Terceira Cúpula Rússia-África, realizada em Moscou, reuniu delegações de 48 dos 54 países africanos. Putin defendeu uma parceria alternativa à influência ocidental no continente.
Enquanto a guerra na Ucrânia continua, a Rússia busca ampliar sua rede de aliados e fortalecer sua presença internacional. Na África, Moscou tenta consolidar parcerias políticas, econômicas e militares, enquanto governos do continente se aproximam do Kremlin por interesses próprios.
Durante a terceira Cúpula Rússia-África, realizada nesta semana em Moscou, o presidente Vladimir Putin apresentou seu país como uma alternativa mais vantajosa aos parceiros ocidentais. Ele acusou as potências do Ocidente de explorar os recursos africanos, adotar práticas neocoloniais e utilizar a dívida como instrumento para limitar o desenvolvimento do continente.
Putin afirmou que a Rússia oferece um modelo diferente de cooperação, baseado na ampliação das relações comerciais e tecnológicas e em benefícios mútuos.
“Nossos negócios não se envolvem na exploração predatória e neocolonial de recursos naturais e humanos”, declarou. Segundo o presidente russo, empresas de seu país contribuem para a geração de empregos e o aumento das receitas fiscais nos países africanos.
Delegações de 48 dos 54 países africanos participaram do encontro, que durou dois dias. Vinte e dois países foram representados por chefes de Estado, segundo o assessor do Kremlin Yury Ushakov. Na cúpula anterior, realizada em 2023, foram 17 representantes nesse nível. Em 2019, na primeira edição, o número chegou a 43.
A participação expressiva também permite a Moscou projetar uma imagem de apoio internacional, em um momento em que enfrenta sanções ocidentais e crescente isolamento diplomático.
Para Will Brown, especialista em política africana do Conselho Europeu de Relações Exteriores, as imagens de Putin ao lado de líderes africanos podem ter mais peso político do que os acordos firmados durante o encontro. Segundo ele, essas imagens podem ser utilizadas por redes de influência russas para moldar percepções na África e em outros países do Sul Global.
“A história da cúpula é a coisa mais importante”, afirmou Brown à CNN.
Países africanos buscam diversificar parcerias
A aproximação com Moscou não significa que os governos africanos estejam escolhendo a Rússia em detrimento do Ocidente. Para Tighisti Amare, diretora do Programa África da Chatham House, muitos países adotam uma estratégia de “não alinhamento diversificado”, mantendo relações com diferentes parceiros internacionais sem se comprometer exclusivamente com um dos lados.
Os interesses variam de acordo com cada governo. Alguns buscam cooperação militar e apoio em segurança; outros procuram acesso a fertilizantes, investimentos no setor energético ou respaldo diplomático.
Brown acrescenta que a disputa entre potências também permite aos governos africanos negociar melhores condições com parceiros ocidentais.
Presença militar russa ganha espaço no continente
A Rússia ampliou sua atuação no Mali, em Burkina Faso e no Níger. Nesses países, governos liderados por militares recorreram a Moscou em busca de apoio na área de segurança após romperem relações com parceiros ocidentais.
A presença militar russa cresceu por meio do Africa Corps, organização paramilitar que assumiu parte das atividades anteriormente conduzidas pelo Grupo Wagner, após a tentativa de motim do grupo contra o Kremlin, em 2023.
O Sahel, faixa semiárida localizada ao sul do deserto do Saara, tornou-se uma das principais áreas de atuação russa no continente.
Segundo Anna Ida Rock, pesquisadora da Agência Sueca de Pesquisa de Defesa, há presença confirmada do Africa Corps em Burkina Faso, na República Centro-Africana (RCA), na Guiné Equatorial, na Líbia, no Mali e no Níger.
Também há relatos de instrutores militares russos na República do Congo, em Madagascar e no Togo. Neste último caso, porém, as informações são contestadas.
Além da atuação terrestre, Moscou tenta ampliar sua presença estratégica no Mar Vermelho por meio de uma proposta de instalação naval no Sudão.
Africa Corps assume funções do Wagner
A substituição do Grupo Wagner pelo Africa Corps não foi apenas uma mudança de nome. A nova organização atua formalmente sob a estrutura do Ministério da Defesa da Rússia e de sua inteligência militar.
Embora muitos integrantes tenham atuado anteriormente no Wagner, o Africa Corps concentra suas atividades em treinamento, assessoria militar e proteção de instalações estratégicas.
O Grupo Wagner, por sua vez, continua atuando na República Centro-Africana, cujo governo resistiu à transição para o novo modelo de presença russa.
