O Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) analisa nesta sexta-feira (25) a atuação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, nas investigações relacionadas ao Banco Master. O julgamento foi motivado por mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, nas quais o nome do PGR aparece em diferentes contextos.
A discussão envolve dois pontos distintos: a possibilidade de designação de outro subprocurador-geral para apurar fatos relacionados à atuação de Gonet e a possibilidade de afastá-lo dos procedimentos ligados ao Banco Master. Gonet não participa da votação por ser diretamente interessado no caso.
No início da análise, o relator, subprocurador-geral Francisco de Assis Vieira Sanseverino, votou pelo arquivamento da representação. Ele afirmou que não foram encontrados no celular de Vorcaro contato direto ou conversa registrada entre o ex-banqueiro e Gonet. Segundo o relator, as referências ao PGR aparecem principalmente em diálogos de Vorcaro com terceiros e não seriam suficientes, isoladamente, para comprovar uma relação de amizade íntima ou favorecimento.
Sanseverino também considerou que o encontro entre Gonet e Vorcaro em Londres, em abril de 2024, foi um episódio isolado, ocorrido em ambiente social e com a presença de outras pessoas. O relator afirmou ainda que não identificou elementos que demonstrassem solicitação de vantagem por parte do PGR.
A análise também considerou a atuação da Procuradoria-Geral da República nas investigações do Banco Master. Segundo o voto, representantes do Banco Central procuraram a PGR em julho de 2025 para relatar suspeitas envolvendo operações do Master e do BRB. Procuradores responsáveis por apurações em São Paulo e no Distrito Federal teriam relatado que não houve tentativa de interferência ou solicitação de informações sigilosas por parte do gabinete de Gonet.
O relator também avaliou pedidos de medidas cautelares apresentados pela Polícia Federal e afirmou que os prazos reduzidos e o volume dos procedimentos justificavam a necessidade de mais tempo para análise. Ele citou ainda a recusa da PGR a duas propostas de colaboração premiada envolvendo Vorcaro como elemento contrário à hipótese de tratamento favorecido.
A conselheira Janice Ascari divergiu parcialmente. Ela defendeu a designação de outro subprocurador-geral para fazer uma análise preliminar dos fatos, sem concluir pela existência de crime. Entre os pontos que, segundo ela, ainda precisam ser esclarecidos estão a eventual participação do filho de Gonet em evento em Londres, incluindo possível pagamento de despesas, e o conteúdo de uma ligação entre Gonet e Vorcaro intermediada pelo advogado Ciro Soares.
Samantha Dobrowolski também votou pela designação de outro integrante do MPF. Para ela, Gonet deveria ter se afastado de um procedimento específico depois que surgiram elementos relacionados à sua própria esfera pessoal e, posteriormente, apresentou manifestação pedindo a nulidade de material que fazia referência a ele.
A conselheira afirmou que a questão não está apenas na menção ao nome do PGR, mas no fato de ele ter interesse direto na análise da providência. Na avaliação dela, outro integrante do Ministério Público deveria examinar os elementos antes de qualquer conclusão.
José Adônis também votou pela designação de um subprocurador para examinar os fatos. O conselheiro destacou especificamente a manifestação de Gonet pela anulação de decisão judicial e de informação da PF que faziam referência ao procurador-geral. Para ele, mesmo que o material não seja suficiente para demonstrar irregularidades, a análise sobre sua relevância não deveria ter sido feita pelo próprio Gonet.
Ana Borges Santos igualmente votou pela designação de outro subprocurador para apurar possível prevaricação. Segundo ela, o pedido de anulação de material que mencionava Gonet e um familiar justifica uma análise independente, sem representar, por si só, uma conclusão de que houve crime.
Alexandre Camanho acompanhou o relator quanto ao mérito da representação e afirmou não identificar elementos suficientes para justificar uma investigação por prevaricação. Ele também sustentou que eventual discussão sobre impedimento ou suspeição de Gonet em processos que tramitam no Supremo deve ser resolvida no próprio processo judicial e não pelo Conselho Superior do MPF.
Em relação ao afastamento de Gonet dos procedimentos do Banco Master, os conselheiros formaram maioria para mantê-lo na condução dos casos. Informações divulgadas durante a sessão apontaram placar de 6 a 0 nesse ponto, com outros votos ainda pendentes.
Já a votação sobre a designação de outro subprocurador para analisar a possível conduta de Gonet permaneceu dividida. A sessão extraordinária do CSMPF continua com a análise dos votos dos conselheiros.
O procedimento não estabelece, por si só, que Paulo Gonet tenha cometido crime ou praticado irregularidade. O objeto da votação é definir se existem elementos suficientes para uma apuração independente sobre sua atuação no caso Banco Master.
