No topo do Planalto da Borborema, a 551 m de altitude e 128 km de João Pessoa, Campina Grande recebe quem chega com noites frescas, forró nas calçadas e um orgulho que vem de longe. A “Liverpool Brasileira” já foi a segunda maior exportadora de algodão do planeta, sem jamais ter cultivado a fibra em seu solo.
Como uma cidade do interior rivalizou com Liverpool?
No início do século XX, Campina Grande era a única cidade do interior do Brasil com uma máquina de beneficiamento de algodão. A matéria-prima chegava de municípios vizinhos, era processada ali e seguia de trem até o porto de Recife. Na década de 1940, o volume exportado só perdia para Liverpool, na Inglaterra, o que rendeu à cidade o apelido de “Liverpool Brasileira”.
O algodão fez a população saltar de 20 mil para 130 mil habitantes em pouco mais de três décadas. Ruas foram alargadas, bancos se instalaram e Campina passou a arrecadar mais impostos que a própria capital do estado. Hoje, o Museu de História e Tecnologia do Algodão, instalado na antiga estação ferroviária, preserva maquinários, fotografias e documentos daquela época.
Do ouro branco ao algodão que já nasce colorido
O ciclo do algodão branco ficou para trás, mas a fibra segue presente na identidade campinense. A Embrapa Algodão, sediada na cidade, desenvolveu variedades de algodão naturalmente colorido, nas tonalidades marrom, verde e avermelhado. O produto dispensa tingimento químico e já foi apresentado em desfiles de moda em Milão. Peças feitas com a fibra são vendidas na Vila do Artesão, complexo com cerca de 70 lojas dedicadas ao artesanato paraibano.
Campina Grande é um vibrante polo tecnológico e cultural, eleita a terceira melhor cidade do Nordeste para viver. O vídeo é do canal Cidades do Interior, que conta com mais de 34 mil inscritos, e detalha o famoso “Maior São João do Mundo”, o setor industrial e as opções de lazer no Açude Velho:
O que visitar na Rainha da Borborema?
A vida cultural de Campina Grande se concentra ao redor do Açude Velho, espelho d’água construído em 1830 no coração da cidade. No seu entorno ficam monumentos, museus, bares e restaurantes.
- Monumento Os Pioneiros da Borborema: esculturas em bronze do índio, da catadora de algodão e do tropeiro, figuras que fundaram a identidade local.
- Museu de Arte Popular da Paraíba: projetado por Oscar Niemeyer, o edifício de três blocos circulares é conhecido como Museu dos Três Pandeiros. Foi considerado a última grande obra do arquiteto.
- Monumento Farra da Bodega: estátuas de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro frente a frente, separados por uma mesa em forma de pandeiro.
- Parque da Criança: área verde com pistas de caminhada, quadras e playground, ao lado do Açude Velho. Entrada gratuita.
- Museu Histórico de Campina Grande: funciona em prédio de 1814 que já serviu de cadeia municipal. Frei Caneca foi um de seus prisioneiros, em 1824.
A feira onde se encontra tudo e que virou patrimônio nacional
A Feira Central de Campina Grande ocupa cerca de 75 mil m² e funciona de segunda a sábado. Ervas, carnes, queijos, rapadura, couro, artesanato, flores e comida regional dividem espaço com seleiros, raizeiros e barbeiros que mantêm ofícios tradicionais. Em 2017, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconheceu a feira como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, inscrevendo-a no Livro de Registro dos Lugares.
A tradição começou ainda no século XVIII, quando tropeiros paravam ali para trocar mercadorias entre o litoral e o sertão. A feira cresceu junto com a cidade e segue sendo o lugar onde Campina Grande se reconhece todos os dias.
Que sabores definem a mesa campinense?
A gastronomia do Agreste é farta e temperada. Os pratos carregam a identidade sertaneja com ingredientes locais e preparo de tradição familiar.
- Carne de sol com macaxeira: servida frita ou na brasa, acompanhada de queijo coalho, feijão verde e manteiga da terra. O prato mais pedido da cidade.
- Bode assado no Bodódromo: buchada, picado e bode assado com farofa e rubacão, variação local do baião de dois.
- Cuscuz nordestino: presença obrigatória no café da manhã, servido com ovo, queijo ou charque.
- Cartola: sobremesa de banana frita coberta com queijo coalho derretido e canela.
Como é o clima a 551 m de altitude no Agreste?
A altitude suaviza o calor típico do Nordeste. As noites costumam ser frescas e ventosas, o que torna Campina Grande agradável mesmo nos meses mais quentes.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à capital cultural do Agreste?
Campina Grande fica a 128 km de João Pessoa pela BR-230, cerca de 1h40 de carro. De Recife, são aproximadamente 200 km pela BR-104. O Aeroporto Presidente João Suassuna recebe voos de capitais brasileiras, mas as passagens para João Pessoa costumam ser mais baratas. Ônibus intermunicipais e interestaduais partem diariamente da rodoviária.
Visite a cidade que transformou algodão em identidade
Campina Grande carrega na alma o espírito de uma feira que nunca fecha, de um forró que atravessa gerações e de uma fibra que já nasce com cor. A Rainha da Borborema mistura história, sabor e inventividade de um jeito que só o Agreste paraibano consegue.
Você precisa subir a Borborema e sentir Campina Grande, de preferência em junho, quando a cidade inteira vira um arraial a céu aberto.