O sonho de uma oportunidade fora do Brasil tem se transformado em pesadelo para dezenas de brasileiros vítimas de redes internacionais de tráfico humano. Com promessas de empregos bem remunerados, moradia e passagens pagas, criminosos recrutam pessoas pelas redes sociais e contatos pessoais para submetê-las a exploração, violência e até cárcere privado.
Na semana em que foi celebrado o Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas, relatos de brasileiros levados ao Laos e aos Estados Unidos revelaram como falsas ofertas de trabalho podem esconder estruturas criminosas organizadas.
Um dos casos acompanhados pela organização Exodus Brasil envolve um brasileiro preso no Laos após uma operação contra uma rede de golpes virtuais. A irmã da vítima, identificada nesta reportagem pelo nome fictício Maria por questões de segurança, afirma que a família está há mais de 20 dias sem saber onde ele está ou em quais condições se encontra.
Segundo a entidade, outros 25 brasileiros vivem situação semelhante.
Brasileiro foi atraído por suposta vaga em call center
Maria conta que o irmão embarcou para o Sudeste Asiático em novembro de 2025 após receber uma proposta de trabalho em um call center na Tailândia. A viagem aconteceu rapidamente: ele comunicou a família em uma terça-feira e, no dia seguinte, já estava no avião.
Com o tempo, os parentes descobriram que o destino real era o Camboja. O brasileiro permaneceu na região até julho deste ano, quando perdeu o contato com a família. Dias depois, um amigo informou que ele havia sido preso em Vientiane, capital do Laos, durante uma operação contra uma rede de golpes virtuais que terminou com 122 pessoas detidas, incluindo 26 brasileiros.
Antes da viagem, ele trabalhava como motorista de aplicativo, alugava um espaço para eventos e cursava Direito. Após dificuldades financeiras, aceitou a proposta no exterior.
A família estranhou a situação porque ele não tinha recursos para custear a viagem nem possuía passaporte. Aos parentes, disse que um conhecido havia pago os documentos e a passagem.
“Logo no primeiro dia, ele mandou uma foto para a gente e já estava dentro de um carro com um homem. A atitude dele parecia muito estranha, como se estivesse sendo vigiado”, relatou Maria.
Segundo ela, o contato foi diminuindo com o passar dos dias. As mensagens demoravam a ser respondidas, chamadas de vídeo nunca aconteciam e as conversas se limitavam a informações básicas sobre a família.
Redes criminosas usam falsas oportunidades
De acordo com a diretora da Exodus Brasil, Cintia Meirelles, os criminosos costumam oferecer vagas em supostos call centers internacionais, mas as vítimas acabam obrigadas a participar de golpes digitais.
Os trabalhadores podem ser forçados a aplicar fraudes se passando por funcionários de empresas conhecidas, órgãos públicos ou instituições financeiras. Em alguns casos, trabalham entre 15 e 18 horas por dia, sob pressão, ameaças e metas abusivas.
“Muitos jovens recebem propostas de emprego no exterior com passagem, moradia e alimentação pagas. Ao chegar, porém, têm o passaporte retido e descobrem que o trabalho não era o prometido”, explica.
Segundo ela, o recrutamento costuma ocorrer por pessoas próximas ou intermediários que exploram vulnerabilidades financeiras e profissionais.
“As propostas prometem salários em dólar, moradia e todas as despesas pagas. Algumas chegam a oferecer US$ 10 mil por mês”, afirma.
Sudeste Asiático virou polo de golpes virtuais
O Laos faz parte do chamado Triângulo Dourado, região historicamente associada ao tráfico de drogas, mas que nos últimos anos também passou a concentrar redes internacionais de tráfico humano e crimes digitais.
Dados apresentados pelo governo do Laos indicam que milhares de pessoas de diferentes nacionalidades foram presas em operações contra centros de fraude eletrônica.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil também registrou aumento dos casos identificados de tráfico internacional. Em 2025, o Camboja apareceu como principal destino de brasileiros vítimas desse crime, seguido por países como Israel, Itália, Bélgica e Albânia.
O levantamento aponta que redes sociais e aplicativos se tornaram ferramentas frequentes para o recrutamento, principalmente com falsas ofertas de emprego na área de tecnologia.
Brasileiro no Laos aguarda assistência
A distância, as diferenças entre legislações e a dificuldade de cooperação internacional tornam o atendimento às vítimas mais lento.
O Brasil não possui embaixada residente no Laos. O atendimento diplomático é realizado pela Embaixada brasileira em Bangkok, na Tailândia.
A irmã do brasileiro preso afirma que a família ainda aguarda informações mais concretas do governo federal.
“É uma angústia diária. Minha mãe ficou acamada depois que soube. Ela não sabe se o filho está vivo ou morto. Se ele estiver morto, ela só quer saber a verdade”, afirmou.
O Itamaraty informou que realiza gestões junto às autoridades do Laos para prestar assistência consular aos brasileiros e mantém contato com os familiares.
Cativeiro nos Estados Unidos
Outro caso revela uma face ainda mais grave do tráfico humano. Luana Maciel, de 43 anos, afirma ter sido mantida em cativeiro por mais de nove meses nos Estados Unidos após aceitar uma suposta oportunidade de trabalho.
Em 2014, ela recebeu uma proposta para trabalhar no país e viajou acompanhada das duas filhas, então crianças. O que parecia uma chance de recomeço terminou em exploração, violência e isolamento.
Segundo Luana, ela foi levada para Kentucky, onde ficou presa em uma casa, teve documentos e telefones retirados e era obrigada a realizar trabalhos domésticos e outros serviços sob ameaças.
A fuga ocorreu após meses de controle. Aproveitando a ausência dos responsáveis pelo imóvel, ela e outras vítimas quebraram uma parede de drywall e conseguiram escapar.
Mais de dez anos depois, o caso ainda não teve conclusão judicial.
“Tráfico humano não acontece apenas com correntes”
Após sobreviver à exploração, Luana passou a atuar no combate ao tráfico de pessoas e alerta que muitas vítimas não percebem imediatamente que estão sendo exploradas.
“Esse crime pode assumir muitas formas e nem sempre envolve cativeiro ou correntes. Pode estar em situações que parecem oportunidades de mudança de vida”, afirma.
Ela orienta que pessoas interessadas em trabalhar no exterior pesquisem detalhadamente empresas, contratos, locais de destino e contatos oficiais antes de viajar.
“Isso não é coisa de filme. Acontece de verdade”, alerta.