Mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, revelam a proximidade entre o banqueiro e dois servidores que ocupavam cargos estratégicos no Banco Central.
Segundo documentos da investigação, Belline Santana, então chefe do Departamento de Supervisão Bancária, e seu adjunto, Paulo Sérgio Neves de Souza, mantinham contato direto com Vorcaro e, em diferentes momentos, teriam fornecido orientações sobre como o banqueiro deveria se posicionar diante da fiscalização e de questões relacionadas ao banco. Os dois foram afastados de suas funções e são investigados por possíveis irregularidades. Ambos negam ter cometido ilegalidades.
Orientações antes de reunião com Campos Neto
Em dezembro de 2023, Paulo Sérgio teria orientado Vorcaro sobre como conduzir uma reunião com o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.
De acordo com as mensagens, o servidor recomendou que o banqueiro argumentasse que havia uma “percepção equivocada” sobre o modelo de negócios do Master dentro do departamento de supervisão. Também teria sugerido que Vorcaro demonstrasse preocupação com possíveis mudanças nas regras de captação.
Paulo Sérgio ainda orientou o banqueiro a mencionar o ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski, contratado pelo Master após deixar a Corte, e o ex-advogado-geral da União Bruno Bianco. Segundo a conversa, ambos teriam feito uma avaliação positiva das perspectivas de lucro do banco com operações envolvendo precatórios.
Após o encontro, Vorcaro escreveu ao servidor: “Gostei! Foi bem receptivo. Interessado na apresentação”.
As conversas também apontam que Paulo Sérgio teria atuado em questões comerciais do conglomerado. Em determinado episódio, ele informou a Vorcaro que havia encontrado um possível comprador para uma das empresas do grupo.
Pagamentos e viagem à Disney
A investigação vai além das mensagens. Documentos analisados pelo Banco Central e pela PF apontam para possíveis vantagens financeiras e benefícios recebidos pelos dois servidores.
No caso de Belline Santana, a apuração interna do BC identificou pagamentos milionários associados a contratos de consultoria apresentados como relacionados a um projeto de inclusão financeira. A investigação também apura se esses contratos teriam sido utilizados para ocultar pagamentos indevidos.
Já Paulo Sérgio vendeu um sítio em Minas Gerais por cerca de R$ 4,5 milhões a um comprador ligado à família de Vorcaro. O servidor afirmou que só tomou conhecimento do vínculo entre o comprador e o banqueiro no momento da escritura.
A PF também identificou participação de Vorcaro em uma viagem de Paulo Sérgio e da família do servidor aos parques da Disney e da Universal, nos Estados Unidos. Segundo a investigação, foram contratados serviços de guias VIP para o grupo, em um valor apontado pela PF de US$ 38 mil, equivalente a cerca de R$ 194 mil na cotação utilizada na reportagem.
Investigação aponta possível favorecimento ao Master
As mensagens também mostram os servidores acompanhando de perto as dificuldades financeiras enfrentadas pelo Banco Master e os esforços de Vorcaro para demonstrar que a instituição poderia continuar operando.
Em uma das conversas, Belline escreveu: “Precisamos chegar do outro lado. Força!!!”, após analisar informações enviadas por Vorcaro sobre as entradas financeiras esperadas pelo banco.
A PF também afirma que Belline teria revisado documentos que seriam encaminhados pelo próprio Master ao Fundo Garantidor de Créditos e ao Departamento de Supervisão Bancária, setor que ele havia comandado.
Segundo relatório da Polícia Federal, os elementos reunidos indicam que os dois servidores teriam atuado de maneira recorrente na defesa de interesses privados de Vorcaro, incluindo orientações técnicas, revisão de documentos e possíveis informações internas.
O caso ainda está sob investigação. Belline Santana e Paulo Sérgio Neves contestam as suspeitas e sustentam que suas relações com Vorcaro estavam relacionadas às atividades profissionais e à tentativa de evitar problemas maiores para o banco.
A operação envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) também aparece no material investigativo. A negociação acabou não sendo concluída, e o Banco Central posteriormente determinou a liquidação do Master, em novembro de 2025.