Senador considera erro a estratégia de confronto simultâneo com os principais veículos durante o governo do pai e pretende estabelecer uma relação institucional com grandes emissoras sem abandonar o fortalecimento da mídia independente
Uma eventual chegada de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República deverá representar uma mudança significativa na relação do bolsonarismo com os grandes veículos de comunicação do país.
Segundo uma fonte próxima à campanha ouvida pela reportagem, Flávio considera que um dos erros políticos do governo de Jair Bolsonaro foi transformar praticamente toda a grande imprensa em adversária ao mesmo tempo, criando uma relação de confronto permanente especialmente com os maiores grupos de comunicação do país.
Na avaliação atribuída ao senador pela fonte, entrar simultaneamente em choque com Globo e outros grandes veículos foi um “erro crasso” do governo anterior, porque acabou fechando canais institucionais importantes e transformando divergências editoriais em uma guerra política praticamente permanente.
A sinalização é de que, caso seja eleito presidente, Flávio pretende seguir outro caminho.
Relação com grandes emissoras
A fonte afirma que um eventual governo Flávio Bolsonaro pretende manter diálogo institucional com as grandes empresas de comunicação e demonstrar sensibilidade às demandas legítimas do setor, sem que isso signifique interferência na linha editorial dos veículos.
A estratégia seria separar críticas a reportagens ou posicionamentos editoriais da relação institucional que a Presidência da República precisa manter com empresas de comunicação de alcance nacional.
Essa disposição não aparece apenas nos bastidores.
Em junho, durante participação no fórum Rumos do Brasil, promovido pela revista Veja, Flávio Bolsonaro afirmou publicamente que considera a relação com a imprensa um dos problemas ocorridos durante o governo de Jair Bolsonaro.
Na ocasião, o senador disse que pretende mudar essa dinâmica em uma eventual Presidência e defendeu o papel da imprensa, a liberdade de expressão e a liberdade dos veículos para publicar inclusive reportagens que considere injustas contra seu governo.
A declaração pública reforça a informação obtida pela reportagem de que uma mudança de postura em relação aos grandes grupos de comunicação está sendo considerada pelo candidato.
Globo simboliza mudança de estratégia
A relação com a Globo talvez seja o exemplo mais emblemático dessa possível mudança.
Durante o governo Jair Bolsonaro, os embates entre o então presidente e profissionais e veículos do Grupo Globo tornaram-se frequentes e passaram a ocupar parte relevante do debate político nacional.
Flávio aparentemente pretende evitar a repetição desse cenário.
O senador já participou, nesta campanha, de entrevista na TV Globo e está se preparando para participar do debate da emissora na reta final do primeiro turno.
A estratégia indica uma tentativa de estabelecer uma relação diferente daquela que marcou boa parte do governo de seu pai: divergências poderão continuar existindo, mas sem transformar necessariamente os veículos de comunicação em adversários políticos permanentes.
Jornalismo independente também deverá ganhar espaço
A aproximação institucional com os grandes veículos, entretanto, não significaria abandonar os canais independentes e veículos digitais que cresceram de maneira expressiva nos últimos anos.
Segundo a fonte ouvida pela reportagem, a orientação defendida por Flávio seria justamente trabalhar nas duas frentes.
De um lado, reconstruir pontes com as grandes emissoras, jornais e portais nacionais. De outro, ampliar o espaço institucional para veículos independentes, sites regionais, produtores digitais e novos projetos jornalísticos.
A ideia seria evitar uma escolha entre “grande imprensa” e “mídia independente”, mantendo canais de diálogo com ambos.
Esse desenho representaria uma diferença relevante em relação ao ambiente de confronto que caracterizou diversos momentos da Presidência de Jair Bolsonaro.
Um dos aprendizados do governo Bolsonaro
Publicamente, Flávio já tratou o assunto como um aprendizado decorrente da experiência do governo do pai.
Ao falar sobre o tema em junho, o senador afirmou que pretende fazer diferente justamente por considerar que houve erros na condução da relação com a imprensa.
Agora, a informação obtida nos bastidores da campanha indica que essa avaliação poderá se transformar em uma diretriz de governo caso Flávio Bolsonaro vença a eleição presidencial.
O princípio seria relativamente simples: manter divergências políticas e editoriais quando elas existirem, mas sem romper os canais institucionais com os grandes grupos de comunicação.
Ao mesmo tempo, o senador pretende preservar e fortalecer o espaço conquistado pelo jornalismo independente e pelos veículos digitais.
Se essa orientação for efetivamente colocada em prática em um eventual governo, representará uma das mudanças mais perceptíveis de Flávio em relação ao estilo político adotado por Jair Bolsonaro na Presidência.