A Polícia Federal identificou um esquema que teria utilizado documentos falsos e sistemas destinados a autoridades públicas para tentar retirar do ar perfis considerados inconvenientes por Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.
As informações aparecem em relatórios da investigação que tiveram o sigilo parcialmente retirado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), após decisão do presidente da Corte, Edson Fachin.
Segundo a PF, pessoas ligadas a Vorcaro teriam recorrido de forma indevida a estruturas estatais para dar aparência oficial a pedidos de remoção de conteúdos e perfis nas redes sociais.
Sistemas de autoridades teriam sido usados
Entre os mecanismos utilizados estavam os portais de Law Enforcement Information Request, ferramentas criadas para que autoridades encaminhem solicitações formais a empresas de tecnologia.
De acordo com os investigadores, o grupo teria utilizado esses sistemas para apresentar pedidos que aparentavam partir de órgãos públicos. A PF também encontrou ofícios supostamente assinados por servidores públicos, embora não correspondessem a solicitações oficiais.
Para a corporação, a estratégia buscava conferir legitimidade institucional às ordens encaminhadas às plataformas.
Documento falso foi enviado à Meta
Um dos casos identificados pela investigação envolve um ofício encaminhado à Meta, responsável por plataformas como Facebook e Instagram.
Segundo a PF, o documento teria sido falsamente atribuído ao Grupo Especial de Combate à Corrupção do Ministério Público do Ceará (MP-CE). O objetivo seria conseguir a remoção de um perfil que Vorcaro considerava falso e que, segundo ele, estaria relacionado à sua então namorada, Martha Graeff.
Em outubro de 2024, mensagens atribuídas ao empresário mostram cobranças para que a conta fosse retirada do ar. As solicitações continuaram nos dias seguintes.
Na mesma data, Luiz Phillipe Machado Mourão, conhecido como “Sicário” e apontado pela PF como integrante do grupo ligado a Vorcaro, informou que havia reforçado o pedido de remoção.
Pouco depois, Mourão comunicou que a conta havia sido banida pela Meta. Para os investigadores, o episódio indica que as solicitações irregulares teriam produzido efeito junto à plataforma.
E-mail de servidora foi utilizado
A PF também identificou o uso do endereço de e-mail institucional de uma funcionária do Ministério Público do Ceará para acessar os sistemas destinados a solicitações de autoridades.
Os investigadores, porém, não afirmam que a servidora tenha participado conscientemente do esquema. O relatório aponta que ainda não era possível determinar se ela tinha conhecimento da utilização de suas credenciais ou se o acesso ocorreu de maneira indevida por terceiros.
Para a Polícia Federal, o uso do endereço institucional foi suficiente para conferir uma “aparência de legitimidade funcional” aos pedidos encaminhados às plataformas.
PF aponta risco para sistemas oficiais
Na avaliação dos investigadores, a prática não teria apenas o objetivo de remover perfis específicos, mas também representaria uma ameaça à segurança e à confiabilidade de mecanismos criados para atender demandas legítimas de autoridades.
A PF afirma que o uso irregular dessas estruturas pode comprometer sistemas empregados em investigações reais, além de criar riscos relacionados à proteção de dados e à segurança da informação.
As conclusões fazem parte da investigação sobre a atuação de pessoas ligadas a Daniel Vorcaro e ainda dependem do avanço das apurações para eventual responsabilização dos envolvidos.
