O surto de ebola que atinge o leste da República Democrática do Congo pode ser até três vezes maior do que indicam os números oficiais. O alerta foi feito nesta quinta-feira (20) pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África (Africa CDC), órgão de saúde pública da União Africana.
Segundo a entidade, foram registrados oficialmente 5.208 casos confirmados, mas apenas entre 30% e 40% dos casos reais estariam sendo identificados. Com isso, modelos desenvolvidos por especialistas da República Democrática do Congo em parceria com o Imperial College London estimam que a dimensão real do surto possa ser até três vezes superior.
“Estimamos que apenas entre 30% e 40% dos casos reais estejam sendo detectados”, afirmou Yap Boum, chefe de Preparação e Resposta a Emergências do Africa CDC.
Outro dado que preocupa as autoridades é a dificuldade de estabelecer a origem das infecções. Menos de 10% dos casos estão relacionados a contatos previamente conhecidos, enquanto menos de 40% apresentam uma ligação epidemiológica clara com algum caso confirmado.
Sintomas mais leves dificultam identificação
De acordo com Boum, uma das razões para a subnotificação é a cepa do vírus responsável pelo atual surto. A epidemia é causada pela variante Bundibugyo, que tende a provocar sintomas menos graves do que a cepa Zaire.
A menor frequência de quadros hemorrágicos severos pode fazer com que os pacientes não reconheçam rapidamente a gravidade da doença e demorem mais para procurar atendimento médico.
Como consequência, pelo menos 97% das mortes recentes ocorreram nas comunidades ou em unidades de saúde que não possuem protocolos adequados de isolamento e prevenção de infecções, segundo o Africa CDC.
Autoridades reforçam vigilância nas fronteiras
Apesar da dimensão do surto, há sinais de redução da transmissão em algumas áreas. O Africa CDC informou que três zonas sanitárias estão há mais de 42 dias sem registrar transmissão ativa.
As províncias de Ituri, considerada o epicentro da epidemia, além de Kivu do Norte e Kivu do Sul, não registraram novos casos nos últimos 79 dias.
A transmissão, entretanto, continua atingindo outras regiões, como Haut-Uélé, no leste do país, e Tshopo, no centro-norte.
As autoridades também confirmaram dois casos em Buta, na província de Bas-Uélé, no norte do país. A região fica próxima à fronteira com a República Centro-Africana, aumentando a preocupação com uma possível expansão internacional do vírus.
Em resposta, foram instalados laboratórios móveis e reforçados os mecanismos de vigilância nas áreas de fronteira.
Surto já supera epidemia anterior
A atual epidemia já ultrapassou em número de casos o surto registrado na mesma região entre 2018 e 2020.
Apesar disso, ainda está distante da maior epidemia de ebola já registrada. Entre 2014 e 2016, países da África Ocidental enfrentaram um surto que deixou cerca de 11 mil mortos e 28 mil casos.
A principal preocupação das autoridades agora é ampliar a identificação de infectados e interromper as cadeias de transmissão antes que o vírus avance para outras regiões da África Central.