O governo do presidente argentino Javier Milei voltou a acusar o Brasil de financiar uma suposta campanha “anti-Argentina” nas redes sociais e afirmou que pretende apresentar as fontes que sustentariam a denúncia. Até o momento, porém, não foram divulgadas provas públicas que comprovem o envolvimento do governo brasileiro.
A nova declaração ocorre em meio ao agravamento da crise diplomática entre Brasil e Argentina, que se intensificou após uma série de ataques de Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a autoridades brasileiras. O chanceler Mauro Vieira afirmou que o Brasil não financia campanhas contra a Argentina e defendeu que a normalização das relações entre os dois países depende do fim das agressões do governo argentino.
Acusação de Milei
A controvérsia ganhou força em 25 de julho, quando Milei esteve em São Paulo para participar de um evento político ligado ao lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Na ocasião, o presidente argentino afirmou que havia uma campanha contra a Argentina partindo do Brasil e promovida por setores que classificou como “progressistas” e “socialistas”.
No dia seguinte, Milei ampliou a acusação. Segundo o presidente argentino, cerca de 25% dos recursos utilizados na suposta campanha teriam vindo do governo brasileiro. Ele também mencionou o México e o Partido Democrata dos Estados Unidos como possíveis envolvidos.
A afirmação, no entanto, não foi acompanhada, naquele momento, pela apresentação de documentos ou outras evidências que comprovassem o suposto financiamento.
Governo promete apresentar fontes
O assunto voltou a ser discutido nesta terça-feira (11), quando o porta-voz da Presidência argentina, Adrián Ravier, foi questionado sobre as provas da acusação.
Ravier afirmou que o governo argentino possui informações provenientes das redes sociais e que pretende apresentar posteriormente as fontes relacionadas ao Brasil e aos demais países e grupos citados por Milei. A declaração, porém, não apresentou novas evidências capazes de comprovar que o governo Lula tenha financiado uma campanha contra a Argentina.
A ausência de provas públicas ganhou ainda mais destaque porque a acusação de Milei foi baseada, segundo checagem da AFP, em uma interpretação equivocada de um estudo da Monitor Digital divulgado em 24 de julho. A agência afirmou que Milei e seu chanceler utilizaram o levantamento para sustentar a existência de uma campanha anti-Argentina nas redes sociais.
Crise diplomática entre Brasil e Argentina
A disputa ocorre em um momento de forte deterioração das relações entre os dois países. Em agosto, o governo brasileiro reduziu sua representação diplomática na Argentina, substituindo o embaixador por um encarregado de negócios, em resposta aos ataques públicos de Milei contra Lula e contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.
Milei também intensificou as críticas ao governo brasileiro nas redes sociais. Nos últimos dias, o presidente argentino compartilhou mensagens ofensivas contra Lula e conteúdos que acusam o governo brasileiro de interferência na política argentina.
A tensão já provoca repercussão dentro da própria Argentina. Uma pesquisa divulgada nesta semana pela consultoria Zuban Córdoba apontou que 70,5% dos argentinos entrevistados desaprovam os ataques de Milei contra Lula, enquanto 20% disseram aprovar as críticas. O levantamento também mostrou que 88,9% consideram o Brasil importante para a economia argentina.
Acusação ainda sem comprovação
Apesar da promessa do governo argentino de apresentar as fontes, a acusação de que o Brasil teria financiado uma campanha anti-Argentina deve ser tratada, até o momento, como uma alegação do governo Milei, e não como um fato comprovado.
O governo brasileiro nega a acusação, enquanto o governo argentino afirma que apresentará posteriormente as informações que considera capazes de sustentar a denúncia. A divulgação dessas supostas fontes poderá ser importante para determinar se houve, de fato, financiamento organizado por autoridades brasileiras ou se as declarações de Milei foram baseadas em interpretações de dados sobre o comportamento nas redes sociais.
Enquanto isso, a disputa acrescenta mais um capítulo à deterioração das relações entre os dois principais parceiros comerciais da América do Sul e aumenta a pressão diplomática sobre os governos de Milei e Lula.