Quando o assunto é economia de combustível, muitos motoristas olham apenas para a quantidade de quilômetros que um carro percorre por litro. No entanto, a eficiência de um veículo depende de uma série de fatores de engenharia que vão muito além desse indicador.
Segundo Iago Átila, fundador da Compre Sua Peça, o consumo é resultado da combinação entre peso, aerodinâmica, motorização, sistemas de injeção e outras tecnologias desenvolvidas para reduzir desperdícios de energia.
Tecnologia faz diferença no consumo
De acordo com o especialista, motores modernos contam com recursos que aumentam o aproveitamento da energia gerada pela combustão. Um dos exemplos são os motores turbo, que utilizam os gases de escapamento para melhorar o desempenho sem elevar significativamente o consumo.
“Isso faz com que haja um melhor aproveitamento dos gases de escapamento, permitindo reverter a queima em menos consumo ou mais potência para o mesmo motor”, explica.
Outro avanço importante é a injeção direta de combustível, tecnologia que melhora a combustão dentro do motor e reduz a quantidade de combustível necessária para gerar o mesmo desempenho.
Os carros mais econômicos já produzidos
Entre os veículos mais eficientes da história, o Volkswagen XL1 é apontado como um dos maiores exemplos de economia. Segundo Átila, o modelo pode alcançar consumo de até 80 quilômetros por litro graças à combinação de carroceria em fibra de carbono, baixo peso, excelente aerodinâmica e um conjunto híbrido diesel-elétrico.
Apesar dos números impressionantes, o especialista ressalta que o XL1 foi produzido em quantidade bastante limitada.
“O XL1 foi praticamente artesanal, produzido em pouquíssimas unidades, o que o afasta da realidade de mercado”, afirma.
Já entre os veículos fabricados em larga escala, destacam-se modelos como Toyota Aygo, Peugeot 107 e 108, Citroën C1 e Kia Picanto, que registram médias entre 19 e 23 quilômetros por litro.
Evolução tecnológica aumentou a eficiência
A indústria automotiva incorporou diversas inovações ao longo das últimas décadas para reduzir o consumo de combustível.
Segundo Átila, a evolução começou com a substituição dos carburadores pela injeção eletrônica nos anos 1980 e 1990. Depois vieram os motores turbo de baixa cilindrada, a injeção direta, sistemas start-stop, variação do comando de válvulas e tecnologias de desligamento de cilindros.
“Nos anos 80 e 90, a injeção eletrônica substituiu o carburador; nos anos 2000, turbocompressores passaram a manter a potência de motores com cilindrada menor. Vieram depois a injeção direta, o desligamento de cilindros, os sistemas start-stop e a variação do comando de válvulas. Mais recentemente, o movimento é outro: a hibridização, com o motor elétrico auxiliando a combustão, e a eletrificação total”, explica.
Peso, aerodinâmica e motor influenciam diretamente
Para o especialista, três fatores são determinantes para reduzir o consumo de combustível: peso, aerodinâmica e motorização.
“A primeira é o peso: cada quilo a menos exige menos energia para acelerar e manter o carro em movimento. A segunda é a aerodinâmica, em que um coeficiente de arrasto baixo diminui a resistência do ar. A terceira é a motorização, que reúne downsizing com turbo, motores de três cilindros, transmissões mais eficientes e eletrificação”, afirma.
Elétricos mudaram a forma de medir eficiência
Com a popularização dos veículos elétricos, comparar a eficiência entre diferentes tecnologias tornou-se mais complexo.
Enquanto carros a combustão utilizam quilômetros por litro como referência, os elétricos medem o consumo em quilômetros por quilowatt-hora.
“O cerne do problema é que as métricas não são diretamente comparáveis, já que cada tecnologia calcula eficiência energética de um jeito próprio”, explica Átila.
Para facilitar essa comparação, o Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular, do Inmetro, utiliza o índice de quilômetros por litro equivalente.
Segundo o ranking mais recente do órgão, o BYD Dolphin Mini lidera entre os modelos vendidos no Brasil, com 58,6 km/l equivalente na cidade. Na sequência aparecem o Renault Kwid E-Tech, com 52,7 km/l equivalente, e o JAC E-JS1, com 51 km/l equivalente.
Entre os híbridos, o Honda Civic Hybrid Touring 2.0 registra média de 18,4 km/l em uso urbano.
Economia depende também do motorista
Além das características do veículo, a forma de condução influencia diretamente o consumo.
Segundo o especialista, hábitos como manter os pneus calibrados, evitar excesso de peso, realizar as manutenções preventivas e dirigir de maneira suave podem reduzir significativamente o gasto de combustível.
“Alguns hábitos comuns, como manter as janelas fechadas em rodovia e usar o ar-condicionado com moderação, fazem diferença real no consumo. Além disso, pneus com calibragem baixa, excesso de peso no veículo, acelerações e frenagens bruscas, manutenção atrasada, causando problemas como filtro de ar sujo, velas desgastadas, óleo vencido, também pesam na conta. A diferença entre o consumo real e o previsto pelo fabricante pode passar de 20-30% facilmente”, alerta.
Futuro deve combinar eletrificação e combustíveis renováveis
Para os próximos anos, a expectativa é de crescimento da eletrificação, principalmente com a expansão dos veículos híbridos e elétricos.
Ao mesmo tempo, motores a combustão continuam evoluindo com tecnologias mais eficientes e o uso de combustíveis renováveis.
No caso do Brasil, o especialista avalia que o etanol continuará desempenhando papel importante na transição energética, especialmente devido à ampla infraestrutura já existente e à menor disponibilidade de pontos de recarga elétrica fora dos grandes centros.
“O Brasil pode seguir um caminho híbrido por mais tempo que outros países, dada sua matriz energética favorável ao etanol”, conclui.
