A possibilidade de a Starlink, empresa de internet via satélite ligada ao bilionário Elon Musk, se tornar uma concorrente direta das grandes operadoras de telefonia provocou uma queda nas ações do setor nesta sexta-feira (9). A SpaceX anunciou um acordo para adquirir frequências de 800 MHz nos Estados Unidos, em uma operação que pode ampliar a capacidade da empresa de oferecer conexão diretamente aos celulares.
O índice Stoxx Europe 600 Telecommunications, que reúne empresas europeias de telecomunicações, chegou a recuar 3,3%, atingindo o menor patamar desde fevereiro. Entre as companhias afetadas estavam Deutsche Telekom, Vodafone, Orange e Telefónica. No pré-mercado norte-americano, as ações da T-Mobile, Verizon e AT&T também registraram perdas.
Segundo a SpaceX, a aquisição do espectro de radiofrequência pode ajudar a superar uma das principais limitações técnicas da conexão entre satélites e celulares convencionais. As frequências mais baixas conseguem alcançar distâncias maiores e atravessar obstáculos com mais eficiência, o que pode favorecer a cobertura em ambientes internos e em áreas onde o sinal das redes tradicionais é limitado.
COMPRA DE FREQUÊNCIAS PODE AMPLIAR A ATUAÇÃO DA STARLINK
O acordo prevê a aquisição de 100% do portfólio nacional de frequências de 800 MHz pertencente à empresa Grain Management. O conjunto inclui até 14 MHz de espectro pareado. A conclusão da operação depende da aprovação da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) e do cumprimento de outras condições regulatórias.
A SpaceX pretende combinar sua constelação de satélites com uma infraestrutura terrestre complementar. A estratégia permitiria ampliar a cobertura e, potencialmente, oferecer serviços móveis de forma mais independente das operadoras tradicionais.
Apesar das possibilidades, a aquisição das frequências não significa que a Starlink já esteja pronta para substituir as grandes empresas de telefonia. A construção de uma rede com cobertura e qualidade comparáveis às estruturas existentes ainda envolve desafios técnicos, regulatórios e comerciais.
MERCADO REAGE À POSSIBILIDADE DE NOVA CONCORRÊNCIA
A notícia aumentou a preocupação de investidores com os efeitos que a entrada da SpaceX no mercado móvel pode provocar no setor de telecomunicações. Segundo a Reuters, analistas do Citi consideram o avanço da empresa um risco de longo prazo para ações de companhias de telefonia e TV a cabo.
A analista Stéphane Beyazian, da ODDO BHF, avaliou que a SpaceX poderá disputar espaço em um leilão de frequências previsto pela FCC para 2027. Ela também destacou que a empresa ainda enfrenta obstáculos para oferecer um serviço móvel de qualidade sem depender de acordos com operadoras que já possuem infraestrutura terrestre.
PARCERIA COM A T-MOBILE PODE GANHAR NOVO CONTEXTO
A T-Mobile foi uma das primeiras grandes operadoras a firmar parceria com a SpaceX para conectar celulares convencionais aos satélites Starlink. O projeto, anunciado em 2022, deu origem ao desenvolvimento da tecnologia Direct to Cell, que permite a comunicação entre os satélites e aparelhos compatíveis.
A rede já conta com centenas de satélites equipados para oferecer conectividade móvel diretamente do espaço. A Starlink afirma que a tecnologia pode funcionar com celulares LTE existentes, desde que as condições de conexão sejam adequadas.
Com a compra das frequências, porém, a SpaceX sinaliza a intenção de ampliar sua autonomia e, potencialmente, disputar clientes com empresas que hoje são suas parceiras.
PRÓXIMA GERAÇÃO PROMETE MAIS CAPACIDADE
A Starlink também prepara uma nova geração de satélites móveis, identificada como V2. De acordo com a empresa, esses equipamentos poderão oferecer aproximadamente 20 vezes mais capacidade de transmissão do que os da primeira geração.
A proposta é permitir o acesso a serviços como streaming de vídeos, chamadas de vídeo e outras aplicações diretamente nos smartphones, com transição entre redes terrestres e satélites. O desempenho efetivo dependerá da tecnologia empregada, da cobertura e das condições de utilização.
Em janeiro de 2026, a FCC autorizou a SpaceX a construir, lançar e operar mais 7.500 satélites Starlink de segunda geração, elevando para 15 mil o total autorizado nessa etapa da constelação.
A autorização para ampliar a rede de satélites, entretanto, não substitui a aprovação regulatória necessária para a compra das frequências de 800 MHz. Até a conclusão desse processo, a operação com a Grain Management permanece sujeita às condições estabelecidas pelas autoridades americanas.