O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a atuar diretamente na crise que se instalou entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), após aliados avaliarem que a disputa interna na Corte pode provocar impactos políticos para a campanha de reeleição.
Segundo pessoas próximas ao presidente, Lula considera urgente a formação de uma maioria no Supremo capaz de conter a atuação do ministro André Mendonça, relator das investigações envolvendo o Banco Master e o caso do INSS.
A mudança de postura ocorreu depois que Mendonça determinou, na terça-feira (8), o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. A decisão levou o governo a abandonar, ao menos momentaneamente, a estratégia de tentar se manter à margem da disputa interna do Judiciário.
Dino reintegra diretor da PF
Na manhã desta quarta-feira (9), o ministro Flávio Dino determinou a reintegração de Andrei Rodrigues e Leandro Almada aos cargos. A decisão foi tomada após um pedido apresentado pelo próprio diretor-geral da PF, em um processo sob relatoria de Dino.
O caso está relacionado a uma investigação sobre suspeitas envolvendo emendas parlamentares destinadas à produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro que recebeu recursos ligados ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Dino também encaminhou a decisão para análise do Plenário do STF.
A medida representou uma reversão direta da decisão de Mendonça e aprofundou a crise entre os integrantes da Corte. Horas depois, o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu as decisões de Mendonça e Dino e determinou que o impasse seja submetido ao Plenário.
Lula muda estratégia
De acordo com interlocutores ouvidos nas articulações políticas, Lula teria concluído que as tentativas de estabelecer um canal de diálogo com Mendonça não produziram o resultado esperado.
O ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, vinha atuando para aproximar o governo do ministro do STF e tentar reduzir a tensão. Com o agravamento da crise, porém, aliados passaram a defender uma reação mais contundente contra Mendonça.
A avaliação de integrantes do entorno presidencial é de que o ministro, indicado ao Supremo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, estaria atuando de maneira política e poderia favorecer o senador Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário de Lula na disputa presidencial.
Essa interpretação, no entanto, é atribuída a aliados do presidente e não representa uma conclusão oficial sobre a atuação de Mendonça. O ministro afirma agir com independência e dentro de suas atribuições.
Presidente critica sigilo do caso Master
Lula também passou a se manifestar publicamente sobre o caso Banco Master. Nesta quarta-feira, o presidente defendeu a quebra completa do sigilo das investigações e afirmou que o país precisa de respostas diante da crise institucional.
“É urgente a quebra completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master, seja quem for, doa a quem doer. O Brasil precisa saber a verdade”, escreveu Lula nas redes sociais.
A declaração ocorreu após a divulgação de mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, que estão no centro da crise envolvendo o STF. Mendonça, relator do caso, retirou o sigilo de parte do material, enquanto Moraes reagiu pedindo providências contra o colega.
Pressão sobre Fachin
Outra avaliação atribuída a aliados de Lula é a de que o presidente do STF, Edson Fachin, demorou a reagir à escalada da crise.
A decisão de Dino de reintegrar Andrei Rodrigues aumentou a pressão sobre Fachin, que posteriormente suspendeu as duas decisões conflitantes e assumiu a condução institucional do impasse. O presidente da Corte também determinou que Andrei preste informações em 48 horas antes de analisar sua permanência no comando da PF.
Fachin deverá levar o conflito ao Plenário do Supremo em uma tentativa de interromper a sequência de decisões individuais que, segundo ele próprio, criou sobreposição e incompatibilidade entre ordens judiciais.
Governo teme impacto eleitoral
A entrada direta do governo na crise também gera preocupação no entorno de Lula. O receio é de que a atuação em defesa de Andrei Rodrigues seja interpretada como alinhamento do presidente com Alexandre de Moraes, hoje um dos principais adversários internos de Mendonça.
A estratégia discutida por aliados seria sustentar que o governo não está defendendo nenhum ministro do Supremo, mas a investigação de todos os envolvidos no caso Master, independentemente de posição política.
A crise, porém, já passou a ter impacto direto sobre a disputa eleitoral. O confronto entre Mendonça e Moraes, as mensagens de Vorcaro e as decisões envolvendo o comando da PF transformaram o STF em um dos principais focos da campanha presidencial de 2026. A própria Reuters destacou que a disputa judicial passou a aumentar as tensões políticas em um momento de corrida eleitoral.
