Enquanto presidentes partidários antecipam apoio à reeleição dos atuais comandantes da Câmara e do Senado, novos adversários começam a surgir. O maior obstáculo, porém, pode aparecer somente depois do segundo turno presidencial, quando a pressão dos eleitores chegar aos parlamentares eleitos.
Os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), parecem ter entrado em uma verdadeira corrida contra o tempo para preservar seus cargos. Antes mesmo da posse dos novos parlamentares, marcada para fevereiro de 2027, os dois já articulam apoios e costuram compromissos com dirigentes partidários. A movimentação, entretanto, pode estar escondendo uma fragilidade: os caciques prometem votos que não necessariamente controlam.
Nesta quarta-feira (14), lideranças de partidos do Centrão anunciaram apoio à recondução de Hugo Motta. O bloco inicialmente divulgado reunia 245 deputados eleitos, número posteriormente ampliado para 252 com novas adesões. A iniciativa busca demonstrar força diante do PL, que conquistou 121 cadeiras e será a maior bancada individual da Câmara. Mas existe um detalhe que os articuladores parecem ignorar: a eleição para a presidência da Casa é secreta, e compromisso de presidente partidário não significa voto garantido de deputado.
No Senado, a situação de Alcolumbre pode ser ainda mais complicada. O presidente da Casa tenta construir uma aliança ampla, buscando apoio inclusive entre integrantes do PL, enquanto articula pautas de interesse do governo Lula. O problema é que a nova composição do Senado apresenta uma realidade política diferente daquela que permitiu sua chegada ao comando da instituição.
E há um componente decisivo que ainda não entrou plenamente nessa disputa: o surgimento de candidaturas competitivas contra os atuais presidentes. No Senado, Rogério Marinho (PL-RN) já é apontado pela direção do PL como candidato ao comando da Casa. A senadora Tereza Cristina (PP-MS) também aparece nas articulações, assim como o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), eleito senador e considerado uma alternativa de peso nas negociações. A eventual convergência dessas forças em torno de um único nome poderia representar um obstáculo significativo à permanência de Alcolumbre.
Na Câmara, o cenário ainda está aberto. O deputado Antonio Brito (PSD-BA), inicialmente considerado um possível concorrente de Hugo Motta, acabou declarando apoio à sua recondução. Outros nomes, como Doutor Luizinho (PP-RJ), chegaram a ser mencionados nas articulações. Entretanto, o PL e seus aliados ainda poderão construir uma candidatura alternativa, especialmente depois de conhecido o resultado da eleição presidencial.
Outro fator que pode mudar completamente o jogo é a pressão popular. Neste momento, grande parte da atenção dos eleitores e das lideranças políticas está concentrada no segundo turno da disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula. A batalha pelo Palácio do Planalto naturalmente ocupa o centro do debate nacional, deixando em segundo plano a escolha dos futuros presidentes da Câmara e do Senado.
Mas essa realidade poderá mudar radicalmente depois do segundo turno. Encerrada a disputa presidencial, as atenções poderão se voltar para Brasília, e os deputados e senadores recém-eleitos poderão passar a receber cobranças de seus próprios eleitores sobre quem deverão apoiar no comando do Congresso. Parlamentares que conquistaram mandatos defendendo renovação, independência e mudanças políticas poderão enfrentar dificuldades para justificar apoio automático à continuidade das atuais lideranças.
A renovação do Senado é particularmente expressiva. Das 54 cadeiras disputadas em outubro, 40 serão ocupadas por senadores que não conquistaram a reeleição para o cargo, enquanto apenas 14 foram preenchidas por parlamentares reeleitos. Isso significa que quase três quartos das vagas em disputa terão novos ocupantes. Trata-se de uma mudança importante na correlação de forças, capaz de alterar acordos construídos nos bastidores.
A situação se torna ainda mais delicada diante da possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro na Presidência da República. Nesse cenário, a pressão política por uma renovação também nas presidências das duas Casas poderá ganhar intensidade. O PL, fortalecido nas urnas, terá condições de buscar alianças com parlamentares de outras legendas que compartilhem posições semelhantes, independentemente dos compromissos assumidos pelas direções partidárias.
É justamente aí que reside o maior risco para Hugo Motta e Davi Alcolumbre. Ambos procuram consolidar apoios enquanto a opinião pública está concentrada na campanha presidencial. Entretanto, os acordos fechados agora poderão ser submetidos a um teste muito mais difícil quando os novos congressistas tomarem posse e começarem a enfrentar as cobranças de seus eleitores.
O Congresso de 2027 não será necessariamente um território controlado pelos mesmos caciques de 2025. A força das bancadas renovadas, o resultado da eleição presidencial, o surgimento de candidaturas alternativas e uma eventual mobilização popular poderão redesenhar completamente a disputa.
Motta e Alcolumbre tentam largar na frente, mas a verdadeira batalha ainda nem começou. E talvez o maior erro dos atuais presidentes seja acreditar que o apoio dos donos dos partidos representa automaticamente a vontade dos parlamentares eleitos.
Depois do segundo turno, quando a pressão popular finalmente se voltar para o comando do Congresso, os acordos costurados nos gabinetes de Brasília poderão valer muito menos do que imaginam seus articuladores.
Análise política Júnior Melo