Em Santos, portas corrediças precisam de travas para não abrir sozinhas, bolas rolam para o canto do apartamento sem ninguém empurrar e a água nem sempre corre em direção ao ralo. São 319 edifícios inclinados sobre argila marinha, o segundo pior solo para construção civil do mundo, atrás apenas da Cidade do México. Enquanto os moradores convivem com o desaprumo, turistas tiram fotos fingindo segurar os prédios, como fazem com a Torre de Pisa.
Por que tantos edifícios entortaram na orla santista?
Entre as décadas de 1940 e 1970, construtoras ergueram torres de 10 a 20 andares com fundações rasas, a menos de dez metros de profundidade, sobre camadas de areia e argila mole. O solo cedeu de forma desigual, e os prédios começaram a inclinar em diferentes ângulos. Dos 319 edifícios afetados, 65 atingiram inclinação classificada como acentuada pela ABNT. O caso mais famoso é o do Edifício Núncio Malzoni, no Boqueirão, que chegou a 2,10 metros de desvio do topo em relação à base.
Em 2000, engenheiros da Escola Politécnica da USP realizaram o primeiro reaprumo de um prédio com recalque no mundo, usando macacos hidráulicos e estacas a 56 metros de profundidade. Especialistas de países como Japão, Canadá e México visitaram a obra, incluindo um dos engenheiros responsáveis pela correção da Torre de Pisa. Santos concentra mais prédios inclinados que qualquer outra cidade do planeta.
5,3 km de jardim e um recorde no Guinness
Se a orla entorta para um lado, o paisagismo compensa para o outro. O Jardim da Orla se estende por 5.335 metros contínuos de canteiros floridos ao longo de sete praias, com 218.800 m² de área verde, mais de 70 espécies ornamentais e 38 esculturas ao ar livre. O Guinness World Records certificou o título de maior jardim frontal de praia do mundo. A ideia surgiu em 1914 com o engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, o mesmo que projetou os canais de drenagem que livraram Santos das epidemias. As primeiras obras começaram nos anos 1930 e, sem querer, salvaram a orla da especulação imobiliária.
A qualidade de vida no litoral paulista atrai muitos novos moradores e turistas. O vídeo é do canal MAIS 50, que conta com mais de 640 mil inscritos, e apresenta os jardins da orla, infraestrutura e mobilidade:
O surfe brasileiro nasceu nestas praias
No verão de 1937 para 1938, o jovem norte-americano Thomas Rittscher Jr., radicado em Santos, construiu uma prancha artesanal seguindo um tutorial da revista Popular Mechanics e desceu as ondas da Praia do Boqueirão. Foi a primeira vez que alguém surfou em águas brasileiras. Sua irmã, Margot Rittscher, experimentou a mesma prancha e se tornou a primeira mulher surfista do país. No ano seguinte, três amigos santistas, Osmar Gonçalves, Juá Haffers e Silvio Manzoni, aderiram ao esporte e são reconhecidos como os primeiros surfistas brasileiros de fato.
Em 1992, Santos inaugurou a primeira escola pública de surfe do Brasil, que já formou mais de 32 mil alunos. O Museu do Surfe, projeto do arquiteto Ruy Ohtake, exibe mais de 70 pranchas, incluindo as de Gabriel Medina e Kelly Slater.
IDH entre os seis melhores do país
Santos ocupa a 6ª posição nacional no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com nota de 0,840, e a 3ª no estado de São Paulo. A cidade foi apontada como a segunda melhor do Brasil para criar filhos e a terceira para envelhecer, segundo levantamentos da Prefeitura de Santos. São cerca de 429 mil habitantes que contam com o VLT, usado por mais de 70 mil passageiros por dia, ciclovias que ligam a praia ao Centro Histórico e universidades como Unifesp e Unisanta. Em 2015, a UNESCO reconheceu Santos como Cidade Criativa do Cinema.
O que visitar entre o porto e o mar?
Santos distribui atrações entre a orla, os morros e o centro histórico. A cidade é plana na parte insular, e quase tudo pode ser alcançado a pé ou de bicicleta.
- Museu do Café: instalado no palácio da antiga Bolsa Oficial de Café, inaugurado em 1922, com vitral de Benedicto Calixto no teto do Salão do Pregão. Tombado pelo IPHAN em 2009.
- Monte Serrat: funicular sobe 147 metros até o santuário de Nossa Senhora do Monte Serrat (1603), com vista panorâmica da cidade e do porto.
- Museu de Pesca: casarão de 1908 com esqueleto de baleia de 23 metros e lula gigante de 5 metros, a única exposta no mundo.
- Aquário de Santos: o mais antigo do Brasil, inaugurado em 1945, com espécies marinhas e de água doce da costa brasileira.
- Parque Valongo: inaugurado em 2024, revitaliza a área portuária com espaço para eventos, gastronomia e história.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O clima tropical úmido garante calor quase o ano inteiro. O verão lota a orla; o inverno seco é a melhor fase para museus e Centro Histórico.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme o ano.
Como chegar à maior cidade da Baixada Santista?
Santos fica a 72 km de São Paulo. O trajeto mais rápido é pela Rodovia dos Imigrantes (SP-160), com descida de cerca de 1h. A Rodovia Anchieta (SP-150) oferece trechos panorâmicos pela Serra do Mar. Ônibus partem do Terminal Jabaquara com frequência alta ao longo do dia.
Desça a serra e caminhe pelo jardim mais extenso do planeta
Santos é a cidade que resolveu colocar um jardim onde caberia um muro de prédios e uma prancha artesanal onde ninguém conhecia o surfe. Os edifícios entortam, mas os índices de qualidade de vida sobem retos. O porto movimenta um quarto do comércio exterior do país, e o pôr do sol continua gratuito ao longo de 5,3 km de canteiros floridos.
Você precisa descer a serra e sentir Santos de perto, pisar no calçadão mais longo do litoral brasileiro e entender por que uma cidade com prédios tortos consegue ser uma das mais equilibradas do país.