O administrador de empresas Aníbal Castelo Branco, autor de um parecer que questiona os valores da dívida do Corinthians com a Caixa Econômica Federal pela Neo Química Arena, reuniu-se com a diretoria do clube na quarta-feira (2) para apresentar sua análise.
Após o encontro, o Corinthians informou que pretende incluir Castelo Branco em uma comissão responsável por examinar o contrato firmado com a Caixa. A participação permitirá que o administrador tenha acesso a números e documentos submetidos a sigilo comercial.
Castelo Branco calculou que a dívida do Corinthians em 2019 seria de aproximadamente R$ 280 milhões. Naquele período, porém, a Caixa cobrava judicialmente R$ 536 milhões e apontava um saldo devedor de R$ 423 milhões.
Considerando a atualização por juros, o valor estimado pelo administrador ficaria cerca de R$ 402 milhões abaixo da dívida atual, calculada em aproximadamente R$ 600 milhões.
Parecer questiona multa cobrada pela Caixa
Um dos principais pontos levantados por Castelo Branco envolve a multa aplicada após o Corinthians interromper os pagamentos do financiamento.
Segundo ele, a Caixa teria aplicado uma multa de 10% sobre todo o saldo devedor, que seria de aproximadamente R$ 48 milhões. Com a penalidade, o valor chegou aos R$ 536 milhões cobrados judicialmente.
Castelo Branco sustenta, porém, que a multa deveria ter incidido apenas sobre o valor efetivamente em atraso.
“Quando o Corinthians deixou de pagar, a Caixa cobrou uma multa de 10% sobre o saldo devedor, de R$ 48 milhões, o que deu os R$ 536 milhões. Mas ela só deveria ter cobrado os 10% sobre o valor em atraso, o que daria R$ 3,7 milhões”, afirmou.
O administrador ressalta que sua análise está limitada aos documentos que estavam disponíveis no processo judicial de 2019. O parecer, portanto, não considera valores liberados posteriormente, encargos, taxas, amortizações, pagamentos e outras incorporações feitas depois daquele período.
“Eu me dediquei a entender o que aconteceu até 2019. Tem diferença, então tudo que está para frente está contaminado”, disse.
MP-SP abre procedimento para analisar documento
O Ministério Público de São Paulo abriu um procedimento administrativo depois de receber o parecer.
A Caixa Econômica Federal, por sua vez, negou a existência de irregularidades e afirmou que tanto a contratação realizada em 2013 quanto a renegociação feita em 2022 seguiram procedimentos de assessoramento técnico e jurídico, além das regras de governança adotadas pelo banco e pelo Corinthians.
Quem é Aníbal Castelo Branco
Castelo Branco se apresenta como presidente do Instituto de Perícia Investigativa (IPI). A entidade, porém, está registrada como uma microempresa individual, com capital social de R$ 10 mil, e anteriormente utilizava a denominação Centralizadora de Cálculos Judiciais e Extrajudiciais.
Ele também se apresenta como integrante do Conselho Regional de Administração e da Ordem dos Peritos Judiciais de São Paulo, organização criada pelo próprio administrador.
Uma das atuações de maior projeção de Castelo Branco ocorreu como interventor judicial da Associação Metropolitana de Gestão, organização da área da saúde cujos administradores foram afastados pela Justiça em 2021 após uma operação da Polícia Federal.
No site da antiga empresa, Castelo Branco cita três trabalhos como perito, todos realizados por indicação do advogado Ricardo Sayeg, que também representa o ex-presidente do Corinthians Augusto Melo.
Administrador também atua em caso envolvendo Banco Master
Castelo Branco também presta serviços ao Instituto de Previdência Social dos Servidores de Cajamar, que investiu R$ 87 milhões em letras de crédito do Banco Master sem garantias.
O investimento é investigado pela Polícia Federal. Castelo Branco afirma que busca identificar responsabilidades de órgãos e empresas que teriam participado do processo.
“No caso de Cajamar, estou procurando todos os elementos para justificar quem errou. O Banco Central já é certeza”, declarou.
Parecer também envolve produção de “Dark Horse”
O administrador também foi contratado pelo escritório de Ricardo Sayeg como assistente da defesa da produtora GoUp no caso relacionado ao filme “Dark Horse”.
Castelo Branco é autor de um parecer que atribui ao fundo Havengate Development LP todo o dinheiro utilizado na produção do longa. Segundo o documento, até 10 de junho, o fundo havia transferido US$ 13,3 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 75 milhões, para o filme.
O parecer, entretanto, não detalha a destinação das remessas e apresenta de maneira genérica as etapas de produção da obra.
A atuação em diferentes casos envolvendo instituições financeiras, contratos e disputas judiciais colocou Castelo Branco no centro de análises que agora também passam a ser consideradas pelo Corinthians na revisão da dívida da Neo Química Arena.
