A Ucrânia busca autorização para utilizar drones conectados à rede de satélites Starlink em ataques contra lançadores de mísseis balísticos em território russo. A questão, porém, provocou um impasse entre Kiev, a Casa Branca e Elon Musk, dono da SpaceX.
Apesar de informações recentes indicarem uma possível mudança de posição, três fontes familiarizadas com as negociações afirmaram ao Kyiv Independent que Musk continua contrário ao uso do Starlink em operações ofensivas dentro da Rússia. Segundo elas, o empresário considera que a medida representaria uma escalada do conflito e não contribuiria para aproximar o fim da guerra.
Uma das fontes resumiu a posição de Musk da seguinte forma: “Musk quer um acordo nesta guerra, não uma escalada”.
A informação contrasta com uma reportagem publicada pelo Financial Times no domingo, segundo a qual Musk estaria disposto a permitir que drones ucranianos equipados com Starlink atacassem alvos dentro da Rússia, desde que houvesse autorização política da Casa Branca.
O pedido de Kiev não envolve apenas o fornecimento de novos terminais às tropas. A Ucrânia quer que a SpaceX permita o funcionamento do Starlink em território russo, onde o serviço é limitado, para garantir comunicações estáveis a drones utilizados em operações de maior profundidade.
Entre os principais alvos estão lançadores móveis de mísseis balísticos utilizados pela Rússia em ataques contra cidades e infraestruturas ucranianas.
Starlink se tornou importante para a Ucrânia
Desde a invasão russa em larga escala, em fevereiro de 2022, o Starlink passou a desempenhar um papel importante nas comunicações das forças ucranianas. A rede conecta posições militares a centros de comando e também é utilizada por drones para transmissão de imagens e manutenção do controle dos aparelhos em ambientes afetados pela guerra eletrônica.
Agora, Kiev pretende utilizar essa vantagem também em operações realizadas do outro lado da fronteira.
A tentativa de obter autorização, entretanto, criou um impasse envolvendo o governo ucraniano, Musk e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou em 22 de agosto que o Ministério da Defesa havia informado que Musk aceitara o princípio de permitir o funcionamento do Starlink sobre território russo. Segundo Zelensky, faltaria apenas obter a autorização do presidente norte-americano.
Com essa informação, o tema foi levado a Trump durante uma reunião a portas fechadas, em 28 de julho, e, segundo Zelensky, houve concordância do presidente americano. A Ucrânia chegou a discutir com Ursula von der Leyen e António Costa uma possível fórmula europeia para financiar a operação.
Posteriormente, porém, Zelensky descobriu que o suposto primeiro aval de Musk nunca havia existido. O empresário não teria autorizado a medida. Trump chegou a confrontá-lo sobre o episódio.
“Ele achou que eu, de certa forma, o tinha enganado”, recordou o presidente ucraniano.
Zelensky voltou então ao Ministério da Defesa, de onde havia partido a informação inicial, e os responsáveis admitiram que a indicação poderia estar errada.
Quem tem a palavra final?
O episódio também revelou uma segunda divergência que permanece sem solução.
Representantes de Musk consideram que uma decisão com essas consequências deve ser tomada pelo governo dos Estados Unidos. Já, segundo um responsável ucraniano ouvido pelo Kyiv Independent, Washington entende que cabe à SpaceX decidir se o serviço será ou não liberado.
Com isso, Kiev precisa de dois avales: a autorização política dos Estados Unidos e a mudança técnica que somente a empresa privada pode realizar.
Durante os primeiros anos da guerra, Mykhailo Fedorov foi um dos principais interlocutores da Ucrânia com a SpaceX. Próximo de Zelensky desde a campanha presidencial de 2019, Fedorov atuou primeiro como ministro da Transformação Digital e depois na Defesa, ajudando a garantir terminais Starlink para as forças ucranianas.
A relação com Zelensky, porém, mudou durante o verão. Fedorov, que havia sido nomeado ministro da Defesa em janeiro, deixou o cargo em julho em meio a divergências relacionadas à reforma das Forças Armadas.
Ele defendia uma estrutura mais baseada em drones, tecnologia, descentralização e mudanças nas compras militares, enquanto enfrentava uma estrutura de comando mais tradicional.
Após sua saída, Fedorov recusou outros cargos oferecidos por Zelensky e afirmou que pretendia retornar à Defesa. Semanas depois, acusou a Ucrânia de enfrentar uma “crise sistémica de governação” e defendeu a realização de eleições mesmo durante a guerra.
Apesar do afastamento do governo, o canal de comunicação com Musk permaneceu.
Ucrânia já pediu ajuda à SpaceX contra o uso russo
A relação entre Kiev e a SpaceX voltou a ganhar importância no início deste ano, quando forças russas passaram a utilizar terminais Starlink, inclusive em drones.
A Ucrânia pediu então que a SpaceX ajudasse a identificar os equipamentos autorizados e impedisse o uso russo. Em fevereiro, a empresa restringiu esse acesso.
Na ocasião, Fedorov afirmou que o uso do Starlink permitiria aos russos controlar drones a grandes distâncias, alterar suas trajetórias fora do alcance de radares e sensores acústicos ucranianos e atingir alvos militares de alto valor.
Depois de pedir à empresa que impedisse o uso russo, Kiev tentou obter autorização para utilizar a mesma tecnologia em operações contra alvos dentro da Rússia.
Segundo uma das fontes ouvidas pelo Kyiv Independent, as conversas entre Fedorov e Musk foram “extremamente malsucedidas” e teriam reforçado a convicção do empresário de que não deveria permitir o uso do Starlink em ataques dentro do território russo.
Mesmo após deixar o governo, Fedorov confirmou que continuava negociando com Musk, mas não revelou os resultados dessas conversas.
Zelensky tenta mudar posição de Musk
Zelensky também continua tentando obter a autorização.
O presidente ucraniano reconheceu que Musk ainda considera o uso do Starlink em território russo uma escalada, mas afirmou que Kiev espera convencê-lo a mudar de posição.
Apesar das divergências, a relação não chegou a uma ruptura. Em 26 de agosto, Zelensky condecorou Musk com a Ordem da Liberdade, uma das principais distinções da Ucrânia, pelo apoio prestado ao país.
A insistência ucraniana tem uma justificativa militar específica.
Em áreas ocupadas pela Rússia dentro do território ucraniano, as forças de Kiev utilizam drones equipados com Starlink em operações que podem chegar a 200 quilômetros da linha de frente. A conexão permite transmitir imagens, corrigir trajetórias e manter o controle dos aparelhos mesmo em regiões afetadas pela guerra eletrônica.
Dentro da Rússia, porém, o serviço deixa de funcionar.
Isso não impede a Ucrânia de realizar ataques contra bases, depósitos, refinarias e linhas logísticas russas. Para essas operações, Kiev utiliza outros sistemas de navegação e comunicação.
A situação é diferente quando o alvo é móvel. Um alvo grande, imóvel e com coordenadas conhecidas pode ser atingido mesmo sem uma conexão permanente. Já um veículo que se desloca, realiza um disparo e deixa o local rapidamente apresenta um desafio maior.
Lançadores de mísseis são o principal objetivo
É nesse cenário que entram os lançadores de mísseis balísticos.
A Rússia utiliza sistemas Iskander e mísseis de origem norte-coreana contra alvos em território ucraniano. Os lançadores são móveis, podendo mudar de posição, realizar o disparo e deixar o local antes de serem encontrados.
A intenção de Kiev é utilizar drones conectados ao Starlink para localizar e acompanhar esses equipamentos e, quando houver oportunidade, destruí-los antes do lançamento.
Os mísseis balísticos estão entre as ameaças mais difíceis para a defesa aérea ucraniana. Os sistemas Patriot fornecidos pelos Estados Unidos são o principal recurso disponível para tentar interceptá-los, mas existe escassez de interceptadores.
Nos primeiros dez dias de agosto, a Rússia lançou quase 70 mísseis balísticos, dos quais apenas um foi interceptado, segundo dados da Força Aérea.
A estratégia ucraniana, portanto, é tentar destruir o lançador enquanto ele ainda está no solo, em vez de esperar pelo lançamento do míssil.
Para Musk, entretanto, permitir que o Starlink seja utilizado dessa maneira significaria fazer com que uma tecnologia de sua empresa participasse diretamente de operações ofensivas dentro da Rússia.
Musk já recusou uso do Starlink em operações ofensivas
Essa não seria a primeira vez que Musk estabelece esse limite.
Em 2022, a Ucrânia pediu cobertura do Starlink na região da Crimeia para apoiar uma operação contra a frota russa. Musk recusou.
Posteriormente, o empresário explicou que temia transformar a SpaceX em participante direta de uma grande operação militar e provocar uma reação mais grave de Moscou.
Uma investigação da Reuters também revelou que, em setembro daquele ano, Musk determinou a interrupção do serviço em determinadas áreas durante a contraofensiva ucraniana no sul.
Segundo fontes ouvidas pela agência, a decisão afetou comunicações militares, drones e operações de artilharia. Musk temia que uma derrota russa mais profunda pudesse levar o Kremlin a considerar uma resposta nuclear.
Desde então, o cenário mudou. O Pentágono passou a contratar serviços Starlink para a Ucrânia, enquanto a SpaceX ampliou seus contratos com o setor de defesa dos Estados Unidos.
Uma característica, porém, permanece: a empresa continua tendo capacidade para determinar onde a rede funciona e em quais circunstâncias pode ser utilizada.
É justamente esse poder que voltou ao centro da guerra.
Kiev quer utilizar uma infraestrutura privada norte-americana para atacar lançadores e outros alvos militares dentro da Rússia. Segundo Zelensky, Donald Trump demonstrou disposição para conceder a autorização política. Washington, por outro lado, entende que a decisão operacional cabe à SpaceX.
Musk continua recusando a mudança, por considerar que ela representaria uma escalada do conflito.
Assim, uma das tecnologias que se tornou fundamental para a Ucrânia durante a guerra possui atualmente uma fronteira própria: dentro do território ucraniano e das áreas ocupadas, Kiev pode utilizar o Starlink; dentro da Rússia, o funcionamento para esse tipo de operação permanece bloqueado por decisão da SpaceX.
Com informações de CNN Portugual.
