Jonathan, considerado o animal terrestre mais longevo do mundo, tornou-se objeto de uma investigação científica que busca entender como seu organismo resistiu à passagem de quase dois séculos. Contemporânea de Charles Darwin, a tartaruga sobreviveu a duas guerras mundiais e a pandemias históricas, incluindo a gripe espanhola e a covid-19.
O animal chegou à ilha de Santa Helena, território britânico ultramarino no Atlântico Sul, em 1882, vindo das Seychelles. Na época, foi oferecido como presente a Sir William Grey Wilson, que posteriormente assumiu o governo da ilha. Jonathan já tinha aproximadamente 50 anos e permanece desde então nos jardins da residência oficial.
Embora as tartarugas-gigantes sejam conhecidas pela longevidade, podendo viver cerca de um século, a idade estimada de 194 anos de Jonathan ultrapassa amplamente a expectativa habitual para a espécie.
Estudo identifica características genéticas incomuns
Para investigar essa longevidade excepcional, uma equipe internacional de pesquisadores analisou o material genético de Jonathan e o comparou ao de outras quatro tartarugas da mesma espécie, com diferentes idades. O estudo, publicado na revista científica Science Advances, examinou tanto o genoma quanto o metiloma dos animais.
Os resultados apontaram características genéticas associadas à resistência ao envelhecimento. Segundo os pesquisadores, foram identificadas 287 variantes genéticas incomuns relacionadas a mecanismos importantes para a manutenção do organismo.
Essas variantes estão associadas a processos como reparação de danos no DNA, controle da inflamação, regulação da insulina e supressão de tumores. A análise também não identificou sinais de deterioração genética que explicassem a longevidade extraordinária do animal.
Marcas químicas do DNA ajudam a explicar a resistência
Além do genoma, os cientistas investigaram o metiloma, conjunto de marcas químicas que influencia a ativação e a desativação dos genes. Essas marcas participam da regulação de diferentes funções celulares e podem sofrer alterações ao longo do envelhecimento.
Em Jonathan, os pesquisadores observaram baixos níveis de variabilidade nessas marcas em genes relacionados à função das mitocôndrias, ao processamento de RNA e à reparação do material genético.
A comparação com tartarugas mais jovens também revelou que os mecanismos reguladores ligados ao reparo do DNA e ao metabolismo permanecem relativamente estáveis no animal, apesar de sua idade avançada.
Para Justin Gerlach, pesquisador da Universidade de Cambridge e um dos autores do trabalho, essa estabilidade representa um aspecto relevante da longevidade de Jonathan. Os resultados sugerem que a manutenção de processos celulares fundamentais pode contribuir para sua resistência ao envelhecimento.
Descobertas podem orientar pesquisas futuras
Os pesquisadores esperam que o estudo ajude a ampliar o conhecimento sobre os mecanismos biológicos envolvidos no envelhecimento. Stephen Clark, diretor da Fundação Kallel e também autor da pesquisa, destacou o potencial de utilizar essas descobertas evolutivas como ponto de partida para futuras abordagens terapêuticas.
Apesar dos resultados promissores, os mecanismos identificados ainda precisam ser mais bem compreendidos. O estudo não significa que os mesmos efeitos possam ser reproduzidos em seres humanos, mas oferece novas pistas para investigar como determinados organismos conseguem preservar funções celulares ao longo de períodos excepcionalmente longos.