O aroma de azeite de dendê sobe pelas ladeiras antes mesmo de se avistar o mar. Salvador recebe assim: com cheiro, cor e som. A capital da Bahia, fundada em 1549 por Tomé de Sousa, carregou o título de primeira capital do Brasil por mais de dois séculos e ainda guarda, nas fachadas coloniais e nos tambores do Pelourinho, a memória viva dessa era.
Por que o Centro Histórico é Patrimônio da Humanidade?
A resposta está em 80 hectares de urbanismo do século XVI ao XIX que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou em 1984 e a UNESCO declarou Patrimônio da Humanidade no ano seguinte. São mais de 800 casarões com fachadas coloridas, azulejos portugueses e largos de pedra que formam um dos conjuntos do urbanismo ultramarino português mais preservados do mundo. Em 2015, Salvador tornou-se a primeira cidade brasileira reconhecida pela mesma UNESCO como Cidade Criativa da Música.
A divisão original da cidade ainda molda o roteiro. A Cidade Alta concentrou administração, igrejas e residências desde a fundação. A Cidade Baixa ficou para o porto e o comércio. As duas continuam conectadas pelo Elevador Lacerda, inaugurado em 1873 como o primeiro elevador urbano do mundo, tombado pelo IPHAN em 2006. São 72 metros de altura percorridos em 30 segundos, com vista para a Baía de Todos os Santos.
O que visitar no Pelourinho e no Centro Histórico?
O Pelourinho é o coração do conjunto histórico e o ponto de partida natural. Tudo se percorre a pé pelas ladeiras de paralelepípedo, de preferência com calçado confortável.
- Igreja e Convento de São Francisco: interior quase inteiramente revestido em talha dourada, classificado como uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo. Construída a partir de 1686, é considerada uma das obras barrocas mais ricas do Brasil.
- Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos: erguida por pessoas escravizadas ao longo do século XVIII, tem missas com atabaques e cânticos de matriz africana. Nos fundos, preserva um antigo cemitério de escravizados.
- Terreiro de Jesus: praça rodeada pela Catedral Basílica e pelo Museu Afro-Brasileiro, dedicado à influência africana na formação do Brasil.
- Fundação Casa de Jorge Amado: instalada em casarão azul no Largo do Pelourinho, preserva a obra do escritor baiano mais traduzido do país.
- Elevador Lacerda e Mercado Modelo: na descida para a Cidade Baixa, o Mercado Modelo reúne artesanato baiano, instrumentos musicais e comida típica no antigo prédio da Alfândega de 1861.
Quais as atrações além do Pelourinho?
Salvador tem praias, igrejas e mirantes espalhados por bairros distintos. A orla se estende por mais de 30 km, e vários pontos históricos ficam a poucos minutos do centro.
- Farol da Barra e Forte de Santo Antônio: fortaleza do século XVII com o Museu Náutico da Bahia no interior. O pôr do sol daqui é um dos mais concorridos do Nordeste. A praia ao lado, Porto da Barra, tem águas calmas e é citada por publicações internacionais entre as melhores praias urbanas do mundo.
- Basílica do Senhor do Bonfim: construída entre 1746 e 1754, é o templo mais popular da cidade. A tradição das fitinhas coloridas amarradas na grade da escadaria atrai fiéis e turistas o ano inteiro. A Lavagem do Bonfim, celebrada toda segunda quinta-feira de janeiro, é a segunda maior celebração religiosa da Bahia.
- Dique do Tororó: manancial natural dentro da área urbana, tombado pelo IPHAN, com oito esculturas monumentais de orixás criadas pelo artista plástico Tatti Moreno em 1998. As peças representam Oxum, Ogum, Oxóssi, Xangô, Oxalá, Iemanjá, Nanã e Iansã.
- Solar do Unhão / MAM-BA: casarão do século XVII à beira da Baía de Todos os Santos que abriga o Museu de Arte Moderna da Bahia. O jardim com vista para o mar rivaliza com as exposições.
- Praia de Itapuã: eternizada por Vinícius de Moraes e Toquinho, tem farol listrado, coqueiros e piscinas naturais entre as rochas. Concentra algumas das baianas de acarajé mais tradicionais da cidade.
O que comer numa cidade onde a gastronomia é patrimônio?
A culinária de Salvador nasceu do encontro entre heranças africana, indígena e portuguesa. O ofício das baianas de acarajé foi registrado pelo IPHAN em 2005 como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Vestidas com trajes brancos, turbantes e colares, essas mulheres mantêm uma tradição centenária herdada das africanas escravizadas.
- Acarajé: bolinho de feijão-fradinho frito em azeite de dendê, recheado com vatapá, caruru, camarão seco e pimenta. Os tabuleiros do Rio Vermelho e de Itapuã são referência. Na tradição do Candomblé, é oferenda à orixá Iansã.
- Moqueca baiana: peixe ou frutos do mar cozidos em leite de coco e dendê, servida borbulhante em panela de barro com arroz e pirão. Diferente da versão capixaba, a baiana não dispensa o leite de coco.
- Bobó de camarão: creme de mandioca com camarões frescos refogados em leite de coco e dendê, acompanhado de arroz branco.
- Vatapá: pasta espessa de pão, camarão seco, amendoim e castanha de caju, presente no tabuleiro da baiana e nos restaurantes do Pelourinho.
- Cartola: sobremesa de banana frita com queijo coalho, açúcar e canela, encontrada nos restaurantes do Pelô e da Barra.
Quando ir e o que esperar do clima?
Salvador tem calor e sol o ano inteiro. A temperatura permanece estável e o mar é morno em qualquer estação. As chuvas se concentram entre abril e julho, e o período mais seco vai de setembro a março.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à capital baiana?
O Aeroporto Internacional Deputado Luís Eduardo Magalhães (SSA) fica a cerca de 28 km do Pelourinho e recebe voos diretos de todas as capitais brasileiras e de destinos internacionais. Do aeroporto, táxi e aplicativos levam ao centro em aproximadamente 40 minutos. Quem vem do sul da Bahia pode cruzar a Baía de Todos os Santos de ferry-boat, travessia cênica de cerca de uma hora entre Bom Despacho e o terminal de São Joaquim.
Uma cidade que dança mesmo fora do Carnaval
Salvador condensa em suas ladeiras a história do Brasil colônia, a resistência da cultura africana e uma gastronomia que o IPHAN reconheceu como patrimônio. São quatro séculos de história viva, com ensaios do Olodum nas ruas do Pelô, rodas de capoeira nos largos e acarajé quente saindo do tabuleiro em cada esquina.
Você precisa subir as ladeiras do Pelourinho ao entardecer, provar um acarajé feito na hora no Rio Vermelho e sentir o ritmo de uma cidade que não precisa de data marcada para celebrar.