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Início Clima

Chuva de meteoritos transforma cidade do Sertão de Pernambuco em “corrida do ouro”

Por Junior Melo
07/set/2026
Em Clima
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Uma chuva de meteoritos transformou a rotina de uma pequena cidade do Sertão de Pernambuco em uma verdadeira “corrida do ouro”. Em 19 de agosto de 2020, fragmentos de rochas espaciais caíram sobre Santa Filomena, no Sertão do Araripe, atingindo telhados, árvores e quintais. O maior fragmento encontrado pesava 38 quilos.

Ninguém ficou ferido, mas o fenômeno atraiu pesquisadores, curiosos e compradores interessados nas pedras. Moradores passaram a receber ofertas pelos fragmentos encontrados, enquanto especialistas percorriam a região em busca de material para estudos científicos.

Na época, o prefeito Cleomatson Vasconcelos resumiu a movimentação como uma “corrida do ouro”.

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Luz no céu e pedras espalhadas pela cidade

O fenômeno começou com um clarão no céu, seguido pela queda de dezenas de fragmentos em diferentes pontos de Santa Filomena.

A maior parte das pedras era pequena, mas algumas tinham dimensões consideráveis. Segundo relatos registrados na época, fragmentos atravessaram telhados e copas de árvores antes de atingir o solo.

Apesar da velocidade com que as rochas chegaram à superfície, ninguém ficou ferido.

O caso chamou atenção também porque foi a terceira queda de meteoritos registrada na região em pouco mais de um mês. Outros episódios haviam ocorrido em 16 de julho e 14 de agosto de 2020.

Para Marcelo Zurita, diretor técnico da Rede Brasileira de Monitoramento de Meteoros (Bramon), a proximidade entre os eventos era rara, mas não necessariamente indicava uma relação entre eles.

“É raro acontecer assim em lugares tão próximos e em tão pouco tempo, mas é coincidência”, afirmou.

Atmosfera funciona como um “escudo”

Os fragmentos de meteoritos são partes de rochas espaciais que entram na atmosfera terrestre em alta velocidade. Durante a passagem, o atrito e a resistência do ar provocam intenso aquecimento e podem fazer com que boa parte do material se desintegre antes de chegar ao solo.

Segundo Zurita, a atmosfera funciona como uma espécie de escudo natural da Terra, desintegrando muitas das rochas que entram no planeta.

No caso de Santa Filomena, porém, parte do material resistiu à passagem pela atmosfera e chegou intacta ao solo, dando origem aos fragmentos encontrados pelos moradores.

Meteoritos têm valor científico

Além do possível valor comercial, as pedras despertaram grande interesse da comunidade científica.

Para Adalberto Tavares da Silva, técnico do Laboratório de Astronomia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a análise dos meteoritos pode ajudar os pesquisadores a compreender a composição do material que deu origem ao Sistema Solar.

“É através da coleta e da análise que nós compreendemos o material que formou o Sistema Solar”, afirmou.

Os estudos também podem contribuir para a compreensão da trajetória desses objetos e ajudar pesquisadores a aprimorar previsões sobre futuras quedas.

Cidade vira destino de pesquisadores e compradores

Santa Filomena, que tinha pouco mais de 6,9 mil habitantes, passou a receber uma movimentação incomum depois que a notícia da chuva de meteoritos se espalhou.

Pesquisadores foram até o município para localizar e estudar os fragmentos. Ao mesmo tempo, compradores e chamados “caçadores de meteoritos” passaram a procurar as pedras que haviam caído na região.

Alguns moradores decidiram doar os fragmentos para pesquisadores. Outros preferiram guardá-los ou tentar vendê-los.

O interesse comercial provocou uma disputa pelos meteoritos encontrados nos quintais e terrenos da cidade.

Fragmento de 38 kg recebeu ofertas de até R$ 120 mil

A maior pedra encontrada, com 38 quilos, teria recebido ofertas de até R$ 120 mil feitas por estrangeiros interessados em comprar o material, segundo relatos publicados na época.

A família que encontrou o fragmento chegou a afirmar que a situação havia se transformado em um problema.

O prefeito também relatou que compradores começaram a oferecer dinheiro aos moradores poucos dias depois da queda.

“Algumas pessoas chegaram alguns dias depois do fato oferecendo dinheiro de uma forma aleatória. Criou-se até uma ‘corrida do ouro’”, disse Vasconcelos.

Naquele momento, o município também buscava orientação de órgãos federais e instituições científicas para lidar com a coleta e a preservação dos fragmentos.

Museu Nacional recebeu fragmento de 2,8 kg

Um dos meteoritos encontrados em Santa Filomena acabou incorporado ao acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

Em abril de 2023, a instituição apresentou oficialmente um fragmento de aproximadamente 2,8 quilos, classificado como condrito. A peça foi adquirida após a chuva de meteoritos de 2020 e se tornou o primeiro meteorito incorporado à coleção do Museu Nacional depois do incêndio que destruiu parte do prédio e do acervo, em 2018.

Segundo a pesquisadora Maria Elizabeth Zucolotto, uma das primeiras especialistas a chegar a Santa Filomena após a queda, o fragmento foi escolhido por apresentar características consideradas únicas.

O que aconteceu com a pedra de 38 quilos?

Apesar de ser o maior fragmento encontrado, a rocha de 38 quilos não é a mesma peça que foi incorporada ao acervo do Museu Nacional.

O destino final do maior meteorito encontrado em Santa Filomena não está registrado nas fontes citadas. O que se sabe é que a pedra recebeu ofertas de compradores estrangeiros e se tornou um dos principais símbolos da corrida provocada pelo fenômeno.

A queda de 2020 transformou Santa Filomena em um ponto de interesse para a ciência e também revelou um aspecto pouco conhecido dos meteoritos: além de ajudarem a contar a história do Sistema Solar, essas rochas espaciais podem adquirir alto valor comercial assim que chegam ao solo.

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