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Início Brasil

Brasil volta a ser devedor internacional após 19 anos, e dívida externa supera reservas

Por Junior Melo
21/out/2026
Em Brasil, Economia, Governo
WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO

WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO

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O Brasil voltou a registrar dívida externa líquida positiva após quase duas décadas na condição de credor internacional. Dados do Banco Central (BC) indicam que o endividamento externo do país chegou a US$ 407,1 bilhões, enquanto as reservas internacionais, incluindo créditos brasileiros no exterior, somaram US$ 402 bilhões. A diferença é de US$ 5,1 bilhões, conforme o balanço de junho.

Segundo informações divulgadas pelo Estadão, A mudança encerra um período iniciado em 2007, quando os ativos externos brasileiros superaram as obrigações com o restante do mundo. O resultado chama a atenção porque, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a dívida externa cresceu 27,4%, acima da expansão de 15,8% das reservas internacionais.

Apesar da mudança, economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast e agências de classificação de risco avaliam que o país ainda mantém mecanismos importantes de proteção contra crises externas. A preocupação está na possibilidade de a situação se deteriorar caso o déficit nas transações correntes permaneça elevado e haja redução da entrada de recursos estrangeiros.

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Déficit externo aumenta e reduz margem de segurança

Um dos fatores que pressionam as contas externas é o aumento do déficit em transações correntes, que reúne operações comerciais, serviços e transferências de renda entre o Brasil e outros países.

Em 2025, o saldo negativo chegou a US$ 67,4 bilhões, mais que o dobro dos US$ 27 bilhões registrados em 2023. Entre os fatores apontados estão os gastos com serviços internacionais, como plataformas de streaming, investimentos em criptoativos e pagamentos a credores estrangeiros.

A entrada de investimento estrangeiro direto tem ajudado a financiar esse déficit. No entanto, a diferença entre os recursos recebidos e o saldo negativo das transações correntes diminuiu nos últimos anos. Em 2025, a folga foi de US$ 17,6 bilhões, abaixo dos mais de US$ 38 bilhões registrados dois anos antes. Em 2024, ficou abaixo de US$ 9 bilhões.

Para o economista-chefe da Monte Bravo, Felipe Tavares, o país não enfrenta, neste momento, uma crise clássica de balanço de pagamentos. Ele avalia, porém, que a perda da posição de credor líquido reduz a capacidade de absorver choques econômicos prolongados sem pressão sobre o câmbio e o risco soberano.

A economista-chefe da KAT Investimentos, Elisa Machado, defende que períodos de maior entrada de investimentos e estabilidade cambial sejam aproveitados para recompor as reservas internacionais.

Reservas ainda são consideradas um ponto forte

Mesmo com a dívida externa acima das reservas, os indicadores brasileiros continuam sendo avaliados como relativamente sólidos. A dívida externa líquida representa menos de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB), e as reservas cobrem mais de três vezes os vencimentos de curto prazo, segundo os dados apresentados na reportagem original.

Para Felipe Kotinda, economista do Santander, o cenário não é preocupante enquanto o país mantiver reservas elevadas e capacidade de atrair investimentos. O risco aumentaria caso a dívida externa líquida continuasse avançando ao mesmo tempo que as reservas diminuíssem e o déficit em conta corrente se ampliasse.

A Fitch Ratings também considera que a liquidez externa brasileira permanece robusta. Todd Martinez, diretor sênior da agência, afirma que o país tem baixa dependência de financiamento em moeda estrangeira e reservas expressivas. Ele ressalta, contudo, que o estresse observado no mercado no fim de 2024 demonstrou a importância de uma política fiscal considerada confiável.

Naquele período, a pressão cambial levou o Banco Central a realizar uma intervenção de grande dimensão no mercado de câmbio.

A Moody’s também aponta a posição externa como uma das forças da economia brasileira. Entre os fatores favoráveis estão o câmbio flexível, a diversificação das exportações e a continuidade dos investimentos estrangeiros diretos.

Dívida pública externa tem características diferentes

A maior parte da dívida externa brasileira está concentrada no setor privado, que responde por aproximadamente 73% do total, segundo os dados citados. Essa composição reduz a exposição direta do governo, embora não elimine eventuais riscos para a economia.

Além disso, nem toda dívida contabilizada como externa representa uma obrigação emitida em moeda estrangeira. Títulos públicos emitidos em reais no mercado doméstico também podem entrar nessa categoria quando adquiridos por investidores não residentes.

A dívida pública federal emitida em moeda estrangeira soma cerca de R$ 348 bilhões, menos de 4% do estoque total da dívida pública federal, conforme a reportagem original.

Por esse motivo, a Fitch considera que o governo brasileiro ainda é credor externo líquido quando a comparação se limita às reservas internacionais e à dívida pública com o exterior. Esse indicador é diferente do cálculo que inclui as obrigações externas de bancos e empresas.

Tesouro pretende ampliar emissões no exterior

O Tesouro Nacional considera confortável a cobertura da dívida externa e avalia novas captações internacionais como parte da estratégia de diversificação das fontes de financiamento público.

O objetivo previsto no Plano Anual de Financiamento é elevar gradualmente a participação da dívida em moeda estrangeira para 7% do estoque da dívida pública federal, atualmente abaixo de 4%. A ampliação dependerá das condições de mercado e da avaliação dos custos e riscos.

O órgão também pretende manter emissões de títulos de referência em dólar, desenvolver uma curva de financiamento em euros e acompanhar as condições para uma possível emissão em yuan, a moeda chinesa.

A estratégia ocorre em um cenário internacional de juros elevados nos títulos do Tesouro dos Estados Unidos e de forte disputa por recursos destinados a investimentos em inteligência artificial. Esse ambiente pode tornar o financiamento de países emergentes mais caro e reduzir o prazo dos recursos captados.

Apesar da perda da posição de credor externo líquido no indicador que considera toda a economia, as agências de classificação de risco continuam apontando a situação fiscal como um dos principais desafios do Brasil. O desequilíbrio das contas públicas, os juros elevados e a dificuldade de consolidar o orçamento seguem entre os fatores que pressionam a avaliação de crédito soberano do país.

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