O encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na semana passada foi tratado nos bastidores de Washington como algo totalmente fora do padrão adotado pela Casa Branca nos últimos meses.
Diferente de reuniões recentes com outros chefes de Estado, não houve o tradicional momento no Salão Oval diante da imprensa mundial, palco que se transformou em marca registrada de Trump para pressionar, confrontar e até constranger adversários políticos perante as câmeras.
Segundo interlocutores próximos ao governo americano, Lula evitou esse formato. E conseguiu. Em vez da exposição pública, o presidente brasileiro teria passado quase três horas a portas fechadas com Trump em uma conversa considerada “leve” e até descontraída.
Uma fonte ligada à Casa Branca relatou que Lula teria apostado em amenidades, comentários descontraídos e brincadeiras para quebrar o gelo com o presidente americano. Entre os temas citados estariam conversas sobre mulheres bonitas, situações curiosas da política internacional e episódios pessoais, numa estratégia que teria buscado afastar o clima de tensão política normalmente presente nas reuniões conduzidas por Trump.
O episódio chamou atenção porque ocorre justamente em um momento em que Lula continua sendo um dos líderes estrangeiros que mais criticam publicamente o trumpismo e setores conservadores americanos. Ainda assim, conseguiu um tratamento completamente diferente daquele dispensado a outros líderes globais que foram colocados sob pressão diante das câmeras.
Para o jornalista Paulo Figueiredo, existe uma peça-chave por trás dessa engrenagem: Joesley Batista. Segundo ele, o empresário teria acesso privilegiado ao entorno de Trump e estaria usando sua influência empresarial e política nos Estados Unidos para abrir portas ao governo brasileiro.
Nos bastidores republicanos, cresce a percepção de que o chamado “efeito Joesley” passou a ter peso real em Washington. O dono da JBS teria construído uma relação sólida com setores influentes do Partido Republicano através de investimentos, conexões empresariais e interlocuções estratégicas feitas ao longo dos últimos anos.
A situação gera desconforto em parte da direita brasileira radicada nos EUA. Isso porque, enquanto aliados conservadores travam uma guerra aberta contra Lula no cenário internacional, o petista aparentemente consegue manter um canal informal extremamente eficiente junto ao núcleo de poder americano.
O encontro reservado também alimentou especulações sobre o verdadeiro teor das conversas realizadas sem a presença da imprensa. Para analistas políticos, o formato adotado reforça a tese de que a diplomacia paralela, conduzida por empresários e operadores de influência, passou a ter papel tão ou mais relevante do que os canais oficiais entre governos.
No fim, a reunião mostrou que, apesar dos discursos públicos duros e das críticas constantes de Lula ao conservadorismo americano, a política internacional continua funcionando na lógica do pragmatismo absoluto. E nesse jogo, quem possui acesso direto ao poder acaba falando mais alto do que ideologias ou discursos de campanha.