- Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição: na Praça Dr. Chaves, marca a origem da cidade no tempo do Arraial de Formigas.
- Catedral Metropolitana: construção iniciada nos anos 1920 em estilo neogótico, com rosáceas e vitrais imponentes.
- Centro Cultural Hermes de Paula: espaço dedicado à memória da cidade, com exposições sobre os catopês.
- Parque Municipal Milton Prates: 42 hectares de área verde em pleno centro, com lagos, pista de caminhada e espaço para piquenique.
- Parque da Sapucaia: 302 mil m² com trilhas e áreas de lazer no entorno urbano.
Por que a cidade é a Capital Nacional do Pequi?
Porque o fruto define a identidade gastronômica da região e ganhou um evento próprio. A Festa Nacional do Pequi reúne shows de música regional, oficinas, exposições e o concurso “O Melhor Roedor de Pequi do Mundo”, que virou fenômeno digital com milhões de visualizações.
O cardápio local mistura herança sertaneja e tradição mineira em pratos fartos e perfumados.
- Arroz com pequi: prato símbolo da cidade, servido em quase todo restaurante regional.
- Frango com pequi: receita emblemática do Norte mineiro, com a fruta cozida no caldo.
- Carne de sol serenada: menos seca e mais suculenta que a versão tradicional, servida com mandioca cozida.
- Queijo do Norte mineiro: artesanal, vendido puro ou com goiabada nas bancas do Mercado.
- Licores do cerrado: buriti, mangaba, umbu e o próprio pequi em dezenas de versões.
Qual a melhor época para visitar o sertão mineiro?
O inverno seco é a janela mais procurada, com céu limpo e o calendário das Festas de Agosto. O verão chuvoso refresca o cerrado e enverdece o parque.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Montes Claros?
A cidade fica a 422 km de Belo Horizonte pela BR-135, em cerca de cinco a seis horas de carro. O Aeroporto Mário Ribeiro, a aproximadamente 8 km do centro, recebe voos regulares de Confins e Guarulhos pelas principais companhias nacionais. A rodoviária central conecta a região a mais de 250 destinos no país.
Vá conhecer a cidade do pequi e dos tambores
Montes Claros reúne o que poucos lugares conseguem oferecer no mesmo endereço: festa bicentenária, caverna de mais de 2 km e um fruto que vira competição nacional. O cerrado define a paisagem, o pequi define a mesa e os catopês definem o calendário.
Você precisa visitar Montes Claros em agosto para ouvir os tambores na rua e provar o pequi na terra que transformou o fruto em orgulho regional.