O brilho do sol refletido nos azulejos portugueses destaca as ladeiras de pedra enquanto o som grave de uma radiola de reggae ecoa de uma janela colonial. Em São Luís, capital do Maranhão, essa mistura acontece de forma natural: caminhar por ruas do século XVIII ao som da Jamaica é parte do cotidiano e dá ao destino um charme único.
Uma ilha marcada por diferentes colonizações europeias
A história de São Luís começa em 8 de setembro de 1612, quando a expedição de Daniel de La Touche construiu o Forte de Saint-Louis na ilha de Upaon-Açu, em homenagem ao rei Luís XIII, com o objetivo de fundar a chamada França Equinocial. O domínio francês, porém, foi breve: em 1615, forças portuguesas lideradas por Jerônimo de Albuquerque reconquistaram a área na Batalha de Guaxenduba. Anos depois, entre 1641 e 1644, os holandeses também ocuparam a região, tornando a capital maranhense a única do Brasil com passagem por três colonizações europeias.
Já no século XIX, a prosperidade gerada pelo algodão impulsionou a vida cultural e intelectual da cidade, que passou a ser conhecida como Atenas Brasileira. Nomes como Gonçalves Dias, Aluísio Azevedo e Graça Aranha nasceram ali, consolidando esse período de destaque. Os casarões erguidos nessa época, revestidos com azulejos portugueses que ajudam a amenizar o calor, formam atualmente o maior conjunto arquitetônico desse tipo na América Latina.
Roteiro pelo centro histórico mais azulejado do Brasil
Com cerca de 4 mil imóveis protegidos pelo IPHAN e reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1997, o centro histórico de São Luís pode ser explorado a pé, entre becos, escadarias e largos que revelam construções dos séculos XVII ao XIX.
- Teatro Arthur Azevedo: inaugurado em 1817, é um dos mais antigos em funcionamento no Brasil e representa a força cultural da chamada Atenas Brasileira.
- Casa das Tulhas: mercado tradicional com especiarias, camarão seco, vinagreira e artesanato local; às sextas, ganha vida com o Tambor de Crioula.
- Rua Portugal: um dos trechos mais emblemáticos, com sobrados cobertos de azulejos, além de museus, galerias e a Casa do Maranhão, dedicada ao Bumba Meu Boi.
- Escadaria da Rua do Giz: com 32 degraus largos entre casarões coloridos, já foi eleita uma das mais bonitas do país pela revista Casa Vogue.
- Palácio dos Leões: antiga sede do poder desde o período colonial, com vista para a Baía de São Marcos e acervo dos séculos XVIII e XIX, com entrada gratuita.
Este documentário completo do canal Rolê Família apresenta São Luís e seu polo turístico como uma explosão de ritmos, cores e histórias que vão muito além de ser apenas um ponto de passagem para os Lençóis Maranhenses.
A tradição do boi que mistura fé, dança e espetáculo
Entre os meses de junho e julho, São Luís se transforma com o ciclo do Bumba Meu Boi, uma manifestação que une teatro, música, dança e religiosidade. A celebração gira em torno da morte e ressurreição de um boi e se expressa em cinco sotaque, matraca, zabumba, orquestra, baixada e costa de mão, cada um com seus próprios ritmos, figurinos e estilos. Em 2019, o Complexo Cultural do Bumba Meu Boi recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
A capital maranhense também se destaca por reunir reconhecimentos culturais em níveis material e imaterial. O Tambor de Crioula, expressão de origem africana marcada pela roda e pela “punga”, em que as mulheres conduzem a dança, foi registrado como Patrimônio Imaterial brasileiro em 2007, reforçando a força das tradições locais.
A Jamaica Brasileira que dança agarradinho
O reggae chegou ao Maranhão na década de 1970, possivelmente por ondas curtas de rádios caribenhas captadas no litoral. O ritmo encontrou terreno fértil na periferia de São Luís e ganhou identidade própria: aqui se dança a dois, colado, no estilo que os ludovicenses chamam de “agarradinho”. A cidade abriga mais de 200 radiolas e, desde 2023, carrega o título de Capital Nacional do Reggae, concedido pela Lei Federal 14.668/2023. O Museu do Reggae, instalado num casarão restaurado no centro histórico, é o único dedicado ao gênero fora da Jamaica.
Arroz de cuxá, juçara e o refrigerante cor-de-rosa
A cozinha ludovicense nasce do encontro entre ingredientes indígenas, temperos africanos e técnicas portuguesas. O arroz de cuxá, prato-símbolo, leva vinagreira (folha de hibiscus trazida da África), camarão seco e gergelim torrado. A juçara, versão maranhense do açaí, é servida gelada com farinha de tapioca e peixe frito. E o Guaraná Jesus, refrigerante cor-de-rosa com aroma de cravo e canela, existe há mais de um século e só se encontra no Maranhão.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
São Luís fica a dois graus da Linha do Equador, com calor o ano inteiro. As chuvas se concentram entre janeiro e junho. O período ideal para visitar é entre julho e dezembro.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Ilha do Amor
O Aeroporto Internacional Marechal Cunha Machado fica a 12 km do centro histórico e recebe voos diretos de São Paulo, Brasília, Fortaleza e Belém. São Luís também é porta de entrada para os Lençóis Maranhenses, a 250 km por estrada asfaltada até Barreirinhas. Do Cais da Praia Grande, catamarãs cruzam a Baía de São Marcos até a cidade histórica de Alcântara em cerca de 1h15.
Onde o reggae encontra os azulejos coloniais
São Luís reúne heranças de três colonizações, soma dois reconhecimentos da UNESCO e incorporou o reggae como parte da sua identidade cultural. Em poucos lugares do Brasil, história, sabores e tradições se cruzam de forma tão intensa, entre ruas de pedra centenárias e uma orla aberta para o Atlântico.
Caminhar pelas ladeiras da cidade, experimentar o arroz de cuxá em uma noite de Tambor de Crioula e sentir o ritmo que ecoa pelas ruas é a melhor forma de entender como essa ilha consegue ser, ao mesmo tempo, Atenas, Jamaica e Portugal.