Os navios que saíam de Pelotas carregados de charque para o Nordeste voltavam com açúcar nos porões. Dentro dos casarões neoclássicos, famílias abastadas transformavam esse açúcar em doces finos à moda portuguesa. Assim nasceu, no sul do Rio Grande do Sul, a tradição que rendeu à Princesa do Sul o título de Capital Nacional do Doce.
Sal e açúcar: a história que se prova em cada esquina
No século XIX, Pelotas era uma das cidades mais ricas do Brasil. A produção de charque às margens do Arroio Pelotas alimentava o país e financiava uma elite que importava azulejos de Portugal, lustres da França e pianos da Inglaterra. A cidade chegou a ter mais de 50 charqueadas no auge do ciclo.
Esse período de opulência deixou marcas visíveis. Em 2018, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconheceu o Conjunto Histórico de Pelotas como Patrimônio Cultural do Brasil. Na mesma sessão, registrou as Tradições Doceiras da região como Patrimônio Imaterial. Foi a primeira vez na história do Instituto que uma cidade recebeu duplo reconhecimento em uma única reunião.
O que visitar no centro histórico da Princesa do Sul?
A Praça Coronel Pedro Osório é o ponto de partida. No seu entorno estão os principais marcos arquitetônicos da cidade, com casarões ecléticos construídos por charqueadores entre 1830 e 1900.
- Theatro Sete de Abril: inaugurado em 1833, é o primeiro teatro do Rio Grande do Sul e um dos mais antigos do país. Tombado pelo IPHAN em 1972, reabriu em julho de 2025 após 15 anos fechado para restauração.
- Museu do Doce: instalado no Casarão 8, construído em 1878, conta a história da tradição doceira pelotense com acervo, receitas e utensílios de época. Entrada franca.
- Biblioteca Pública Pelotense: fundada em 1875, ocupa prédio imponente com salão nobre no segundo andar e exposições itinerantes.
- Mercado Central: construído em 1846, funciona até hoje com restaurantes, bares, lojas de doces e o Mercado de Pulgas, que lembra as feiras de antiguidades de Montevidéu.
- Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo: fica no prédio que abrigou a primeira faculdade de agronomia do Brasil. Entrada franca.
Pelotas encanta por sua riqueza histórica e pela tradição dos famosos doces de origem portuguesa. O vídeo é do canal Cidades & Cia, que conta com mais de 103 mil inscritos, e apresenta a arquitetura do centro histórico, a Praia do Laranjal e a importância econômica das Charqueadas:
A Rota das Charqueadas às margens do arroio
A cerca de 10 minutos do centro, a Vila da Palha guarda as antigas fazendas de charque que sustentaram a economia pelotense. A Rota das Charqueadas reúne três empreendimentos abertos à visitação, cada um com perfil diferente.
A Charqueada São João, construída em 1810 e tombada pelo IPHAN, é a mais preservada. Mantém o acervo original do ciclo do charque e a fachada da senzala intacta. O casarão serviu de cenário para as minisséries “A Casa das Sete Mulheres” e “O Tempo e o Vento”. A visita guiada pode incluir passeio de barco pelo Arroio Pelotas. As charqueadas Santa Rita e Boa Vista também recebem visitantes e funcionam como pousada e restaurante.
Quais doces não podem faltar na viagem?
A tradição doceira pelotense se divide em duas vertentes: os doces finos, de origem portuguesa e à base de ovos e açúcar, e os doces coloniais, feitos com frutas da região. Ambas foram reconhecidas pelo IPHAN como patrimônio imaterial.
- Quindim e ninho: clássicos dos doces finos, produzidos com gema de ovo, coco e açúcar. Vendidos em confeitarias tradicionais do centro.
- Bem-casado e camafeu: presença obrigatória em festas e casamentos gaúchos. Pelotas exporta esses doces para todo o estado.
- Compotas e cristalizados: representantes da tradição colonial, feitos com frutas como figo, pêssego e marmelo.
- Pastéis de Santa Clara: massa fina recheada com doce de ovos. Um dos símbolos da confeitaria pelotense.
A Fenadoce (Feira Nacional do Doce) acontece anualmente no meio do ano e reúne expositores, shows e oficinas de confeitaria.
Praia de água doce e natureza na Lagoa dos Patos
A 12 km do centro, a Praia do Laranjal é banhada pela Lagoa dos Patos, a maior laguna do Brasil. A faixa de areia atrai moradores e turistas nos meses quentes, com quiosques, esportes náuticos e pôr do sol sobre a água doce. Para quem busca área verde urbana, o Museu da Baronesa funciona na antiga Chácara dos Barões de Três Serros, construída em 1863, com parque arborizado e acervo que retrata os costumes da sociedade pelotense nos séculos XIX e XX.
Quando ir a Pelotas e o que esperar do clima?
O clima é subtropical, com estações bem definidas. O inverno pode ser rigoroso e o verão quente, com chuvas bem distribuídas ao longo do ano.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Princesa do Sul gaúcha?
Pelotas fica a cerca de 250 km de Porto Alegre pela BR-116, aproximadamente 3h de carro. O Aeroporto Internacional João Simões Lopes Neto recebe voos de capitais brasileiras. De Rio Grande, a distância é de apenas 60 km pela BR-392. Ônibus interestaduais partem diariamente da rodoviária.
Prove Pelotas com calma
Pelotas é uma cidade que se revela devagar, entre casarões centenários, doces que guardam receitas de família e charqueadas que contam a história do Rio Grande do Sul. A Princesa do Sul mistura sal e açúcar com uma elegância que só quem herdou dois séculos de tradição consegue manter.
Reserve ao menos três dias, caminhe pelas praças tombadas e prove cada doce que cruzar seu caminho.