A crise entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) pode ter impacto no cenário eleitoral de 2026 ao fortalecer o eleitorado bolsonarista, segundo avaliação de Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva e do Data Favela.
Em entrevista à BBC News Brasil, Meirelles afirmou que a crise não deve provocar uma perda significativa de votos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas pode dar novo ânimo a eleitores de direita que já consideravam a eleição praticamente definida em favor do petista.
“Lula não vai perder votos por causa disso. Mas isso dá um ânimo gigantesco ao eleitor bolsonarista que estava dando meio como certa a eleição do Lula”, afirmou.
Segundo o pesquisador, a disputa também pode fortalecer o discurso religioso ligado ao ministro André Mendonça, que é pastor evangélico. Após ser alvo de um pedido de investigação por Alexandre de Moraes, Mendonça publicou um vídeo agradecendo mensagens de oração e apoio.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também declarou solidariedade ao ministro e o chamou de “escolhido e ungido do Senhor”.
Para Meirelles, o episódio pode favorecer Flávio Bolsonaro (PL) ao aproximá-lo novamente do eleitorado evangélico que, segundo sua avaliação, havia perdido força na campanha do senador após seu desentendimento com Michelle.
“Transformar essa jornada do Supremo em uma cruzada é a forma mais eficiente para que o eleitorado bolsonarista consiga recuperar a força que a Michelle Bolsonaro tinha deixado em cima da mesa”, disse.
Crise pode influenciar reta final da eleição
Meirelles avalia que a crise no STF ocorre em um momento decisivo da disputa eleitoral. Para ele, embora a economia continue sendo um dos principais fatores para os eleitores, a escalada da tensão entre ministros pode alterar a pauta da campanha.
O pesquisador afirmou que o eleitorado de terceira via, que não pretende votar nem em Lula nem em Flávio Bolsonaro, demonstra cansaço com os conflitos políticos. Ao mesmo tempo, segundo ele, parte do eleitorado de direita que estava desanimada voltou a se mobilizar diante da crise no Supremo.
Na avaliação de Meirelles, uma eventual disputa eleitoral decidida por poucos pontos percentuais torna o cenário especialmente incerto.
“Numa eleição na qual todos os analistas, sem exceção, sabem que será decidida por dois ou três pontos de diferença, qualquer resultado é incerto. Tudo pode acontecer numa eleição tão apertada, independentemente do favoritismo.”
Economia ainda pesa sobre o eleitor
Apesar da repercussão da crise no STF, Meirelles afirma que a economia continua sendo um fator importante para a decisão do eleitor.
Segundo ele, existe uma diferença entre os indicadores macroeconômicos e a percepção da população. Para o pesquisador, muitos brasileiros ainda sentem dificuldades para pagar as contas, enfrentam endividamento e convivem com juros elevados.
Ele também avaliou que o governo Lula tem dificuldade para transformar os resultados econômicos em capital eleitoral porque a percepção da população sobre a própria situação financeira não acompanha necessariamente os indicadores.
“Existe uma diferença na sensação térmica da economia, entre o que o termômetro mostra, que são os indicadores macroeconômicos, e o que a população sente dessa temperatura”, afirmou.
Classe C pode ser decisiva
Outro ponto destacado pelo pesquisador é o comportamento da classe C, que, segundo ele, representa 53% do eleitorado brasileiro e possui renda familiar média de cerca de R$ 3,5 mil.
Meirelles afirma que esse grupo está dividido entre diferentes pautas. Enquanto parte dos eleitores mais velhos mantém preferência por Lula, questões relacionadas à segurança e aos costumes aproximam outros segmentos do bolsonarismo.
Para o pesquisador, os eleitores mais jovens da classe C são especialmente importantes porque demonstram menor identificação com os dois principais campos políticos.
“Esse jovem hoje está sendo fortemente disputado porque é ele o fiel da balança da classe C. E quem ganhar na classe C vai ganhar a eleição presidencial.”
Meirelles também apontou a redução da jornada de trabalho 6×1 como uma das pautas com maior potencial de influência eleitoral. Segundo ele, a medida pode alcançar não apenas os trabalhadores diretamente submetidos à escala, mas também suas famílias.
Flávio Bolsonaro enfrenta desafio
Na avaliação do pesquisador, Flávio Bolsonaro estaria recuperando parte dos votos que pertenciam ao seu pai, Jair Bolsonaro, enquanto Lula permanece relativamente estável nas pesquisas.
Meirelles, porém, considera que o candidato do PL enfrenta uma dificuldade para explorar politicamente a crise no STF: a relação de seu grupo político com questões envolvendo o Banco Master.
Segundo ele, isso cria uma situação de incerteza para o eleitor que pretende votar contra o Supremo, mas não encontra uma alternativa que esteja completamente distante das controvérsias envolvendo o banco.
O pesquisador também afirmou que as pesquisas de segundo turno, neste momento, devem ser vistas mais como indicação de tendência do que como retrato definitivo da eleição.
“É um retrato de um movimento para onde está indo, mas tem muita água para rolar daqui até o dia da eleição”, concluiu.
Com informações de BBC News.
