A Bolsa brasileira encerrou a sexta-feira em novo recorde histórico, superando pela primeira vez a marca de 209 mil pontos. O Ibovespa avançou 1,38%, chegando aos 209.067 pontos, e acumulou valorização preliminar de 8,9% na semana, o melhor resultado semanal desde abril de 2020.
O movimento ocorreu em meio à divulgação de pesquisas eleitorais que apontam uma disputa acirrada entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Levantamento do Datafolha para o segundo turno indicou 52% dos votos válidos para Flávio e 48% para Lula.
No mercado cambial, o dólar comercial fechou em queda de 0,8%, cotado a R$ 4,98. Na comparação com a sexta-feira anterior, quando a moeda americana estava em R$ 5,21, a desvalorização acumulada foi de 4,4%, a maior queda semanal desde o período posterior ao primeiro turno das eleições presidenciais de 2022.
Expectativa de ajuste fiscal impulsiona ativos
A valorização dos ativos brasileiros está relacionada à expectativa de mudanças na condução das contas públicas. Com o crescimento da dívida pública, investidores acompanham a possibilidade de medidas para conter despesas e melhorar a trajetória fiscal do país.
Uma eventual redução dos riscos fiscais poderia contribuir para diminuir os juros futuros, aliviar pressões inflacionárias e favorecer empresas dependentes de crédito e consumo. Nesse cenário, parte dos investidores interpreta a possibilidade de alternância de governo como um fator favorável à adoção de medidas de controle de gastos.
O movimento, entretanto, reflete expectativas do mercado, e não mudanças fiscais já implementadas.
Ações de varejistas lideram valorização
Na sessão de sexta-feira, empresas ligadas ao consumo interno registraram ganhos expressivos. Pouco antes do encerramento das negociações, as ações da Lojas Renner subiam cerca de 11%, enquanto as do Magazine Luiza avançavam aproximadamente 20%.
Os bancos também contribuíram para a alta do índice. O BTG Pactual registrava valorização de 4,3%, e o Itaú Unibanco avançava 2,2%.
Ao longo da semana, Magazine Luiza, Renner, Cyrela e C&A acumularam ganhos superiores a 15%. Essas companhias podem se beneficiar de um cenário de juros menores, que tende a reduzir os custos de financiamento e estimular o consumo.
Para Jerson Zanlorenzi, chefe da mesa de ações do BTG Pactual, a Bolsa brasileira apresentava preços atrativos e baixa participação de investidores antes da mudança nas expectativas eleitorais. Segundo ele, a alteração na percepção de risco provocou ajustes nas posições dos investidores e contribuiu para a forte valorização dos últimos pregões.
Analistas apontam limites para a alta
Apesar do desempenho positivo, a consultoria britânica Capital Economics avalia que boa parte das notícias favoráveis já está incorporada aos preços das ações e do câmbio. Na avaliação da instituição, a continuidade da valorização dependerá de medidas fiscais concretas, cujos detalhes ainda são desconhecidos.
Zanlorenzi considera que uma eventual vitória da oposição, acompanhada da divulgação da equipe econômica e de propostas de reforma, poderia abrir espaço para novos movimentos de alta. Ele também aponta o avanço da direita no Congresso como um possível fator de apoio a medidas de contenção de despesas.
Essas projeções, porém, dependem dos resultados eleitorais e das decisões que vierem a ser anunciadas.
Juros futuros recuam
As taxas de juros negociadas no mercado futuro também registraram quedas expressivas. Entre a sexta-feira anterior e o último pregão, os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2028 recuaram quase um ponto percentual. Os contratos para janeiro de 2030 caíram cerca de 1,6 ponto percentual.
Segundo Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, a expectativa de ajuste fiscal e de menor estímulo às despesas públicas contribui para reduzir os prêmios exigidos pelos investidores nos contratos de juros. Uma trajetória menos preocupante para a dívida pública também poderia aliviar as pressões sobre a inflação.
No fechamento da semana, as expectativas do mercado passaram a apontar para uma taxa Selic de 11,75% ao final do próximo ano, uma redução de dois pontos percentuais em relação ao patamar de 13,75% informado na reportagem.
Marianna ressalta, contudo, que ainda faltam informações sobre a composição de uma eventual equipe econômica e sobre as propostas para a Fazenda e o Planejamento. Até que esses pontos sejam esclarecidos, as negociações devem continuar reagindo principalmente às sinalizações políticas e às expectativas dos investidores.
O desempenho da Bolsa, do dólar e dos juros mostra como as perspectivas eleitorais podem influenciar os mercados antes mesmo da definição de políticas econômicas. A manutenção dessa tendência dependerá, entre outros fatores, da capacidade de transformar expectativas de ajuste fiscal em medidas efetivas.