O jornalista Lauro Jardim revelou que Arthur Lira, ex-presidente da Câmara dos Deputados e recém-eleito senador por Alagoas, estaria trabalhando discretamente para disputar a presidência do Senado Federal em fevereiro. A informação abre uma discussão sobre a relação de Lira com a direita conservadora brasileira, especialmente com o eleitorado bolsonarista, que ainda guarda ressentimentos de episódios marcantes de sua passagem pelo comando da Câmara.
Dois acontecimentos ajudam a explicar essa resistência: a prisão do então deputado Daniel Silveira, determinada pelo Supremo Tribunal Federal, e a derrota da proposta que pretendia instituir a impressão de comprovantes físicos dos votos nas urnas eletrônicas. Ambos ocorreram em 2021, quando Lira presidia a Câmara, e permanecem presentes no debate político conservador.
Daniel Silveira e o início de um confronto com o STF
Em fevereiro de 2021, o ministro Alexandre de Moraes determinou a prisão do então deputado federal Daniel Silveira após a divulgação de um vídeo com ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal e defesa de medidas antidemocráticas. A Câmara dos Deputados, sob a presidência de Arthur Lira, decidiu manter a prisão por 364 votos a 130.
Para uma parcela da direita, aquele episódio representou um divisor de águas. Seus críticos consideram que a decisão da Câmara abriu um precedente perigoso para a relação entre o Poder Legislativo e o Judiciário, contribuindo para o fortalecimento da atuação de Alexandre de Moraes em processos envolvendo parlamentares e lideranças conservadoras.
Essa interpretação é contestada por quem sustenta que a prisão decorreu de condutas específicas de Silveira e de decisões judiciais sujeitas aos mecanismos de controle previstos na Constituição. Ainda assim, no campo político, a condução do episódio permanece associada à presidência de Lira.
A segunda derrota: o comprovante impresso do voto
Meses depois, em agosto de 2021, veio outro episódio de grande repercussão. A Câmara rejeitou a PEC 135/2019, que pretendia introduzir um mecanismo de impressão e conferência física do voto eletrônico.
A proposta recebeu 229 votos favoráveis e 218 contrários, mas não alcançou os 308 votos necessários para aprovação de uma emenda constitucional.
Para os defensores da medida, a impressão permitiria uma auditoria física adicional da votação. Já os opositores argumentavam que o sistema eletrônico brasileiro dispunha de mecanismos de fiscalização e que a alteração poderia trazer custos, dificuldades operacionais e riscos ao sigilo do voto.
Arthur Lira colocou a proposta em votação, mas, como presidente da Câmara, tornou-se também um dos personagens políticos associados ao seu encerramento. Para setores bolsonaristas, o resultado representou mais uma derrota de uma pauta considerada prioritária.
O desafio de Lira diante dos conservadores
Agora, com a possibilidade de disputar o comando do Senado, Lira volta a encontrar uma questão política que marcou sua trajetória: a relação entre sua capacidade de articulação parlamentar e a confiança de setores da direita.
É importante distinguir a responsabilidade institucional de Lira pelas votações da responsabilidade individual dos deputados que decidiram seus resultados. Nem a manutenção da prisão de Silveira nem a rejeição da PEC do voto impresso foram decisões tomadas isoladamente pelo então presidente da Câmara.
Entretanto, na política, a imagem de um dirigente frequentemente fica vinculada aos acontecimentos que marcaram sua gestão. E esses dois episódios continuam sendo utilizados por críticos conservadores para questionar a atuação de Arthur Lira diante do Supremo Tribunal Federal e das pautas defendidas pelo bolsonarismo.
A informação publicada por Lauro Jardim, portanto, traz mais do que a possibilidade de uma nova candidatura ao comando do Congresso. Reabre o debate sobre a trajetória de um dos principais articuladores políticos de Brasília e sobre o peso de decisões tomadas em 2021 nas alianças parlamentares de 2027.