Às margens do Rio Acre, a 3.030 km de Brasília, Rio Branco recebe o visitante com pontes estaiadas, gameleiras centenárias e a herança viva de quem cortou seringa em pleno coração da Amazônia. A capital do Acre abriga uma das maiores concentrações de geoglifos pré-colombianos das Américas.
De seringal a capital do estado mais ocidental
A história começou em 28 de dezembro de 1882, quando o seringalista cearense Neutel Maia subiu o rio em uma balsa e se encantou com a sombra de uma gameleira gigante. Ali fundou o Seringal Volta da Empreza, na curva do rio, segundo o Ministério do Turismo.
O território pertencia à Bolívia e só foi incorporado ao Brasil pelo Tratado de Petrópolis, assinado em 17 de novembro de 1903, após a Revolução Acreana. O povoado passou por nomes como Vila de Empresa e Pennápolis (em homenagem ao presidente Afonso Pena) até receber, em 1912, o nome definitivo em homenagem ao Barão do Rio Branco, diplomata que negociou a anexação ao território brasileiro.
O que os geoglifos contam sobre a Amazônia antes do contato?
Os arredores da capital concentram 478 figuras geométricas catalogadas no solo, entre quadrados, círculos, linhas e espirais. As formações foram desenhadas por povos pré-colombianos há mais de mil anos e ficaram cobertas pela floresta até a derrubada parcial da mata revelar o conjunto.
O passeio mais procurado para conhecer o cenário é o sobrevoo de balão, que atravessa o vale do Rio Acre a 300 metros de altura e mostra a biodiversidade da floresta de um ângulo raro, segundo o Ministério do Turismo. As figuras passaram a ser estudadas com mais atenção a partir dos anos 2000 e ajudaram a derrubar a tese de que a Amazônia teria sido uma floresta virgem antes da chegada dos europeus.
Quais atrações visitar na capital acreana?
O roteiro turístico se divide entre o casario histórico, museus de memória e parques urbanos. A maioria fica em raio caminhável no centro.
- Palácio Rio Branco: sede do governo do estado, construído em 1930 em estilo neoclássico. Abriga um museu sobre a formação do Acre.
- Memorial dos Autonomistas: homenagem ao movimento pela autonomia do Acre, um dos espaços mais visitados da capital.
- Museu da Borracha: inaugurado em 1978, no Centenário da Imigração Nordestina, conta a história dos seringueiros e da relação com os povos indígenas.
- Catedral Nossa Senhora de Nazaré: inaugurada em 1959 em estilo romano-basilical, com três naves e dezenas de vitrais coloridos.
- Passarela Joaquim Macedo: ponte estaiada de 200 metros sobre o Rio Acre, exclusiva para pedestres e ciclistas.
- Mercado Velho: fundado em 1929, vende tapioca, mingaus, bolo de macaxeira, cuscuz e artesanato indígena à beira do rio.
O único seringal urbano do Brasil
No bairro Seis de Agosto, perto do centro, o Parque Capitão Ciríaco preserva o único seringal urbano do Brasil. São 646 seringueiras centenárias e três árvores de sapupema com 60 a 70 metros de altura, que somadas ultrapassam 1.300 anos de existência, segundo a Prefeitura de Rio Branco.
O parque foi adquirido pela prefeitura em 1994 e é dedicado à memória de Ciríaco Joaquim de Oliveira, combatente da Revolução Acreana ao lado de José Plácido de Castro. Hoje funciona como patrimônio histórico, ambiental e paisagístico da cidade, com a Capela Nossa Senhora da Seringueira, a Casa do Seringueiro e uma galeria de arte e ciência.
O sabor da floresta na mesa acreana
A cozinha de Rio Branco combina raiz indígena, herança nordestina dos soldados da borracha e ingredientes da Floresta Amazônica. As barracas do Mercado Velho concentram o cardápio mais autêntico.
- Tacacá: caldo amarelo de tucupi servido em cuia, com jambu, camarão seco e goma de tapioca.
- Pato no tucupi: receita amazônica clássica que ganhou versão acreana com o pato cozido no caldo do tubérculo.
- Baixaria: prato tradicional acreano com paçoca de carne seca, banana frita e queijo coalho.
- Bolo de macaxeira: doce de mandioca consumido no café da manhã e nas barracas do mercado.
- Caldeirada de tambaqui: peixe amazônico em panela de barro com legumes, urucum e leite de coco.
Qual a melhor época para visitar a capital acreana?
O clima é equatorial úmido, com calor o ano todo e duas estações marcadas pelas chuvas. O período seco, entre maio e setembro, é a melhor janela para passeios externos.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar. Atenção à friagem, fenômeno típico de junho e julho, quando frentes frias derrubam a temperatura mínima abaixo dos 20°C em poucas horas.
Como chegar à capital mais ocidental do Brasil?
O Aeroporto Internacional Plácido de Castro fica a 25 km do centro e recebe voos diretos de Brasília, São Paulo, Cuiabá e Porto Velho. As ligações com Manaus e Belém têm conexão.
Por terra, a BR-364 conecta Rio Branco a Porto Velho, em viagem de cerca de 8 horas, e segue até Brasília em mais de 3 mil km. O fuso horário acreano é de UTC-5, duas horas atrás de Brasília, detalhe que costuma surpreender quem chega de avião e desce com o relógio do horário oficial.
Atravesse a passarela e descubra Rio Branco
Poucas capitais brasileiras conseguem reunir um seringal urbano em pleno centro, geoglifos pré-colombianos a poucos minutos de distância, a herança viva dos soldados da borracha e a cozinha amazônica em uma mesma viagem. Rio Branco transformou a história do extrativismo em identidade cultural.
Você precisa atravessar a Passarela Joaquim Macedo ao entardecer e entender por que a capital mais ocidental do Brasil guarda parte da memória mais singular da Amazônia.