A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para pedir a cassação da chapa presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). A iniciativa atribui à Meta, responsável pelo Instagram, Facebook e WhatsApp, uma suposta atuação algorítmica favorável ao senador e prejudicial à candidatura petista. A informação foi publicada pela Folha de S.Paulo em 19 de outubro de 2026.
A ação de investigação judicial eleitoral (Aije), segundo o jornal, deverá apontar possíveis práticas de abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação social. A equipe jurídica de Lula sustenta que mecanismos de recomendação de conteúdo, ferramentas de inteligência artificial e sistemas de anúncios das plataformas teriam favorecido Flávio durante a disputa eleitoral.
As acusações ainda precisam ser examinadas pela Justiça Eleitoral. A Meta nega interferência política e afirma que não favorece candidatos ou partidos.
Campanha de Lula aponta diferenças no alcance das redes
Um dos principais argumentos da ação envolve o desempenho dos perfis dos dois candidatos no Instagram. Segundo os números citados pela equipe jurídica de Lula, Flávio teria uma média de curtidas e comentários por publicação quase três vezes maior que a do presidente, apesar de possuir uma base menor de seguidores.
Os dados apresentados na representação indicam que o perfil do senador registra média de 15,64 milhões de visualizações por Reels, ante 5,91 milhões nas publicações em vídeo de Lula. A campanha também aponta taxas de interação de 10,23% para Flávio e 2,86% para o presidente.
A ação menciona ainda o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos principais apoiadores de Flávio. De acordo com levantamento citado pela equipe petista, vídeos publicados pelo parlamentar teriam alcançado números de visualizações considerados elevados em comparação com perfis de personalidades conhecidas.
Como exemplo, a representação menciona um mesmo vídeo que teria registrado 396,4 mil visualizações no TikTok e 56,1 milhões no Instagram. Para a campanha de Lula, as diferenças levantam suspeitas sobre o funcionamento dos sistemas de recomendação. Os números, isoladamente, não comprovam favorecimento deliberado por parte da plataforma.
Mensagens internas e falhas em anúncios entram na ação
A equipe jurídica do presidente também utiliza informações de uma reportagem da Folha sobre mensagens internas de funcionários da Meta. Segundo a publicação, os diálogos indicariam que a conta oficial de Lula enfrentou restrições para impulsionar postagens no Instagram, enquanto conteúdos ligados a Flávio teriam sido recomendados em determinadas áreas das plataformas.
Um dos episódios ocorreu em 9 de outubro, quando o perfil de Lula ficou impedido de impulsionar publicações do feed. Inicialmente, a Meta atribuiu o problema a uma falha técnica global. A reportagem, porém, informou que funcionários discutiram diferenças entre o caso do presidente e uma ocorrência mundial registrada dois dias antes.
Outro ponto citado envolve o canal “Tropa do Flávio”, no WhatsApp. Segundo a representação, ele teria aparecido como recomendação quando usuários procuravam o canal de apoio a Lula, chamado “Exército de Lula”. A campanha argumenta que as regras eleitorais impedem a recomendação automática de canais de candidatos.
A ação também questiona a exibição do perfil de Flávio nas recomendações de busca do Instagram e a ausência do perfil de Lula em situações nas quais, segundo os relatos mencionados, deveria aparecer.
Meta nega favorecimento eleitoral
Em manifestação divulgada na sexta-feira (16), a Meta rejeitou as acusações de que estaria atuando para interferir na eleição ou beneficiar Flávio Bolsonaro. A empresa afirmou que os problemas relatados tiveram causas distintas e que algumas ocorrências afetaram contas e anunciantes de diferentes países.
A companhia também declarou que seus sistemas não são projetados nem operados para conceder tratamento preferencial a candidatos, partidos ou posições políticas.
Em relação à ferramenta de inteligência artificial, a Meta informou ter adotado restrições temporárias à geração de imagens de candidatos, incluindo medidas para impedir que comandos com o primeiro nome e o número eleitoral produzissem esse tipo de conteúdo.
TSE já determinou medidas contra a plataforma
A iniciativa de Lula ocorre após a campanha ter acionado anteriormente o TSE para questionar o funcionamento dos serviços da Meta. Conforme a reportagem, em decisão liminar de 15 de outubro, o ministro Marco Bellizze determinou que a empresa tratasse os candidatos de maneira isonômica e corrigisse problemas nas contas de anúncios do presidente.
A decisão estabeleceu multa diária de R$ 500 mil em caso de descumprimento. Na noite de domingo (18), uma nova determinação advertiu que a penalidade poderia subir para R$ 1 milhão por dia se as exigências não fossem atendidas no prazo de 24 horas.
A campanha petista pretende obter informações sobre os algoritmos da empresa e acesso a mensagens internas para fundamentar suas acusações. Os advogados Luiz Eduardo Peccinin e Maíra Recchia, que assinam a iniciativa, defendem que as suspeitas sejam apuradas e que haja transparência sobre o alcance das publicações políticas.
Flávio já apresentou sete ações contra a chapa de Lula
A disputa judicial ocorre em meio a uma série de representações eleitorais entre as duas campanhas. Segundo a Folha, a equipe de Flávio Bolsonaro já apresentou sete ações de investigação judicial eleitoral envolvendo pedidos de cassação da chapa de Lula e de declaração de inelegibilidade.
Os questionamentos do PL incluem alegações de promoção eleitoral com uso da estrutura da Presidência da República, do Ministério da Cultura, de sindicatos, da União Nacional dos Estudantes (UNE) e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A campanha também questionou a atuação da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, a mobilização pelo WhatsApp associada ao deputado André Janones e supostas ações de desinformação em perfis no Instagram.
Procurada pela Folha, a equipe jurídica de Flávio afirmou que só se manifestará sobre a nova iniciativa depois que a ação for protocolada.
O pedido da campanha de Lula deverá ser analisado pela Justiça Eleitoral, que terá de avaliar se os elementos apresentados justificam a abertura de investigação e se houve alguma infração capaz de comprometer a igualdade da disputa presidencial.
