O ex-presidente do Banco Central e fundador da Gávea Investimentos, Arminio Fraga, afirmou que o Brasil enfrenta um cenário econômico preocupante e alertou para o risco de recessão nos próximos anos. Em entrevista, o economista atribuiu parte das dificuldades à situação fiscal do país e defendeu a adoção de medidas para conter o crescimento da dívida pública.
Segundo Fraga, o aumento da inadimplência, que já atinge mais de 80 milhões de brasileiros, e as dificuldades enfrentadas por empresas para refinanciar dívidas são sinais de alerta para o mercado de crédito. Ele também destacou que o encurtamento do perfil da dívida pública é um indicativo de que o ambiente econômico exige atenção.
Na avaliação do economista, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não conseguiu implementar medidas capazes de garantir um crescimento mais sustentável. Embora reconheça que os indicadores de emprego e atividade econômica apresentaram desempenho positivo, Fraga afirma que o país continua registrando baixa taxa de investimento e poucos ganhos de produtividade.
“A situação fiscal é bastante grave. Embora o governo tenha criado o arcabouço fiscal, chutou o pau da barraca logo de cara e os resultados estão aí”, afirmou.
Para ele, o elevado nível dos juros de longo prazo demonstra que os problemas vão além das oscilações da inflação e refletem a desconfiança do mercado em relação às contas públicas.
Fraga também criticou o descumprimento das metas fiscais estabelecidas no início do atual mandato e afirmou que o quadro atual não é sustentável. Segundo ele, além da inadimplência elevada, diversas empresas encontram dificuldades para renegociar seus passivos, enquanto o governo opta por emitir títulos com prazos menores para reduzir o custo da dívida.
Ao comentar a possibilidade de um quarto mandato de Lula, o economista afirmou que o presidente lidera as pesquisas eleitorais, mas disse que o país precisaria de uma gestão mais próxima do primeiro mandato do petista do que dos governos recentes.
Fraga também avaliou um eventual governo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Segundo ele, a principal referência seria a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, que classificou como marcada por conflitos políticos e decisões controversas em áreas como vacinação, política armamentista e questões sociais.
Questionado sobre alternativas para romper a polarização política, o economista citou os governadores Ronaldo Caiado (União Brasil) e Romeu Zema (Novo) como nomes que poderiam reunir apoio político para implementar reformas econômicas. Ele acrescentou que não pretende declarar apoio a outro candidato após a saída de Eduardo Leite da disputa presidencial.
Entre as medidas consideradas prioritárias, Fraga defendeu uma nova reforma da Previdência, mudanças para aumentar a eficiência do Estado e a revisão de subsídios e benefícios fiscais. Segundo ele, os incentivos tributários representam cerca de 9% do Produto Interno Bruto (PIB), percentual que poderia ser reduzido.
O economista também afirmou considerar provável a entrada do Brasil em recessão em 2027 caso não haja mudanças na condução da política fiscal.
“Não descarto uma recessão em 2027. Por isso, tenho recomendado às empresas e às pessoas que tomem muito cuidado com as dívidas. Preservem o caixa e não peguem empréstimos”, declarou.
Na entrevista, Fraga voltou a afirmar que o crescimento dos gastos públicos ao longo das últimas décadas demonstra que o país não viveu um período de austeridade fiscal. Para ele, faltou prioridade na gestão das despesas e na revisão das renúncias de receitas.
Ao recordar o período pós-Plano Real, o economista avaliou que o Brasil chegou a apresentar perspectivas positivas, especialmente durante o primeiro mandato de Lula, mas afirmou que a disciplina fiscal foi sendo abandonada ao longo dos anos.
Por fim, Arminio Fraga afirmou que a responsabilidade pelo equilíbrio das contas públicas não recai apenas sobre o Executivo. Segundo ele, Legislativo e Judiciário também exercem influência sobre o cenário fiscal, embora considere que a coordenação das medidas dependa principalmente do governo federal.
Ao comentar a política econômica do presidente argentino Javier Milei, Fraga afirmou que o mandatário encontrou uma economia em grave situação e avaliou positivamente as medidas de ajuste fiscal adotadas pelo governo argentino, apesar de reconhecer que parte delas foi implementada de forma dura.