Pessoas negras representaram 79,7% das vítimas de mortes violentas intencionais registradas no Brasil em 2025, de acordo com o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O percentual é mais de 24 pontos percentuais superior à participação desse grupo na população brasileira, que corresponde a 55,5%, segundo o Censo 2022 do IBGE.
Ao longo de 2025, o país registrou 40.775 mortes violentas intencionais, o equivalente a uma taxa de 19,1 casos por 100 mil habitantes. O número representa uma redução de 8,2% em relação a 2024 e de 31% na comparação com 2012, primeiro ano da série histórica do Fórum. É também a menor taxa já registrada pelo levantamento e a primeira inferior a 20 mortes por 100 mil habitantes.
O indicador de mortes violentas intencionais (MVI), criado pelo próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública, reúne casos de homicídio doloso, feminicídio, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenção policial, tanto em serviço quanto fora dele.
Os dados mostram que a população negra é maioria entre as vítimas em todas as modalidades de crimes analisadas. Nos homicídios dolosos, esse grupo representa 79,9% das vítimas.
A maior diferença aparece nas mortes provocadas por intervenção policial, nas quais 82% das vítimas eram pessoas negras, enquanto 17,7% eram brancas. Nos casos de lesão corporal seguida de morte, pessoas negras correspondem a 68,6% das vítimas e pessoas brancas a 30,1%. Já nos registros de latrocínio, os percentuais são de 62,8% e 36,7%, respectivamente.
O levantamento aponta ainda que indígenas e pessoas amarelas aparecem em proporções reduzidas nas estatísticas. Segundo o relatório, isso não elimina a necessidade de estudos específicos e dados mais detalhados sobre essas populações.
Em relação à letalidade policial, a taxa registrada em 2025 foi de 3,5 mortes por 100 mil habitantes entre pessoas negras, contra 1,0 entre pessoas brancas — uma diferença de 3,5 vezes.
O estudo também mostra que as mortes decorrentes de intervenção policial cresceram 3,5% entre pretos e pardos na comparação com 2024, enquanto permaneceram estáveis entre pessoas brancas. Ao todo, foram contabilizados 6.602 casos em 2025, alta de 5,4% em relação ao ano anterior. Essas ocorrências representam 16,2% de todas as mortes violentas intencionais registradas no país, o equivalente a uma em cada seis mortes.
Segundo o Anuário, esse foi o maior número da série histórica. O relatório destaca ainda que, em outubro, a Operação Contenção, realizada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, terminou com 122 mortos, entre eles cinco agentes de segurança.
O perfil das vítimas revela que os homens correspondem a 90,8% das mortes violentas intencionais. Nos casos envolvendo intervenção policial, esse percentual sobe para 99,3%.
Os jovens entre 18 e 29 anos representam 41,6% das vítimas. Entre as mortes provocadas por ações policiais, pessoas de 18 a 24 anos concentram aproximadamente 36% dos registros.
Entre crianças e adolescentes, a desigualdade racial também é evidente. Na faixa etária de 0 a 11 anos, 62,6% das vítimas eram negras. Entre adolescentes de 12 a 17 anos, o percentual chega a 86,3%, o equivalente a quase nove em cada dez vítimas.
No caso das mulheres, negras representaram 65,1% das vítimas de feminicídio e 74,6% das demais mortes violentas intencionais.
O Anuário também destaca que, em 2025, foram registrados 1.571 casos de feminicídio, alta de 4% em comparação com o ano anterior. O crime passou a ser tratado como tipo penal autônomo após a entrada em vigor da Lei 14.994, em outubro de 2024. Para manter a comparabilidade histórica, o estudo continuou incluindo os feminicídios no cálculo das mortes violentas intencionais.
O padrão observado nas estatísticas também aparece no sistema prisional. Em 2025, pessoas negras representavam 69,6% da população carcerária brasileira, maior índice desde o início da série histórica, em 2005. Já as pessoas brancas correspondiam a 29,2% dos presos, menor percentual já registrado.
No sistema socioeducativo, 73,7% dos adolescentes em cumprimento de medidas de internação ou semiliberdade se autodeclararam negros, sendo 56,3% pardos e 17,4% pretos. Entre esses jovens, 76,1% tinham entre 16 e 18 anos.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a repetição desse padrão ao longo das últimas duas décadas indica a persistência de desigualdades raciais no funcionamento do sistema de justiça criminal.
O levantamento também registrou aumento nos casos de racismo. Em 2025, foram contabilizados 30.743 boletins de ocorrência, crescimento de 13% em relação ao ano anterior. Já os registros de injúria racial somaram 21.443 ocorrências, alta de 9,2%.
Pelo segundo ano consecutivo, os casos de racismo superaram os de injúria racial. O relatório relaciona esse cenário às mudanças promovidas pela Lei 14.532/2023, que equiparou a injúria racial ao crime de racismo.
Apesar do aumento, o Fórum aponta que ainda existe falta de padronização entre os estados na forma de registrar esses crimes, o que dificulta comparações nacionais. Em 2025, 26 unidades da federação informaram dados sobre racismo e 25 apresentaram registros de injúria racial.
Os homicídios dolosos encerraram 2025 com 32.914 vítimas, taxa de 15,4 por 100 mil habitantes, representando uma queda de 10% em relação ao ano anterior. O índice ficou abaixo da meta de 16 homicídios por 100 mil habitantes prevista para 2027 pela Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, fazendo com que o objetivo fosse alcançado dois anos antes do previsto.
Entre os indicadores de mortes violentas intencionais, apenas os feminicídios e as mortes decorrentes de intervenção policial apresentaram aumento em relação ao ano anterior.
Mesmo com a redução nacional, sete unidades da federação registraram crescimento nas mortes violentas intencionais em 2025: Rio Grande do Norte (19,6%), Rondônia (7,5%), Acre (6,3%), Roraima (5,8%), Distrito Federal (5,8%), Mato Grosso do Sul (4,9%) e Rio de Janeiro (2,1%).
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública é elaborado com base em registros policiais e informações fornecidas pelas secretarias estaduais de Segurança Pública e Defesa Social, além de estimativas populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
